Evento
É comum entre compositores e intérpretes, para além da audição, recorrer a metáforas sensoriais para auxiliar na concepção e interpretação das obras. Percepções do paladar como: “som mais doce”, ou de densidade como: “um acorde mais pesado”; ou mesmo visual: “uma mudança de cor entre essa e aquela nota”, são constantemente utilizadas. Apesar de subjetivas, pois a ciência já provou que cada indivíduo sente e vê diferentemente um do outro, propõe uma percepção mais alargada dos sentidos auditivos objetivando uma melhor compreensão, interpretação e fruição musical. O Concerto “Entre Cores e Sombras” propõe uma imersão nas mais diferentes cores, passando por suas variações – das mais quentes às mais frias -, revelando suas sombras.
Iniciamos o concerto com a obra de Fernando Deddos (1983) – “Imagens” (2021). Renomado compositor, eufonista e professor da UFRN, Deddos é uma das vozes mais atuantes na música de câmara e da cena contemporânea para metais no Brasil. Com sólida atuação nacional e internacional, é premiado pela International Tuba & Euphonium Association e reconhecido por incorporar elementos da música brasileira em suas composições. “Imagens”, combinando elementos minimalistas, rítmicos e descritivos, é uma homenagem ao estado de Santa Catarina, evocando sua natureza, história e diversidade cultural. Dividida em quatro partes interligadas, a obra traça uma caminhada simbólica rumo ao topo de montanhas, entre memórias ancestrais, progresso, paisagens exuberantes e celebrações em festas populares.
A segunda obra é uma pintura do séc. XIX. De Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840 – 1893) – “Variações sobre um tema rococó, op. 33” (1876 e 1877), obra para violoncelo solista e orquestra, é uma das obras mais importantes para este instrumento. A composição reflete a admiração de Tchaikovsky por Mozart, evocando o estilo elegante do século XVIII. Embora o compositor tenha criado a obra com estrutura própria, sua estreia e publicação, em 1878, ocorreram com alterações substanciais feitas pelo violoncelista Wilhelm Fitzenhagen, que reorganizou variações e omitiu uma. Embora Tchaikovsky tenha inicialmente permitido que Fitzenhagen revisasse a obra, ele ficou descontente com as mudanças. Em uma ocasião, expressou frustração ao seu editor, P. Jurgenson, dizendo: “Esse idiota do Fitzenhagen esteve aqui. Veja o que ele fez com a minha peça — ele alterou tudo!” Apesar disso, Tchaikovsky decidiu não reverter as alterações, afirmando: “Que o diabo o leve! Deixe como está!”. A obra alterna lirismo, virtuosismo e diálogos orquestrais sofisticados, cada uma das VII variações imprime cores marcantes, por vezes contrastantes, e explora atmosferas, que vão do gracioso ao melancólico. Sua coda brilhante confirma o caráter concertante da obra.
Na sequência, a obra que inspirou o título do nosso programa. De Caio Facó (1992) – “Ensaio sobre cores e sombras” (2021). Facó é uma das vozes mais relevantes da nova música brasileira, reconhecido internacionalmente por obras que dialogam com temas do Sul Global e do anticolonialismo. Em “Ensaio sobre cores e sombras”, Facó parte de um experimento de Isaac Newton — a decomposição da luz por um prisma — para criar um mosaico sonoro em que cores se traduzem em combinações harmônicas e de timbres. A obra cita estilos de música barroca, espectral e nordestina, compondo um ambiente em que diferentes formas e temperaturas convivem num mesmo espaço sonoro, refletindo a diversidade e complexidade do mundo contemporâneo.
Encerrando o programa, o Maestro Duda (1935) usa cores de forma magistral para pintar o Nordeste brasileiro através da diversidade de sons, estilos e ritmos na “Suíte Nordestina” (1982). José Ursicino da Silva nasceu em Goiana (PE) e é uma das figuras centrais no fomento à música nordestina no cenário sinfônico brasileiro. Reconhecido por sua fusão entre a música erudita e ritmos como o frevo, o maracatu e o baião, o Maestro Duda construiu uma obra que celebra a cultura popular no coração do Brasil com sofisticação e lirismo. A “Suíte Nordestina” é um retrato vibrante do Nordeste no qual os quatro movimentos interligados evocam festas, paisagens e tradições regionais. Com temas originais e orquestração colorida, a obra reafirma a força e a beleza da música brasileira.
“Entre Cores e Sombras” é uma aquarela que mistura cores do ontem e sombras de hoje, cores daqui e sombras de lá.
Bom concerto!
Deivison Branco
Comissão Artística 2025/26
Programa
Fernando DEDDOS (1983) – Imagens (2021) 18’
Uma ode à região de Santa Catarina: sua natureza, seus povos, sua história, sua alegria e resiliência.
Parte zero: A gênese de uma região
Parte I: A transformação
Parte II: Um passeio pela magnificente natureza regional
Parte III: Os festejos
Piotr Ilitch TCHAIKOVSKY (1840 – 1893) – Variações Sobre Um Tema Rococó, Para violoncelo e orquestra op. 33 (1876/1877) 18’
Thema: Moderato assai quasi andante
Var. I — Tempo della Thema
Var. II — Tempo della Thema
Var. III — Andante sostenuto
Var. IV — Andante grazioso
Var. V — Allegro moderato
Var. VI — Andante
Var. VII e Coda — Allegro vivo
Caio FACÓ (1992) – Ensaio Entre Cores e Sombras (2018) 14’
Revisão (Bahrain, 2025) para a Orquestra Sinfônica Nacional
Maestro DUDA (José Ursicino da Silva) (1935) – Suíte Nordestina (1982) 5’
Lento e Baião
Seresta
Maracatu
Frevo
André Muniz Oliveira – regente
André Muniz Oliveira é professor titular da UFRN, onde fundou e dirige desde 2009 a Filarmônica UFRN, orquestra dedicada à formação profissional de jovens músicos. Atuou como regente convidado em orquestras no Brasil, Espanha, França, Chile, Paraguai e Canadá, incluindo a Orquestra do Congresso Nacional Paraguaio. Em 2018, regeu um concerto histórico no Vaticano com a Filarmônica e o Madrigal da UFRN. Foi coordenador do Doutorado Interinstitucional UNIRIO-UFRN (2010–2013José Ursicino da Silva), com apoio da CAPES e lidera o Grupo de Pesquisas Avançadas em Regência (GEAR). Sua produção acadêmica é publicada em periódicos de alto impacto. Como regente, colaborou com artistas como Roberta Sá, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Fábio Presgrave, Ney Rosauro, Gabriela Pace e Charles Schlueter, entre outros. Sua atuação une excelência artística, compromisso educacional e uma abordagem inovadora da prática orquestral, promovendo repertórios sinfônicos, operísticos e latino-americanos.
Bruno Valente – solista
Natural de Belém do Pará é bacharel em violoncelo pela Universidade Estadual do Pará na classe da profa. Nelzimar Neves. Apresentou-se em grandes salas do Brasil e Europa como: Casa da Música e Centro de Artes e Espetáculos (Portugal); Grande Sala e Sala de Música de Câmara da Filarmônica de Berlim (Alemanha); Theatro da Paz, Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Sala Cecília Meireles, Sala São Paulo, Teatro Amazonas, dentre outras. Conta com concertos transmitidos e gravados para rádios, com destaque para a rádio Antena 2 de Portugal, Rádio MEC e TV Brasil. Além disso, foi personagem principal do documentário The Music From The Amazon Rain Forest, produzido pela BBC de Londres (Radio 4) e da revista Patek Phelipp Magazine. Obteve primeiro lugar no concurso Dóris Azevedo na categoria violoncelo e segundo lugar na categoria música de câmara. Em 2021, como membro do Quarteto Belém, juntamente com o pianista português Bernardo Santos, realizou a gravação dos Quintetos para piano de Saint-Saëns e Dvorak pelo selo internacional Da Vinci Publishing, recebendo a medalha de bronze na categoria instrumentista e arte gráfica pela Global Music Awards. Ainda com o citado pianista mantém o Duo Santos Valente que, em 2022, se apresentou na série “Villa Lobos Aplaude” na Unirio e gravou para os programas Sala de Concerto e Partituras da Rádio MEC e TV Brasil. Como membro do Quarteto Atlântico e do Iberê Cello Ensemble, vem se apresentando em importantes festivais e grandes salas no Brasil e no exterior. Foi chefe de naipe e solista da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz por nove anos, partilhando o palco com maestros de renome nacional e internacional em concertos e festivais de óperas. Desde de 2020 integra o naipe de violoncelos da OSN/UFF onde exerce a função de concertino.
08 de Junho de 2025
Domingo | 10h30
Cine Arte UFF
Rua Miguel de Frias, 9 – Icaraí – Niterói
Ingressos: R$40 (inteira) – R$ 20 (meia)
Canais de venda: Guichê Web e Bilheteria