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Por trás do clique: pesquisa da UFF revela o trabalho que sustenta as entregas do comércio eletrônico

Etnografia realizada no Leste Fluminense mostra como casas, relações familiares e diferentes formas de trabalho mantêm em funcionamento a última milha das encomendas on-line

Na base de distribuição, os trabalhadores organizam as encomendas para a próxima etapa da viagem. Foto: Ana Raquel Couto

Quase tudo começa com um clique. Antes de chegar à porta do consumidor, o produto atravessa centros de distribuição, sistemas digitais e diferentes cidades. Entre uma etapa e outra, entretanto, há um ponto pouco visível da cadeia do comércio eletrônico: a encomenda pode passar pela garagem de outra família. Ali, pacotes são recebidos, contados, separados e distribuídos entre entregadores responsáveis pelo trecho final da viagem.

É nessa trajetória que se concentra a pesquisa de doutorado “Ganhando a vida na base: uma etnografia dos circuitos e práticas de entregadores de uma distribuidora de encomendas on-line do Leste Fluminense”, da socióloga Ana Raquel Rosa do Couto. O estudo foi realizado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (PPGS/UFF) e desenvolvido sob orientação do professor André Dumans Guedes.

Defendida em março de 2026, a tese combina observação participante no ponto de distribuição e nas ruas com entrevistas em profundidade com entregadores e familiares. Ao acompanhar o cotidiano de uma base, a pesquisadora investigou como trabalho, negócio e vida doméstica se organizam em uma mesma residência.

A pesquisa mostrou como uma distribuidora de encomendas instalada em uma residência no Leste Fluminense, articula trabalho familiar, gestão feminina e recursos domésticos para realizar a etapa final das entregas do comércio eletrônico. 

Entre os principais resultados estão o papel das relações de parentesco e confiança na sustentação da operação, a concentração de tarefas de gestão nas mãos de uma mulher e os limites da autonomia de quem administra a base. O estudo considerou que o casal protagonista da tese coordenava outros trabalhadores, mas permanece subordinado às exigências das transportadoras.

Da garagem à “última milha”

Na garagem da casa da sogra de Manuela, ela e o marido, Neto, organizam a distribuidora acompanhada pela pesquisa. Motocicletas entram e saem, enquanto celulares registram o destino das encomendas. Nesse espaço doméstico, o casal coordena parte do percurso dos produtos até os compradores.

O estudo observa a chamada “última milha”: a etapa final do percurso da encomenda até o destinatário. Analisar essa operação permite conhecer quem conecta as grandes estruturas logísticas aos endereços de cada entrega. “Nós compramos praticamente todos os dias, mas não observamos as pessoas que fazem esse comércio acontecer”, afirma a pesquisadora.

A distribuidora acompanhada integra circuitos de encomendas vinculados a empresas como Amazon, Mercado Livre e Shopee. Antes de chegar à garagem, as mercadorias atravessam centros de distribuição, transportadoras e etapas de triagem. 

Organizar centenas de pacotes exige conhecimento do território, coordenação entre trabalhadores e atenção ao percurso de cada encomenda. A garagem precisa acomodar volumes diferentes, enquanto os registros digitais acompanham aquilo que acontece fisicamente. Para esse trabalho, a pesquisadora identifica que é preciso uma inteligência prática construída no cotidiano. “O local se converteu, simultaneamente, em depósito, espaço de triagem, ponto de distribuição e ambiente de convivência familiar”, conta Ana Raquel. 

Nesse contexto, a casa participa diretamente da operação. Além da garagem, cozinha, quintal e área de serviço são incorporados à rotina. Familiares cedem espaço, colaboram nos períodos de maior movimento e oferecem apoio que permite a continuidade do negócio. Em contrapartida, o casal precisa manter o local e negociar responsabilidades e formas de convivência.

Encomendas ocupam o espaço residencial: na base acompanhada pela pesquisa, a garagem integra a infraestrutura de recebimento, triagem e distribuição do comércio eletrônico. Foto: Ana Raquel Couto

A confiança necessária para permitir que alguém circule pela residência, por exemplo, também participa das decisões sobre quem pode trabalhar na distribuidora. “Quando comecei o trabalho de campo na distribuidora, em 2022, a operação contava com duas motocicletas, uma Saveiro e dois funcionários. Após a saída dos dois trabalhadores, em 2023, foi contratado um funcionário considerado de confiança para circular pela garagem da família, onde eram guardados mercadorias e celulares”, conta Ana Raquel. 

O episódio mostra como as relações entre casa e negócio interferem até na composição da equipe. A confiança para compartilhar um espaço familiar torna-se também um critério de organização do trabalho que não aparecem nos registros dos aplicativos. 

Enquanto ele entrega, ela cuida das entregas

Ao entrar no cotidiano da distribuidora, Ana Raquel inicialmente imaginava que Manuela e Neto, por serem ambos entregadores, desempenhassem funções semelhantes. A observação da rotina revelou, porém, uma divisão de gênero do trabalho. “Enquanto Neto entrega, Manuela cuida das entregas”, sintetiza.

“Neto se ocupa, principalmente, das atividades externas, como buscar as cargas nos centros de distribuição, transportar os pacotes e conduzir veículos maiores. Manuela permanece mais tempo na base, onde conta encomendas, organiza rotas, envia dados, acompanha registros, coordena os demais entregadores e administra diferentes demandas simultaneamente”, narra a pesquisadora.

A palavra “cuidado”, nesse contexto, não designa uma atividade acessória. Trata-se de um trabalho indispensável à operação. Apesar disso, como essas tarefas são realizadas por uma mulher dentro de uma residência e se misturam às responsabilidades conjugais e familiares, suas fronteiras se tornam pouco nítidas. O que é reconhecido como gestão do negócio pode ser interpretado como uma simples “ajuda” ao marido.

“Não há uma separação muito clara entre as atividades de Manuela. Ela trabalha na distribuidora, mas também está dentro de casa. As responsabilidades se confundem com aquilo que se espera dela como esposa e como integrante da família”, explica Ana.

Manuela ainda precisa reafirmar sua posição de autoridade. Em algumas situações, é identificada apenas como “a esposa de Neto”, e não como uma das responsáveis pela distribuidora. Até a palavra “patroa” adquire sentidos ambíguos: pode nomear uma gestora, ser utilizada de maneira pejorativa ou simplesmente designar a esposa.

Ao acompanhar as tarefas, a tese evidencia uma dimensão do trabalho feminino que pode ficar invisível quando a análise se concentra apenas em quem transporta os pacotes. Na base, as relações de gênero influenciam tanto a divisão das atividades quanto o reconhecimento de quem exerce a gestão.

Patrões em uma ponta, trabalhadores na outra

A pesquisa também analisa como as posições de dono, patrão e trabalhador se combinam ao longo do circuito das entregas. 

Dentro da base, Manuela e Neto organizam o trabalho, distribuem atividades e exercem autoridade. Na relação com as transportadoras e seus supervisores, ocupam uma posição subordinada. Precisam se inscrever em escalas, cumprir prazos, prestar contas e atender a regras definidas em outras etapas da cadeia.

“A posição deles enquanto patrões ou donos não é fixa. Ora aparecem como funcionários e subordinados; ora estão na posição de gestão, coordenando e avaliando outros trabalhadores”, afirma a pesquisadora.

Essa dependência aparece em procedimentos concretos relatados pela pesquisadora. Nas operações descritas na entrevista, os entregadores precisavam inserir seus nomes em um grupo de WhatsApp para participar da escala do dia seguinte. 

“Também ocorriam cobranças por perdas de encomendas e suspensões de um ou três dias, com impacto sobre a renda. O pagamento, na situação apresentada, ocorria 15 dias depois do registro das entregas. Assim, administrar uma base própria não significava controlar as condições de acesso ao trabalho e de recebimento pelos serviços”.

A tese distingue, nesse processo, os projetos de “virar dono” e de “tornar-se patrão”. O primeiro envolve reunir veículos, documentos, cadastros e outros recursos que permitem constituir uma operação própria. O segundo depende das relações pelas quais se constrói e se exerce autoridade: contratar pessoas, distribuir tarefas e negociar com trabalhadores e transportadoras. Ao mesmo tempo, os investimentos podem produzir dívidas e aumentar a necessidade de trabalhar para pagar os próprios instrumentos utilizados na atividade.

Veículos e equipamentos tornam as entregas possíveis. A pesquisa mostra como sua aquisição e manutenção se articulam à busca por autonomia e às obrigações financeiras dos trabalhadores. Foto: Ana Raquel Couto.

A autonomia, nesse contexto, é construída na relação com outras pessoas e organizações. Ter uma base própria amplia as possibilidades de decisão do casal, mas também envolve obrigações e dependências que condicionam o funcionamento do negócio.

Diferentes entregas, diferentes pressões

Para Ana Raquel, compreender esse universo exige diferenciar as atividades, frequentemente, agrupadas sob expressões como “trabalho de plataforma” ou “trabalho por aplicativo”.

Entre o celular, a encomenda e a motocicleta, a pesquisa acompanha os aprendizados necessários para trabalhar nas ruas e os desafios enfrentados pelas mulheres nas entregas. Foto: Ana Raquel Couto.

Os entregadores de refeições e outros produtos sob demanda operam em circuitos imediatos: recebem uma chamada, retiram o pedido e seguem até o consumidor. O número de corridas e a renda diária dependem do movimento do aplicativo, do horário e da distribuição algorítmica das solicitações.

Já os trabalhadores da logística de encomendas, participam de uma cadeia mais extensa. Eles lidam com centros de distribuição, grandes volumes de pacotes, rotas previamente organizadas, prazos, registros, escalas e mecanismos de controle. Embora também existam exigências de rapidez, a temporalidade e a organização do trabalho são diferentes da entrega instantânea de comida.

Ana Raquel evita estabelecer uma hierarquia para determinar qual grupo seria “mais precarizado”. Segundo ela, o termo, quando empregado de maneira muito abrangente, pode esconder justamente aquilo que a pesquisa busca compreender: os riscos e as pressões específicas de cada atividade.

“São dificuldades e desafios diferentes. O que existe em comum é uma grande pressão para entregar o mais rápido possível, enquanto muitos dos custos e riscos são transferidos para os trabalhadores”, explica.

Na logística de encomendas, combustível, manutenção dos veículos, equipamentos e parte dos prejuízos recaem sobre os entregadores e suas famílias. Acidentes ou problemas mecânicos podem interromper o trabalho e comprometer a renda. “Também existem sanções relacionadas às escalas, aos prazos e a eventuais pacotes desaparecidos enquanto estão sob responsabilidade do trabalhador”, acrescenta a socióloga.

O estudo destaca que, quanto mais a mercadoria se aproxima do consumidor, mais os riscos da circulação são assumidos por quem está na rua. Nesse contexto, a tecnologia não elimina essas relações, mas organiza, monitora e registra um trabalho material, realizado por pessoas expostas ao trânsito, às condições climáticas e às oscilações da demanda.

Uma etnografia do capitalismo contemporâneo

O doutorado dá continuidade a uma agenda iniciada em 2020, durante o mestrado de Ana Raquel. Na primeira investigação, a pesquisadora se aproximou de mulheres que trabalhavam com entregas por aplicativos e buscou compreender os sentidos que atribuíam à liberdade e à mobilidade.

Essas experiências levaram a uma nova pergunta: o que acontecia depois que elas desligavam a moto e voltavam para casa? A aproximação com Manuela permitiu deslocar a investigação para as relações entre vida doméstica e negócio.

Para André Dumans, a pesquisa integra um conjunto mais amplo de trabalhos desenvolvidos no PPGS/UFF em torno das chamadas “etnografias do capitalismo contemporâneo”. A proposta é observar detalhadamente como diferentes formas de trabalho e grandes processos econômicos são vividos pelas pessoas diretamente envolvidas. 

“Nós acreditamos que temos muito a aprender sobre o capitalismo com as pessoas que estão colocando a mão na massa e vivenciando diariamente essas situações. O estudo minucioso contribui para tornar visíveis problemas que não estão evidentes no debate público”, afirma André.

Mais do que apresentar soluções prontas, a pesquisa se propõe a reconstruir um cenário complexo no qual decisões econômicas se materializam. “A produção dos dados é necessária porque ainda se conhece pouco sobre quem realiza cada modalidade de entrega, quais empresas estão envolvidas, como os acidentes atingem esses trabalhadores e de que maneira os riscos se distribuem ao longo da cadeia”, finaliza Ana Raquel

Ao iluminar o percurso existente entre a compra e a chegada do pacote, a pesquisa revela que a última milha não é percorrida somente por mercadorias. Nela circulam dinheiro, dívidas, expectativas, relações de gênero, cuidados e projetos de vida. Por trás do clique, existe uma rede de pessoas tentando, todos os dias, dar conta das entregas – e da própria vida.

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Ana Raquel Couto é doutora em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense. Pesquisadora do grupo Fronteiras (PPGS/UFF), do Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia (NuCEC-UFRJ) e do LabPatt- Laboratório de Pesquisa-ação sobre Trabalho e Território (FAFICH/UFMG). Desenvolve pesquisas e tem como principais interesses de investigação os estudos sociais da economia, empreendedorismos nas economias populares, mobilidades urbanas, mulheres entregadoras, comércio logístico e economias de plataforma.

André Dumans Guedes é professor do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal Fluminense (UFF). Graduado em Ciências Econômicas (UFMG), mestre em Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) e doutor em Antropologia Social (PPGAS/Museu Nacional/UFRJ). Foi ganhador do Prêmio ANPOCS 2012 de Melhor Tese de Doutorado em Ciências Sociais. É um dos líderes do Grupo de Pesquisa Fronteiras (UFF), e pesquisador do Núcleo de Antropologia da Política (NUAP) e do Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia (NuCEC). Interesses de pesquisa: etnografia de povos e comunidades tradicionais (pescadores, marisqueiras, camponeses, quilombolas, coletoras de sementes e plantas) e de seus modos de ganhar a vida, sua ação coletiva, suas ecologias, técnicas e saberes tradicionais; socioantropologia do capitalismo, das mobilidades, casas e economias; extrativismos, conflitos socioambientais e efeitos sociais de grandes projetos de investimento (usinas hidrelétricas, mineração, petróleo e gás). Membro da Comissão Editorial de Livros Científicos da Associação Brasileira de Antropologia.

 

Por Fernanda Nunes
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