Um levantamento realizado pelo DataSenado diz que sete em cada 10 brasileiros já viram alguma notícia falsa. Diante do cenário no qual a tecnologia passa por múltiplas transformações e ganha protagonismo, estima-se a necessidade de desenvolver habilidades que possibilitem ao indivíduo pensar e entender criticamente o conteúdo consumido. O crescimento na disseminação de desinformação é expressivo, já que a circulação de notícias atreladas a qualquer gênero é feita de forma rápida e massificada.
A formação de uma consciência informacional acerca do ambiente midiático é um assunto posto em pauta na atualidade. O professor de Jornalismo da UFF, Felipe Pena, debaterá a questão em participação na mesa-redonda “Educação Midiática e Inclusão: Caminhos para a Soberania Informacional”, voltada a discutir os possíveis meios de ampliação da educação e letramento midiático. O objetivo é enfatizar a importância da criticidade e responsabilidade ao lidar com as tecnologias da contemporaneidade.
A atividade faz parte da programação da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o maior encontro científico da América Latina, que acontece na Universidade Federal Fluminense (UFF), entre os dias 26 de julho e 1° de agosto.
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Como tem sido a inserção da educação midiática nas escolas do Brasil e quais são os principais ganhos com a implementação?
A educação midiática ainda é incipiente no Brasil e no mundo. Mesmo os países com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) maior que o Brasil têm a educação midiática ainda precariamente abordada nas instituições de ensino, em qualquer nível. E por que isso é perigoso? Pois nós estamos em uma época, diferentemente do que pensam a maioria das pessoas, não da pós-verdade, mas uma época da auto-verdade, que é diferente.
A auto-verdade é uma confirmação de um sequestro cognitivo de uma parcela da população. Esse fenômeno é quando um espectro político cria uma narrativa implementada como se fosse verdade e, depois de estabelecê-la na sua comunidade, no seu grupo, passa a repercutir informações que confirmem a falsa verdade.
Esse é o grande risco de não se ter uma educação midiática: não saber checar fontes, de não saber de onde vem a informação. A ausência faz com que o indivíduo esteja condicionado a confirmar uma informação que o agrada cognitivamente.
Quais, na sua visão, são as principais ações que o Brasil precisa tomar para atingir a soberania informacional?
Existe uma medida principal, mas que é a mais difícil de se fazer: a regulamentação das big techs. Essa regulamentação é constantemente dificultada, por conta da articulação dessas empresas. Se as big techs não forem regulamentadas, teremos muita dificuldade em evoluir para outras medidas mais avançadas. Boa parte dos países da Comunidade Europeia estão conseguindo dar esse primeiro passo, mas o Brasil não. Sem isso, nós não temos o que fazer.
Quais ações mais específicas são necessárias para implementar essa regulamentação?
As plataformas precisam ser responsabilizadas pelo que publicam e não esperar que alguém entre na justiça para ganhar uma causa, que é o que acontece atualmente. Há algoritmos capazes de retirar conteúdo mentiroso assim que identificado, mas as empresas não são obrigadas a fazer isso nesse momento, quando, na minha opinião, deveriam ser.
Além da educação midiática, sua palestra também fala da inclusão como um caminho para garantir a soberania informacional. Quem seriam os incluídos e como a inclusão deve ser aplicada?
Eu tenho muito cuidado ao falar de inclusão e fico com muito medo quando esse termo é utilizado como se fosse apenas “dar internet para todos”. É muito mais que isso, é passar pela educação midiática, porque não adianta a pessoa ter internet, se não é educada midiaticamente para fazer uso dessa tecnologia e entender como funciona uma rede social, a produção de uma fake news e esse ciclo de auto-verdadede que eu mencionei anteriormente. Uma coisa sem a outra se torna ineficaz.
Quais exemplos de países que alcançaram essa soberania o Brasil pode seguir? Como foram os processos?
Nós não temos um exemplo a seguir. A União Europeia está um passo à frente, mas não é um exemplo, pois cada país tem sua peculiaridade, sua soberania e são culturalmente diversos uns dos outros, mas todos têm em comum a necessidade da regulamentação. Por isso que esse primeiro passo me parece global. Iniciando o processo regulatório no Brasil e tomando como referência alguns modelos globais como os da França e Reino Unido, talvez alcancemos essa soberania. No entanto, nunca pode ser uma cópia, temos que olhar o que está acontecendo lá fora, mas produzindo questões que absorvam a cultura brasileira.
Eu tenho pesquisas nessa área e fico absolutamente impactado com a massiva circulação de fake news sem nenhum tipo de regulamentação, sem nenhum tipo de restrição por parte da justiça, que são distribuídas em grupos de Whatsapp, porque falta uma legislação adequada.
O Relatório MacBride foi um documento da UNESCO, publicado em 1980, que teve como um de seus objetivos a inclusão do sul global na soberania midiática a partir de políticas de comunicação. Naquele tempo, diversas empresas multinacionais negociaram com líderes políticos e conseguiram barrar a iniciativa. Quais paralelos podemos tratar, considerando os acontecimentos dessa época e os dias atuais? O que melhorou e o que piorou?
Eu falo desse relatório em um dos meus livros e tento também conectar com a tentativa de implementar no Brasil o Conselho Federal do Jornalismo, que também seguiu a mesma lógica. Se o advogado comete um deslize ético, ele pode perder sua carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por que com jornalistas isso não acontece? Se um jornalista difunde uma fake news, ele deveria sofrer uma sanção.
O relatório sofreu pressões por parte do poder econômico e do grande capital, hoje o grande capital são as big techs. Hoje, elas são a principal fonte de renda dos Estados Unidos, o capital dominante na política americana. Então, de certa forma, piorou muito porque há uma maior concentração de capital em algo que ainda é muito mais incisivo na condução e na coerção da comunicação pública. Elas conseguem influenciar governos e o poder legislativo pelo mundo todo, principalmente no governo americano.
Qual a importância de falar sobre essa temática em um evento como a SBPC?
A SBPC, como o próprio nome já diz, fala sobre o progresso da ciência, ou seja, em normas básicas, algo que tenta buscar uma determinada verdade com dados randômicos que podem ser comprovados a partir de pesquisas. Se vivemos em uma era de fake news, de que que adianta a pesquisa e a ciência, quando dizem, por exemplo, que a vacina não funciona quando a ciência prova que funciona?
Todo mundo que trabalha com jornalismo, ciência, artes, educação pública ou privada também está sendo atacado pelo negacionismo, por fake news, e pela tentativa de sequestrar a cognição pública e transformar em falsas verdades. A ciência tem que discutir isso porque ela está sendo atacada.
SBPC na UFF
A expectativa é de que cerca de 50 mil pessoas venham de todo o país para acompanhar a 78ª Reunião Anual da SBPC, que está voltando para o estado do Rio de Janeiro após 32 anos. Com o tema “Ciência Para Todos: Soberania, Desenvolvimento e Inclusão”, o encontro conta com uma programação repleta de atividades voltadas à ciência, educação, cultura, tecnologia e inovação. O evento é realizado em parceria com a Prefeitura de Niterói e a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), com o apoio da Fundação Itaú.
