Trabalho no Oiapoque revela circulação simultânea de patógenos e propõe diagnósticos integrados para tratamento de doenças em áreas tropicais.
A investigação inédita que compõem um dos eixos da tese de doutorado de Marcelo Cerilo-Filho investiga a interface entre a malária — especificamente a causada pelo Plasmodium Vivax — e arboviroses como dengue, chikungunya e zika vírus na região amazônica. O trabalho revela que esses patógenos coexistem no mesmo ambiente e podem afetar simultaneamente os mesmos pacientes, gerando coinfecção ativa.
A pesquisa realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com outras universidades federais e apoio da Superintendência de Vigilância em Saúde do Estado do Amapá, é desenvolvida para preencher uma importante lacuna na literatura científica sobre infecções simultâneas de malária e arbovírus em regiões tropicais/subtropicais e o impacto na evolução clínica dos pacientes.
O estudo foi realizado em Oiapoque, cidade localizada na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, e aponta uma alta circulação de malária com arbovírus no local. A não realização de investigação simultânea pode levar a subdiagnósticos das coinfecções, impossibilitando que o paciente seja submetido ao tratamento ideal para tratar os sintomas.
O doutorando da UFF acredita que o sistema de saúde ainda não está preparado para lidar com a co-circulação das doenças. “Embora existam programas bem estruturados para o controle da malária e da arbovirose separadamente no Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, o sistema ainda funciona de forma fragmentada. Na prática, muitas unidades não realizam investigação simultânea para diferentes microrganismos em pacientes com febre”, acrescenta.
Para o professor Ricardo Luiz Dantas Machado, orientador da pesquisa e especialista em malária desde 1994, o estudo demonstra resultados importantes para que os programas de controle aprimorem uma rotina de diagnóstico com essas doenças, além de ressaltar o impacto socioeconômico causado na população. “De modo geral, tais doenças têm prevalência em áreas de pobreza, onde as pessoas dependem do trabalho diário para obter sustento. O indivíduo acamado por problemas de saúde gera uma complicação socioeconômica para essas populações”, conclui Machado.
