Pesquisa desenvolvida com comunidades quilombolas traz uma nova leitura da educação no Brasil a partir do corpo, do território e da ancestralidade
Em diálogo com comunidades quilombolas, o professor Diego de Matos Gondim, da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), desenvolve uma filosofia que une arte, ancestralidade e educação. Suas pesquisas, apoiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e pela British Academy, propõem uma educação contra-colonial e ancestral, inspirada em cosmologias afro-diaspóricas e ameríndias.
Desde 2015, Gondim investiga como práticas cotidianas, como plantar, costurar, rezar ou dançar, podem ser compreendidas como formas de pensamento e escrita. A partir dessas vivências, formulou o conceito de corpo-arquivo, que entende o corpo como documento vivo da história negra no Brasil.
Corpo-arquivo: a história viva na pele e no gesto
O docente aponta que a história da negritude não está apenas na materialidade e nos registros formais. Ela se inscreve na carne, na presença e nos gestos. Esse corpo produz história por si só, não apenas de dor, mas de vida e afirmação.
O conceito foi desenvolvido no curta Artes(an)Ato (2022), produzido com mulheres do Quilombo Mandira (SP). Ao reconstruírem a figura mítica da Mandirana, elas refazem suas próprias histórias, resgata as presenças femininas silenciadas na memória coletiva.
Para o pesquisador, o antigo, o ancestral, não é um passado distante, é uma presença viva. Há uma dobra do tempo: passado, presente e futuro coexistem no corpo.
Do quilombo ao futuro da educação
A partir da experiência no Mandira, Gondim formula o conceito de devir-quilomba, que vê o quilombo como movimento e reinvenção constante. De acordo com o pesquisador, o devir acontece quando essas mulheres passam a se reconhecer. “É a metamorfose do desejo, da imagem e das relações”, explica.
Além disso, o professor acredita no cinema como forma de performar o invisível. “Em muitas comunidades, há segredos que não podem ser ditos, mas podem ser mostrados. O cinema faz o oculto respirar”. O pesquisador transforma essa filosofia em ação com os projetos Oralituras Quilombolas, que propõe uma série de podcasts e HQs pedagógicas, e o Worlding Quilombo, que envolve a produção de curtas bilíngues e de um livro coassinado por intelectuais quilombolas.
Para Gondim, repensar a educação brasileira passa por reconhecer os quilombos como lugares de produção de conhecimento. “Não se trata de incluir o quilombo no currículo, mas de reconhecer que a grade curricular nasce com o quilombo, com a terra que pisamos. Nesse contexto, o corpo negro é o pergaminho vivo da história”.

