Um estudo conduzido na Universidade Federal Fluminense (UFF) investigou a interface entre a malária – especificamente a causada pelo Plasmodium vivax – e arboviroses como dengue, chikungunya e zika vírus. A pesquisa, realizada em campo na região do Oiapoque, localizada na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, aponta que ambos os microrganismos coexistem na mesma localidade e podem gerar coinfecções ativas.
“Muitos estudos, até então, tratavam essas doenças de forma separada. Nosso trabalho mostra que, na prática, essas doenças e esses parasitas coexistem no mesmo ambiente e podem afetar as mesmas pessoas”, aponta Marcelo Cerilo-Filho, que realizou a pesquisa como um dos eixos da tese de doutorado, com um dos artigos publicado intitulado “Co-circulation of Plasmodium vivax and Arboviruses in the Brazil–French Guiana Border”, no Programa de Pós-Graduação em Microbiologia e Parasitologia Aplicadas da UFF, na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical em 2026.
O trabalho contou com a orientação do professor do Departamento de Microbiologia e Parasitologia da UFF, Ricardo Luiz Dantas Machado, que trabalha com a malária desde 1994 e teve, em 2010, a oportunidade de avaliar a frequência de arboviroses em áreas endêmicas da Amazônia, a partir de amostras positivas para parasitas causadores da malária. Financiada por bolsas de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo programa Cientista do Nosso Estado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), a pesquisa teve a colaboração da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).
Outro estudo publicado pelo grupo, no formato de revisão sistemática, na revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz em 2024, indicou que os maiores relatos de coinfecção acontecem em países tropicais ou subtropicais, em especial em áreas de fronteiras, como a região do Oiapoque, no Amapá. Segundo Machado, o fenômeno ocorre por conta do grande fluxo populacional nas fronteiras, fazendo com que os microrganismos sejam carregados de um país para o outro. “A medicina do viajante é uma realidade que nós temos no mundo inteiro, em que pessoas carregam, de uma área endêmica para uma área não endêmica, microrganismos e parasitas responsáveis por essas doenças”, indica o professor.
Outro fator importante para o número de casos nesses locais são as condições ambientais e sociais frequentadas pelos moradores. Regiões tropicais apresentam temperaturas elevadas, alta umidade e presença de água parada, decorrentes de coleções hídricas devido às chuvas frequentes, o que favorece a proliferação de mosquitos vetores das doenças. Também contribuem para a manutenção da transmissão dos microrganismos e, consequentemente, desenvolvimento das doenças, a urbanização desordenada, a mobilidade populacional e a limitação do sistema de saúde.
A pesquisa buscou entender como doenças com sintomas tão semelhantes – como febre, dor no corpo e cefaleia (termo técnico para dor de cabeça) – podem ser melhor monitoradas em regiões onde diferentes vetores contribuem para sua proliferação.
Nesse sentido, o doutorando Cerilo-Filho acredita que o sistema de saúde ainda não está preparado para lidar com a co-circulação das doenças. “Embora existam programas bem estruturados para o controle da malária e da arbovirose separadamente no Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, o sistema ainda funciona de forma fragmentada. Na prática, muitas unidades não realizam investigação simultânea para diferentes microrganismos em pacientes com febre”, acrescenta.
A não realização de investigação simultânea leva a sub-diagnósticos das coinfecções, impossibilitando que o paciente seja submetido ao tratamento ideal para os sintomas. A coinfecção de malária e arboviroses intensifica os sintomas apresentados, o que pode ocasionar uma alteração na resposta imunológica do paciente e potencialmente impactar sua evolução clínica. “Na prática, isso vai exigir maior atenção da equipe de saúde, pois o quadro pode ser mais complexo do que uma infecção isolada”, conclui Marcelo.
No artigo publicado no início deste ano na revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, foi observada uma alta frequência de corpos IgG – anticorpos de memória que protegem o organismo contra infecções futuras geradas pelo mesmo patógeno (como dengue e chikungunya) – na população fronteiriça, indicando uma alta circulação desses vírus na região. De 300 amostras analisadas, coletadas na fronteira Brasil-Guiana Francesa entre 2014 e 2015, 102 (34%) foram diagnosticadas com malária por Plasmodium vivax, enquanto 198 (66%) testaram negativas e foram incluídas no grupo de controle.

Todos os participantes deste estudo apresentavam temperatura axilar superior a 37,5 °C, caracterizando-os como febris, sintoma comum em casos de malária. Foto: Pexels
Os desafios de uma análise de elevado nível
Realizar ciência de alto nível na Amazônia exige superar barreiras que vão além do laboratório. O estudo enfrentou dificuldades logísticas, desde o deslocamento entre Macapá, capital do Amapá, e Oiapoque até a manutenção da infraestrutura básica para a preservação das amostras. Para mantê-las em condições adequadas de armazenamento, foram coletadas e armazenadas em unidades oficiais de atendimento da malária, mantidas pela Superintendência de Vigilância em Saúde do Estado do Amapá.
O coordenador do projeto, professor Ricardo Machado, reforça a importância das parcerias interinstitucionais para viabilizar projetos desse porte ao destacar o custo elevado de operar na região Norte a partir de universidades do Sudeste. “A ciência avançou tanto que ninguém tem condições de desenvolver e estabelecer no seu laboratório todas as análises. Parcerias com outras universidades, como a UFS e a UNIFAP potencializam os estudos, não só porque os parceiros ajudam na coleta das amostras, como também auxiliam em algumas análises importantes para chegarmos a essa investigação”, complementa.
A análise dos dados revela um cenário epidemiológico complexo, marcado por uma alta reatividade de anticorpos IgG na população. Esse padrão indica que uma parcela significativa dos indivíduos possui memória imunológica para a dengue e chikungunya, o que reforça a tese de uma circulação contínua e silenciosa dos vírus no ambiente.
A dinâmica é potencializada por uma co-circulação intensa, na qual Plasmodium e arbovírus não apenas dividem o mesmo espaço geográfico, mas frequentemente afetam os mesmos pacientes. A prova mais contundente desse fenômeno é a evidência de coinfecção ativa: a identificação de reatividade IgM para Chikungunya em indivíduos que já apresentavam quadros de malária ativa. O comportamento demonstra que a sobreposição de patologias pode ser muito mais frequente do que se supunha anteriormente, desafiando as percepções atuais sobre o diagnóstico e o manejo clínico nessas regiões.
“O principal avanço da pesquisa foi demonstrar com dados de campo que há uma co-circulação intensa entre malária por Plasmodium vivax e arbovírus, como dengue e chikungunya na região de fronteira entre o Brasil e Guiana Francesa. Além disso, identificamos evidências de possível coinfecção ativa, o que ainda é pouco documentado, principalmente no Brasil”, comenta Cerilo-Filho. A malária possui tratamento determinado pelo Ministério da Saúde, enquanto a arbovirose não possui um tratamento específico, apenas para os sintomas gerados.
O doutorando, porém, alerta que para a confirmação de coinfecção ativa são necessários estudos com análise de dados moleculares, não sendo possível determinar apenas com base em dados sorológicos. “Para identificar realmente coinfecção ativa, mais estudos precisam ser realizados e principalmente outros métodos precisam ser utilizados para investigar o significado de coinfecção ativa entre arbovírus e Plasmodium”, pontua.

RT-PCR em tempo real, é o método molecular padrão-ouro para diagnóstico de arboviroses nos primeiros 5 dias de sintomas (fase aguda da doença). Foto: Pexels
Necessidade de Políticas Integradas
Populações vulneráveis na Amazônia sofrem com sistemas de saúde fragmentados. Quando um paciente com febre busca atendimento, a investigação costuma ser focada exclusivamente na malária. Se o resultado é negativo, muitas vezes ele retorna para casa sem uma averiguação para arboviroses, o que retarda o tratamento adequado.
Os estudos mostram resultados importantes para que os programas de controle do Ministério da Saúde, tanto de malária quanto de arbovirose, aprimorem uma rotina de diagnóstico de ambas, já que elas têm quadro clínico muito semelhantes e são frequentes no nosso país.
Machado aponta que a falta de protocolos integrados reflete não apenas na saúde individual, mas na economia das comunidades.“Uma política que integre o diagnóstico de arboviroses com malária seria muito importante para amenizar essa situação, principalmente em contexto de coinfecção. Se a equipe de saúde pensa só em uma doença e não considera outras, o diagnóstico pode atrasar e o paciente acaba ficando doente por mais tempo”.
De modo geral, por acontecer em zonas com alta concentração de pobreza, onde os infectados não conseguem realizar seus trabalhos diários, o que aumenta a desigualdade nessas regiões. “Com o indivíduo acamado, principalmente os cidadãos em maior situação de vulnerabilidade social, o problema de saúde também se torna socioeconômico, pois impossibilita o trabalhador de buscar o próprio sustento”, explica o docente.
Avanços necessários na pesquisa
A pesquisa também lança luz sobre a necessidade de atualizar as análises no cenário atual de vacinação contra a dengue e chikungunya. Como as amostras do Oiapoque foram coletadas entre 2014/2015, o estudo serve como um “marco zero” para comparar a dinâmica de circulação antes e depois da introdução dos imunizantes.
“É fundamental fazermos um parâmetro desse estudo antes e depois da vacinação, para entendermos como ela está selecionando as linhagens parasitárias e como os parasitas estão se comportando depois do início da imunização na população”, pontua Cerilo-Filho.
O doutorando também afirma que existem algumas lacunas deixadas pelo trabalho que ainda precisam de uma maior investigação, como a coinfecção da malária com outros arbovírus como o mayaro e o oropouche. Além de uma análise no impacto da gravidade da malária e a influência na resposta imunológica desses casos, que só serão possíveis com estudos que utilizam métodos moleculares.
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Marcelo Cerilo-Filho é bacharel em Enfermagem pelo Centro Universitário Rio do São Francisco (UNIRIOS). Licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Especialista em Gestão e Auditoria em Sistemas de Saúde, Saúde Pública e Vigilância Sanitária e Saúde da Família todos pela Faculdade Venda Nova do Imigrante (FAVENI). Mestre em Biologia Parasitária pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Doutorando em Microbiologia e Parasitologia Aplicadas pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com estágio doutoral sanduíche na London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM), Reino Unido. Atualmente é Integrante do Centro de Investigação de Microrganismos (CIM – UFF) e Colaborador do Laboratório de Estudos em Parasitologia Humana (LEPH – UNEB). Atua nas áreas das Doenças Tropicais, principalmente na Malária, Enteroparasitoses e Arboviroses, quanto aos aspectos imunogenéticos, farmacogenéticos, epidemiológicos e educação em saúde.
Ricardo Luiz Dantas Machado é farmacêutico (1984) com especialização em Bioquímica de Alimentos e Indústria de Medicamentos pela Universidade Federal Fluminense (1985). Mestre (1997) e Doutor (2001) em Ciências Biológicas (área de concentração em Biologia dos Agentes Infecciosos e Parasitários) pela Universidade Federal do Pará. Fez doutorado sanduíche na London School of Hygiene and Tropical Medicine, Inglaterra. Livre-Docente em Ciências Biológicas (área de Parasitologia) pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (2008). Atualmente é Professor Titular-Livre do Departamento de Microbiologia e Parasitologia da Universidade Federal Fluminense (2017- ). Professor permanente do PPG em Ciências e Biotecnologia na UFF (2019- ) e Biologia Parasitária da Universidade Federal de Sergipe (2018- ). Líder do Grupo de Pesquisa (Diretório de Grupos CNPq) e corresponsável pelo Laboratório homônimo “Centro de Investigação de Microrganismos” do Instituto Biomédico da UFF. As linhas de pesquisa combinam atividade laboratorial e de campo, estando direcionadas à identificação de agentes etiológicos das moléstias parasitárias de interesse médico-sanitário, quanto aos aspectos biológicos, moleculares, diagnósticos, tratamento, imunopatológicos e epidemiológicos, com enfoque na relação parasito-hospedeiro. Atua principalmente em Malária, Enteropatógenos e Esporotricose.
