Quem frequenta a orla de Maricá está acostumado com ressacas intensas e degradações nas ocupações urbanas: não faltam relatos de ondas fortes que invadem a pista, destroem o calçadão e causam danos aos quiosques de praia. Com o objetivo de mapear impactos que passam despercebidos pelos mecanismos tradicionais e contribuir para a resiliência climática da região, uma pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros da Universidade Federal Fluminense (UFF) desenvolveu o programa de monitoramento Sentinela da Orla de Maricá.
O sistema do programa foi elaborado pela pesquisadora Camila Américo em seu doutorado, e orientado pelo professor Fábio Ferreira Dias, do Departamento de Análise Geoambiental. Fundamentado no método de ciência cidadã, baseado na coleta de registros documentais em mídias de redes sociais e um canal de comunicação no Telegram, que permite coletar informações que auxiliam no monitoramento dos efeitos causados pelas ondas.
“Quando um relato com foto ou vídeo é inserido, o sistema associa sua localização e horário às condições meteoceanográficas daquele momento, como altura e período das ondas, fluxo de energia, vento e nível da água. O cruzamento permite relacionar condições físicas aos impactos observados e indicar a partir de quais condições começam a ocorrer estragos no local”, detalha Camila.
Para a pesquisadora, o objetivo não é superar os alertas convencionais, e sim complementar as medições realizadas pela Marinha, voltadas para a segurança de navegação offshore e não para os impactos na orla.
“A maioria dos alertas tradicionais serve para avisar que a pessoa não deve entrar no mar. Isso é importante, mas minha pesquisa vai além. Não é só informar que não pode entrar na água, é prever se a ressaca provocará algum dano perceptível para a população: se a onda invadirá a orla, se destruirá algum quiosque ou removerá o sedimento da praia. O intuito não é dizer que os alertas tradicionais estão errados. Todos são válidos e a ideia é um complementar o outroe mostrar que, além do aviso de ressaca, há riscos específicos na orla”.
Ao mesmo tempo, o estudo ajuda a revelar um ponto cego: 42,5% dos impactos urbanos na orla de Maricá ocorriam abaixo de 2,5 metros de onda, limiar do sistema da Marinha. Outro resultado foi a identificação de uma mudança importante na frequência de danos estruturais: ela passa de 25% nos eventos com ondas entre 3,0 e 3,5 metros para 50% a partir de 3,5 metros. “Quantificar essa virada de chave dá à Defesa Civil um parâmetro exato para acionar a emergência”, destaca o orientador Fábio sobre a importância prática dos resultados.

O monitoramento histórico e de previsão da altura das ondas é feito diariamente (Foto: Sentinela da Orla de Maricá)
Por outro lado, a previsão não se resume à altura das ondas. Embora os dados mostrem que picos de 3,5 metros ou mais apresentem um aumento expressivo no aumento de danos, a ferramenta existe para contextualizar possíveis estragos que só podem ser lidos a partir de diferentes condições além do tamanho.
“O estrago causado envolve uma combinação de fatores. Ondas menores também podem causar danos dependendo do contexto. Em uma pesquisa de campo realizada no ano passado, com ondas acima de 3 metros, os estragos chegaram até o canal de Ponta Negra, local mais recuado da orla. Do mesmo modo, já houve episódios com ondas altas em que os danos não foram tão visíveis. Portanto, depende do conjunto de dados oceânicos e meteorológicos, e não apenas da altura da onda”, explica Camila.
Relatos comunitários como rede de sensores
O método ciência cidadã é fundamental para o funcionamento do Sentinela. Qualquer um que vivencie a orla maricaense pode enviar fotos, vídeos e descrições detalhadas do dano causado pelas ressacas, para que aconteça a calibragem específica de cada uma das regiões da orla.

O reporte de ocorrência conta com localização, data, tipo de impacto, descrição e imagens (Foto: Sentinela da Orla de Maricá)
Ao mesmo tempo, o orientador Fábio justifica o uso da metodologia a partir da ausência de um monitoramento específico para a região. A grande inclinação, areia grossa e ondas que arrebentam direto na faixa de areia categorizam as praias de Maricá como refletivas, tipo que sofre erosão mais rápida durante ressacas. “O estalo para a ciência cidadã veio da nossa própria postura de trabalhar com escala municipal. Percebemos que os modelos oceanográficos tradicionais de mar aberto ignoravam a dinâmica hiperlocal das praias refletivas de Maricá, enquanto moradores, quiosqueiros e frequentadores da orla postavam no Instagram o impacto real muito antes ou fora dos alertas oficiais. A população, nesse caso, funciona como uma rede distribuída de sensores de impacto.”
A pesquisadora, no entanto, precisou lidar inicialmente com o baixo número de relatos e recorreu a uma busca ativa em mídias sociais da cidade para calibrar o sistema. “A ideia inicial era que a população enviasse relatos pelo WebSIG ou por um bot no Telegram criado para isso. Como poucas pessoas enviaram colaborações espontâneas, fiz uma busca ativa por dados antigos nas redes sociais, buscando perfis sobre surfe e de guarda-vidas do município. O Rodrigo Waves permitiu o uso de fotos e vídeos do perfil dele para calibrarmos o sistema”, contou se referindo ao criador de conteúdo local que registra diariamente as condições meteorológicas nas orlas de Maricá, Niterói e Saquarema.
Soluções sob medida para a gestão pública
Apesar de ainda não existir parceria institucional formal entre o projeto e os órgãos competentes, a ferramenta foi apresentada em palestra na sede da Área de Proteção Ambiental de Maricá (APA). A estratégia dos pesquisadores é priorizar a escala municipal para facilitar o diálogo com a política pública e o alcance de resultados práticos.
“O Brasil tem centenas de municípios costeiros sofrendo com ressacas, e a gestão de risco real acontece no chão da cidade, não em mapas macrorregionais. Já tínhamos provado a força dessa abordagem em Niterói, quando nossos artigos sobre os impactos da subida do nível do mar chamaram a atenção do ex-secretário do Clima e fomos convidados a integrar o Fórum do Clima do município. Em Maricá, demos continuidade e aprofundamos a aproximação entre pesquisa acadêmica e questões de gestão municipal”, destaca Fábio.

Camila (ao centro) e Fábio (à esquerda da imagem) em trabalho de verificação de obras de defesa do litoral de Maricá (Foto: Cortesia)
O grupo acredita que outra tática importante para o sucesso junto dos gestores locais é a de apresentar soluções e metodologias acessíveis e de baixo custo, como a combinação de dados gratuitos com a própria ciência cidadã. A aplicabilidade de ferramentas como o Sentinela da Orla de Maricá não é restrita apenas às praias maricaenses, porém depende de uma nova revisão e calibração para os dados locais.
“O sistema é replicável, porém ajustes são necessários. No nosso estudo, definimos um ponto específico perto das Ilhas Maricás para coletar informações de tempo, onda, vento e maré via APIs”, explica Camila, referindo-se às ferramentas digitais que funcionam como pontes para integrar automaticamente dados meteorológicos ao sistema. “Se fôssemos aplicar em Macaé, por exemplo, teríamos que pegar dados de pontos mais próximos da orla de lá e estudar a vulnerabilidade local”, completa.
Apesar dos desafios de calibragem e de consolidação da participação comunitária, o projeto desenvolvido no Departamento de Análise Geoambiental da UFF demonstra que a prevenção de desastres costeiros exige soluções sob medida. Ao atender a ausência de um monitoramento específico, preencher lacunas dos modelos tradicionais e produzir inovações acessíveis e de baixo custo, o projeto pode apontar um caminho prático para outros municípios costeiros transformarem a gestão de riscos e aprenderem a ler a dinâmica do próprio litoral antes que eventos extremos aconteçam.
CAMILA AMÉRICO DOS SANTOS é Doutora em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com pesquisa voltada ao monitoramento costeiro, geotecnologias, dados meteoceanográficos, Informação Geográfica Voluntária e ciência cidadã aplicada à gestão de riscos e impactos na orla. Mestre em Engenharia de Biossistemas e bacharel em Ciência Ambiental pela UFF.
FÁBIO FERREIRA DIAS é Professor Titular da Universidade Federal Fluminense, lotado no Departamento de Análise Geoambiental. Bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq. Possui licenciatura plena em Geografia – Faculdades Integradas Simonsen (2001), Graduação em Gestão Ambiental pelo Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (2006) com ênfase em Controle Ambiental, Especialização em Geologia do Quaternário pelo Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional / UFRJ (2002), Mestrado em Ciências (Geologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005) e Doutorado em Ciências (Geologia), Universidade Federal do Rio de Janeiro (2009). Integrante dos quadros permanentes de docentes dos Programas de Pós Graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros e Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Biossistemas.
