Evento
Do erudito ao popular
A veia artística da Orquestra Sinfônica Nacional – UFF é, desde seus primórdios, profundamente permeada pela cultura popular do Brasil, país abundante em suas matrizes, que se entrelaçam na composição dos tempos, trazendo suas raízes, frutos e movimentos para formar a cena do país. O presente programa trata de evidenciar esse vínculo, com obras que, apesar de sua aparência mais erudita, mantém pulsante nas entrelinhas a veia popular que dá o tom do discurso musical.
A “Fantasia Orquestral sobre o tema da Aquarela do Brasil” de Ary Barros nasceu em 2019, a convite da OSN UFF, quando Rafael Barros Castro escreveu os arranjos e conduziu a orquestra no concerto da série OSN Popular, em homenagem a Ary Barroso. A obra foi composta especialmente para servir como a abertura daquele concerto memorável. Rafael Castro descreve sua obra:
Estruturada em fortes contrastes, a composição inclui temas em tonalidades maiores que evidenciam as festas brasileiras e seus ritmos vibrantes, como o ijexá, o frevo e o maracatu. Em contrapartida, motivos melódicos em tonalidades menores nos levam a refletir sobre o Brasil que sangra — marcado pelo desmatamento, pelas balas perdidas e por tantas mazelas que nos assolam. Entretanto, o samba-exaltação surge para nos devolver a esperança de vivermos no “Brasil brasileiro”, cantado em verso e prosa por Ary Barroso. Nesta Aquarela, deixei também que as minhas próprias raízes permeassem essa tela multicor, trazendo a influência profunda dos meus mestres: Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim e Cartola.
O programa segue com duas peças de Radamés Gnattali. O compositor iniciou sua trajetória musical tocando piano ao vivo diante das telas do cinema mudo, acompanhando os filmes projetados em Porto Alegre, sua cidade natal. Mudou-se para o Rio de Janeiro com o intuito de ser concertista, mas foi na música popular que encontrou seu sustento, desenvolvendo uma prática composicional de trânsito constante entre os dois universos. Esse ir e vir entre o erudito e o popular tornou-se a própria assinatura de sua linguagem, explorada com maestria em sua “Sinfonia Popular”, alcançando nela um discurso cinematográfico e muito brasileiro. Na obra, Gnattali elabora uma orquestração de vistosa riqueza colorística e parece compor uma trilha sonora para o Brasil que imaginava a partir de seus dias à época: tropical, animado, de timbres exóticos e uma atmosfera borbulhante.
No “Concerto para Viola” o instrumento solista assume o protagonismo absoluto, desfilando virtuosismo do início ao fim: cabe ao solista quase todo o desenvolvimento melódico, enquanto a orquestra de cordas dialoga em blocos rítmicos, comentando e impulsionando o discurso do solista sem nunca disputar-lhe o espaço. Esta obra integra o vasto catálogo de concertos que Gnattali compôs, alguns deles dedicados a instrumentos considerados menos convencionais dentro do repertório sinfônico, como gaita, guitarra e bandolim, buscando sempre expandir sua escrita para vozes fora do eixo tradicional.
Raphael Resende, trompista da OSN-UFF
setembro 2026
Felipe Prazeres – regente
Felipe Prazeres é um dos mais conceituados músicos de sua geração. Atualmente, atua como maestro titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e maestro associado da Orquestra Petrobras Sinfônica. Reconhecido por sua forte vertente socioeducativa, foi um dos fundadores da Academia Juvenil, projeto que oferece orientação musical anual e desenvolvimento técnico para cerca de 35 jovens instrumentistas oriundos de projetos sociais. Na função de regente, esteve à frente de orquestras como a World Youth Symphony, na Itália, The Royal Collective na Austrália e das orquestras: Petrobras Sinfônica, Sinfônica Brasileira, Sinfônica da Bahia, Sinfônica de Porto Alegre dentre outras. No Theatro Municipal do Rio de Janeiro atuou como diretor musical das óperas O Barbeiro de Sevilha de Rossini, Carmen de Bizet, O Elixir do Amor e Il Campanello de Donizetti, Le Villi de Puccini e Viúva Alegre de F. Lehar. É diretor artístico e cofundador da orquestra Johann Sebastian Rio, uma das mais importantes orquestras de câmara do país, com a qual gravou recentemente o álbum “Sambach” com o premiado violinista alemão Linus Roth, apresentando-se na Alemanha, Polônia, Suíça e Espanha.
Carlos Tavares – viola
Diplomado em viola e mestrando pela Escola de Música da UFRJ, o violista e regente Carlos Tavares consolidou uma trajetória artística de destaque. Sua versatilidade o levou a integrar as principais orquestras do país, tais como: a Sinfônica Brasileira, a Petrobras Sinfônica, e as sinfônicas do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e do Paraná, além da Camerata de Cordas de Blumenau. Sua atuação internacional inclui concertos em salas e teatros de prestígio global velendo citar VolksHaus Jena (Alemanha), Sala Palestrina (Roma), Cappella Paolina (Vaticano), Théâtre Molière Sorbonne (Paris), Teatro Solís (Montevidéu) e Teatro Colón (Buenos Aires). Dedicado também à docência, lecionou na Academia de Música de São João da Madeira e no Conservatório de Música de Vila Real (ambos em Portugal), no Conservatório de Música de Niterói e no projeto Ação Social pela Música no Brasil (ASMB). Como regente, idealizou a Orquestra Sinfônica de Magé (sediada na Associação Pestalozzi de Magé), onde atua há dois anos como professor e maestro. Desenvolve ainda um trabalho como camerista, apresentando-se com o Trio Minuetto e o Duo Frias-Tavares. Concilia essas atividades com o posto de 1ª viola da OSN UFF desde 2022, onde atua como líder de naipe.
Programa
Rafael Barros Castro (1977)
Fantasia Orquestral sobre o tema da Aquarela do Brasil de Ary Barroso (2019)
Radamés Gnattali (1906 – 1988)
Concerto para viola, 1967
I.Allegro moderato
II.Saudoso
III. Vivo
Radamés Gnattali (1906 – 1988)
Sinfonia Popular nº. 1 (1956)
I.Allegro moderato
II.Expressivo com fantasia
III. Com Espírito (Baião)
IV.Allegro
27 de Setembro de 2026
Domingo | 10h30
Cine Arte UFF
Rua Miguel de Frias, 9 – Icaraí – Niterói
Entrada Franca
Retirada dos ingressos na Bilheteria 1h antes do evento