O estudo ajuda a compreender como as relações de parentesco, gênero e confiança organizam a economia das entregas
Uma pesquisa de doutorado da Universidade Federal Fluminense (UFF) mostra como o comércio eletrônico se apoia em recursos domésticos e relações familiares para fazer encomendas chegarem aos consumidores. Realizado no Leste Fluminense, o estudo identificou o papel da confiança na organização do trabalho, a pouca visibilidade da gestão feminina e os limites da autonomia de quem opera uma distribuidora.
Desenvolvida pela socióloga Ana Raquel Rosa do Couto, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFF, a tese foi defendida em março de 2026. A pesquisa combinou observação participante na distribuidora e nas ruas com entrevistas com entregadores e familiares. O trabalho acompanhou uma base instalada na garagem da casa da sogra de Manuela, que administra a operação com o marido, Neto. Por ali passam encomendas de circuitos vinculados a empresas como Amazon, Mercado Livre e Shopee, na chamada “última milha”, ou seja, a etapa final do percurso até o destinatário.
A tese revelou como as relações de parentesco, gênero e confiança organizam a economia das entregas. Também evidencia diferenças entre a logística de encomendas e as entregas imediatas de refeições, frequentemente reunidas sob o rótulo de trabalho por aplicativo. A pesquisa oferece subsídios para pautas sobre trabalho em plataformas, gestão feminina, custos assumidos pelas famílias e as estruturas pouco visíveis que sustentam as compras on-line.
Por dentro do estudo
A divisão das tarefas, verificada na pesquisa, revelou uma desigualdade no reconhecimento do trabalho. Enquanto Neto se dedica principalmente à coleta e ao transporte das cargas, Manuela conta pacotes, organiza rotas, acompanha registros e coordena outros entregadores. Apesar de indispensáveis à operação, essas atividades podem ser interpretadas como uma “ajuda” ao marido. “Enquanto Neto entrega, Manuela cuida das entregas”, sintetiza Ana Raquel. O estudo mostra como as responsabilidades familiares se misturam à gestão e influenciam o reconhecimento da autoridade feminina.
Outro resultado questiona a associação entre ter um negócio próprio e controlar as condições de trabalho. Embora coordenem outros entregadores, os gestores da base precisam cumprir escalas, prazos e regras das transportadoras. Nas operações relatadas, havia inscrição pelo WhatsApp para trabalhar no dia seguinte, cobranças por perdas de encomendas e suspensões de um ou três dias. “A posição deles enquanto patrões ou donos não é fixa. Ora aparecem como funcionários e subordinados; ora estão na posição de gestão, coordenando e avaliando outros trabalhadores”, explica a pesquisadora.
