O estudo reuniu relatos de 3.012 profissionais de todo o país
“A violência contra educadoras/es como ameaça à educação democrática” é uma pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) que mostra dados inéditos sobre o cenário dos profissionais de educação no Brasil hoje: pelo menos 90% já sofreram, presenciaram ou souberam de casos de censura e perseguição a educadores em seu entorno, ou seja, um fenômeno disseminado em todo o país. Entre os educadores que sofreram tais situações, 58% relataram tentativas de intimidação, 41% sofreram questionamentos agressivos sobre seus métodos e 35% enfrentaram proibições explícitas de conteúdos.
O levantamento apontou que os educadores que viveram a violência direta foram submetidos a: demissões (6%), suspensões (2%), mudança forçada do local de trabalho (12%), remoção do cargo ou função (11%), agressões verbais e xingamentos (25%), e agressões físicas (10%). A pesquisa considerou como educadores os docentes, diretores de escolas, merendeiras, porteiros e outros trabalhadores da educação básica e superior, em instituições privadas e públicas do país.
Outros achados do estudo são: 71% dos educadores que viveram casos de violência relataram que sua vida profissional foi, moderadamente, bastante ou extremamente, afetada pela situação de violência. Já 62% afirmam ter suas vidas pessoais impactadas nos mesmos graus de intensidade. Entre todos os profissionais ouvidos, 45% revelam se sentir constantemente vigiados e começaram a refletir sobre o que dizem em sala de aula e 25% dos participantes declararam ter retirado conteúdos ou projetos de suas práticas após sofrer, ou presenciar atos de censura.
Diante desse cenário, os pesquisadores consideram um significativo reflexo de tais agressões, o chamado “apagão de professores”. Este fenômeno diz respeito ao abandono do magistério por parte dos docentes já inseridos na área, ou a baixa atratividade em relação às gerações futuras – as violências “desencadearam efeitos extremamente nocivos para a saúde do professor e para o clima escolar”, prejudicando toda a classe, indicam.
As informações foram apuradas pelo Observatório Nacional da Violência Contra Educadoras/es (ONVE), da UFF, em parceria e com financiamento do Ministério da Educação (MEC). Segundo os dados, as perseguições, censuras ou agressões verbais e físicas não são episódios isolados, mas recorrentes em toda a extensão do país, principalmente em períodos de maior tensão política, como em 2018 e 2022.
As principais situações relatadas envolvem proibições e recomendações para evitar temas considerados “polêmicos” por parte da população, especialmente questões políticas (73%), gênero e sexualidade (53%), questões religiosas (48%), negacionismo científico (41%) e questões étnico-raciais (30%).
O levantamento busca demonstrar qualitativa e quantitativamente a maneira como a conjuntura de violência contra os educadores abala a democracia do país. Para Fernando Penna, coordenador do ONVE, “tais situações prejudicam não só a liberdade de ensinar, mas também a liberdade de aprender dos estudantes que têm seu direito à educação cerceado”.
Dados gerais da pesquisa
Entrevistados: 3.012
Período de levantamento dos dados: segundo semestre de 2024
Público ouvido: docentes, diretores de escolas, merendeiras, porteiros e outros trabalhadores da educação básica e superior, em instituições privadas e públicas do país.
Realização: Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE/UFF), em parceria com o MEC.

