Notícia

Radar SBPC: Projeto da UFF Busca Empoderar Meninas na Ciência

Iniciativa aborda questões de sustentabilidade a partir do uso da nanotecnologia e procura a integração de mulheres nas áreas de STEM

Projeto “Empoderando meninas em STEM: Nanotecnologia para a Captura e Conversão de CO₂” procura ampliar participação feminina na ciência

As mulheres são maioria entre os cientistas do Brasil. Elas representam 57% das pessoas tituladas na pós-graduação e também são a maior parcela entre as estudantes de graduação. Porém, quando falamos das áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), o panorama muda drasticamente. Nas Engenharias e Ciências Exatas e da Terra, por exemplo, a cada quatro docentes, apenas um é mulher.

Com o intuito de aumentar a participação feminina nesses segmentos, surge o projeto “Empoderando meninas em STEM: Nanotecnologia para a Captura e Conversão de CO₂”. Com participação da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com instituições de ensino e pesquisa do Rio de Janeiro, a proposta é incluir jovens garotas dentro do contexto da pesquisa acadêmica. 

Instituto de Química da Universidade Federal Fluminense

Coordenado pela professora do Departamento de Química Inorgânica da UFF, Célia Machado Ronconi, a iniciativa se propõe a encontrar alternativas ao combate das mudanças climáticas a partir da conversão do dióxido de carbono (CO2) em energia sustentável, por meio do uso da nanotecnologia. “Nosso projeto, de forma geral, utiliza a nanotecnologia para capturar o gás e já convertê-lo em algum produto com valor agregado, diminuindo assim, sua concentração na atmosfera para ajudar no combate ao aquecimento global”, resume a professora.

Meninas na ciência

Iniciado em 2025, o projeto já conquistou a formação de dezenas de alunas em atividades de pesquisa e o desenvolvimento de experimentos em laboratório. Além disso, a iniciativa promove o fortalecimento da integração entre a universidade e três escolas públicas, o Colégio Estadual Pinto Lima e os campi São Gonçalo e Maracanã do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Com uma rede colaborativa voltada à promoção da equidade de gênero na ciência, as jovens ganham oportunidades de formação e atuação em áreas estratégicas para o desenvolvimento sustentável.

O projeto surge a partir de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de apoio à inserção de meninas, majoritariamente negras e de escolas públicas, na ciência. Com a chamada, o grupo da professora Célia Machado Ronconi desenvolveu uma metodologia com o intuito de levar as adolescentes para as áreas de STEM, composta em grande maioria por homens.

“Existe um grande tabu sobre a participação das mulheres nas ciências exatas. Por isso, o objetivo do projeto é exatamente gerar interesse nessas meninas na química, matemática, física e engenharias”, explica a professora.

A professora Célia Machado Ronconi manuseando nitregênio líquido no LQSN-UFF

Como bolsistas de iniciação científica júnior, as alunas atuam por 10 horas semanais no Laboratório de Química Supramolecular e Nanotecnologia (LQSN-UFF), localizado no Instituto de Química da UFF. Em seu dia a dia no espaço, elas adquirem a base teórica e colocam em prática os novos aprendizados a partir de experimentos químicos. “No começo elas ficaram um pouco inseguras em um primeiro contato com o laboratório, então, nós partimos do básico para explicar tudo a elas, desde o cálculo de número de moles até a base de uma reação química. Depois, chega a hora de botar a mão na massa, quando elas aprendem sobre normas de segurança no laboratório, manejar  vidrarias, colocar uma reação de maneira adequada, sintetizar os compostos e caracterizá-los para verificar se o produto obtido é o esperado”.

A aluna do terceiro ano do Instituto Federal de São Gonçalo, Alice Siqueira, equilibra o ensino técnico em química com as atividades no laboratório. Para a estudante, o contato com a universidade pode abrir oportunidades transformadoras. “Tem sido muito gratificante poder ter participação em algo eficiente para o planeta, a experiência tem sido incrível e é muito bom ver como as coisas funcionam de perto. Então eu acredito que o impacto seja positivo, pois pode abrir portas no mundo acadêmico. Estar em contato com excelentes profissionais e acadêmicos é uma oportunidade muito especial pra mim”.

A bolsista de pós-doutorado do projeto, Mikaelly Batista, ressalta que um dos aspectos mais importantes do projeto é aproximar as estudantes e suas famílias do ambiente acadêmico. Para isso, a iniciativa realiza atividades como workshops nos quais suas famílias podem prestigiar o trabalho das meninas. 

“Acredito que o principal resultado não seja necessariamente fazer com que todas sigam carreira como pesquisadoras, mas mostrar que essa é uma possibilidade real para o futuro. Muitas vezes, especialmente para meninas e jovens mulheres, a atuação nas áreas de STEM nem chega a ser considerada como uma opção profissional. O contato com a universidade e com pesquisadoras em atividade ajuda a mostrar que esse espaço também pertence a elas e que elas podem ocupar esses lugares se assim desejarem”. 

Quais desafios climáticos o projeto busca combater?

A queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural, resulta na liberação de grandes quantidades de dióxido de carbono (CO₂) para a atmosfera. Esse gás é um dos principais responsáveis pelo efeito estufa, fenômeno natural que retém parte do calor irradiado pela superfície terrestre e mantém a temperatura média do planeta em torno de 15 °C. Entretanto, o aumento contínuo da concentração atmosférica de CO₂ intensifica esse fenômeno, elevando a temperatura média global e contribuindo para o processo de aquecimento global. 

Laboratório de química supramolecular e nanotecnologia

Dessa forma, os cientistas têm buscado combater as mudanças climáticas a partir da reutilização do gás na atmosfera. No caso do projeto “Empoderando meninas em STEM: Nanotecnologia para a Captura e Conversão de CO₂”, a nanotecnologia é utilizada para desenvolver materiais porosos e nanopartículas metálicas capazes de capturar e converter dióxido de carbono em energia sustentável. 

O principal combustível produzido a base de CO₂ é o metanol. Assim, a ideia é transformar o gás em algo com valor agregado, como o combustível metanol, por exemplo. “O metanol é um dos vários produtos químicos que podem ser utilizados como matéria-prima. Realizando esta conversão, você impede o aumento da concentração de CO₂ na atmosfera, pois passa a existir um ciclo de reutilização do gás”, explica Ronconi.

Na programação da 78ª Reunião Anual da SBPC

Durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontecerá em Niterói entre os dias 26 de julho e 1º de agosto, as alunas irão apresentar os resultados alcançados até agora pelo projeto . De acordo com Ronconi, o evento pode colaborar para a expansão das perspectivas de futuro das bolsistas. 

“Esse é um dos congressos mais importantes e antigos que a gente tem no Brasil. A oportunidade de participar de um evento dessa magnitude é que ele pode abrir a cabeça das meninas para diversas áreas do conhecimento. Nessa fase, em que elas estão decidindo a carreira que querem seguir, o mais importante é que elas se já se enxerguem em um ambiente universitário, em um ambiente com nomes importantíssimos para a ciência”.

Para Mikaelly Batista, a apresentação no congresso também é uma chance de dar visibilidade ao que é produzido pelas alunas e ao impacto desse trabalho na sociedade, ajudando na formação de jovens estudantes. “Consideramos muito importante que elas tenham a oportunidade de vivenciar eventos científicos como a SBPC. Uma etapa fundamental do método científico é justamente a comunicação dos resultados para a comunidade”.

A ideia é que participar de um evento do porte da SBPC permita que as estudantes apresentem seus trabalhos, conheçam pesquisas de diferentes áreas, interajam com diferentes pesquisadores e entendam melhor como a ciência é construída de maneira colaborativa. 

Conheça os envolvidos na iniciativa

Além da UFF, as atividades contam com a participação de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). No total, são 35 bolsistas de Iniciação Científica Júnior (ICJ), 3 bolsistas de Iniciação Científica (IC), 1 bolsista de pós-doutorado (PDJ), 7 bolsistas de apoio técnico (AT-NS) e 1 bolsista de Apoio à Difusão do Conhecimento do CNPq (ADC-1C). As bolsistas do Ensino Médio são alunas do Colégio Estadual Pinto Lima e dos campi São Gonçalo e Maracanã do IFRJ.

A equipe completa de pesquisadores participantes é composta por: Bianca Machado (UFF), Fabio Barboza Passos (UFF), Giovanna Machado (CETENE), Felícia Silva Picanço (UFRJ), Marcela Cristina de Moraes (UFF), Sara Silveira Vieira Bertoli (UFF), Sonia Regina Alves Nogueira de Sá (UFF), Carolina Bastos Pereira Ligiero (CBPF), Ludmila de Paula Cabral Silva (UFF), Tiago Giannerini da Costa (IFRJ – São Gonçalo), Aline Farias Moreira da Silva (IFF – Itaboraí), Otávio Versiane Cabral (IFRJ – Rio de Janeiro), Thiago Custódio dos Santos (UFRJ), Maurício Alves de Melo Júnior (UFF) e Camilla Djenne Buarque Müller (PUC-Rio).

 

Por Isabela Bitencourt e João Pedro Chiabai
Acessar o conteúdo