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Sistema digital desenvolvido na UFF prevê danos causados por ressacas na orla de Maricá

Plataforma cruza dados comunitários e medições oceânicas para cobrir pontos cegos dos alertas tradicionais e proteger a infraestrutura urbana

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal Fluminense (UFF) elaborou o programa de monitoramento Sentinela da Orla de Maricá com o objetivo de mapear os impactos das ressacas intensas, como a degradação do calçadão e os danos causados aos quiosques de praia, por exemplo. O projeto foi concebido para captar os impactos que passam despercebidos pelos mecanismos tradicionais de monitoramento e contribuir para a resiliência climática da região.

O sistema do programa foi elaborado pela pesquisadora Camila Américo, no Programa de Pós-Graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros. Fundamentada no método de ciência cidadã, baseado na coleta de dados em mídias de redes sociais e um canal de comunicação no Telegram, a ferramenta permite coletar informações que auxiliam no monitoramento dos efeitos causados pelas ondas.

“A maioria dos alertas tradicionais permite avisar que a pessoa não deve entrar no mar. Isso é importante, mas minha pesquisa vai além. Não é só informar que não pode entrar na água, é prever se a ressaca provocará algum dano perceptível para a população: se a onda invadirá a orla, se destruirá algum quiosque ou removerá o sedimento da praia. O intuito não é dizer que os alertas tradicionais estão errados. Todos são válidos e a ideia é um complementar o outro e mostrar que, além do aviso de ressaca, há riscos específicos na orla”, explica a pesquisadora. 

Relatos comunitários como rede de sensores

O método ciência cidadã é fundamental para o funcionamento do Sentinela. Qualquer um que vivencie a orla maricaense pode enviar fotos, vídeos e descrições detalhadas do dano causado pelas ressacas, para que aconteça a calibragem específica de cada uma das regiões da orla.

“Quando um relato com foto ou vídeo é inserido, o sistema associa sua localização e horário às condições meteoceanográficas daquele momento, como altura e período das ondas, fluxo de energia, vento e nível da água. O cruzamento permite relacionar condições físicas aos impactos observados e indicar a partir de quais condições começam a ocorrer estragos no local”, detalha Camila. 

O uso da metodologia é justificado a partir da ausência de um monitoramento específico para a região. A grande inclinação, areia grossa e ondas que arrebentam direto na faixa de areia categorizam as praias de Maricá como refletivas, tipo que sofre erosão mais rápida durante ressacas. “Os modelos oceanográficos tradicionais de mar aberto ignoravam a dinâmica hiperlocal das praias refletivas de Maricá, enquanto moradores, quiosqueiros e frequentadores da orla postavam no Instagram o impacto real muito antes ou fora dos alertas oficiais. A população, nesse caso, funciona como uma rede distribuída de sensores de impacto”, explica Fábio Ferreira Dias, orientador do projeto e professor do Departamento de Análise Geoambiental da UFF. 

O projeto contribui para o desenvolvimento de um caminho prático para outros municípios costeiros transformarem a gestão de riscos e aprenderem a ler a dinâmica do próprio litoral antes que eventos extremos aconteçam.

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