Foram identificados 699 eventos de violações, entre agressões físicas, ataques a terreiros e mortes violentas de lideranças religiosas
Os dados atualizados do Grupo Ginga-UFF, que monitora conflitos étnico-raciais-religiosos a partir da cobertura midiática nacional, revelam que aproximadamente 74% dos casos de violência física e material registrados envolvem ataques diretos a espaços sagrados, como incêndios, invasões e depredações, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste do país.
O estudo destaca o papel estratégico das mídias independentes, étnico-raciais e afrorreligiosas, responsáveis por 11,7% das publicações analisadas. Os veículos ampliam o repertório interpretativo sobre o racismo religioso, tensionam os silenciamentos históricos e produzem outras narrativas para o debate público e acadêmico.
Segundo a pesquisa, há também uma inflexão recente na cobertura midiática: a partir de 2022, cresce o número de publicações voltadas às respostas institucionais do Estado, ações judiciais, políticas públicas e mobilizações da sociedade civil, sem que isso represente a diminuição dos ataques.
O levantamento analisou 1.828 publicações veiculadas entre 1996 e 2024 por jornais, portais, revistas, blogs e rádios online, e identificou 699 eventos de violações de direitos, incluindo agressões físicas, violência simbólica, discriminação institucional e assassinatos de lideranças religiosas. Os dados evidenciam que, embora haja avanços no reconhecimento público do problema, o racismo religioso permanece como um fenômeno estrutural, associado a disputas territoriais, omissões do Estado e à atuação de grupos armados, especialmente em áreas urbanas periféricas.
Para Ana Paula Mendes, professora do departamento de Antropologia da UFF e uma das coordenadoras do Ginga-UFF, o fenômeno está para além da noção de intolerância religiosa. “O conceito de racismo religioso evidencia a dimensão estrutural e coletiva dessas violências, dirigidas majoritariamente às religiões de matriz africana, e permite compreender o problema como uma violação sistemática de direitos humanos, e não como episódios isolados ou conflitos interpessoais”, enfatiza a pesquisadora. “Os dados reforçam a necessidade de aprofundar pesquisas interdisciplinares, fortalecer políticas públicas de proteção e garantir mecanismos efetivos de justiça e reparação”, acrescenta.

