
Escola no Quilombo da Custaneira (PI): exemplo dos desafios estruturais no cenário brasileiro/ Foto: Arquivo Pessoal / UFF
A mesa-redonda “Aquilombar a escola — o que a educação quilombola pode ensinar à educação regular” é um dos destaques da programação da comissão Afro, Indígenas e Comunidades Tradicionais da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). A atividade debate como práticas de oralidade, coletividade e valorização da ancestralidade presentes nas comunidades quilombolas podem contribuir para uma educação mais inclusiva e antirracista. A SBPC acontece entre os dias 26 de julho e 1º de agosto, no Campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói.
Com o tema “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”, o maior encontro científico da América Latina deve reunir cerca de 50 mil participantes para discutir políticas públicas nas áreas de Educação, Ciência e Tecnologia. Como forma de ampliar o debate sobre os modelos educacionais, o evento abriu espaço para a reflexão sobre como experiências da educação quilombola podem inspirar práticas pedagógicas mais diversas e representativas na educação básica.
Participa desta edição do Vozes SBPC a pedagoga Natália Barbosa da Silva, professora e diretora do Colégio Universitário Geraldo Reis (Coluni/UFF). Com pesquisas voltadas à educação antirracista, ela explica nesta entrevista como o conceito de “aquilombar” a escola pode contribuir para uma formação mais plural e representativa, além dos desafios para a implementação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira, além de colocar o Dia da Consciência Negra como data prevista no calendário escolar.
Quando se fala em educação quilombola, muitas pessoas ainda conhecem pouco essa realidade. Quais características dessa experiência educacional você considera fundamentais para compreender os desafios da educação brasileira hoje?
Natália Barbosa: Os principais aspectos que a educação quilombola traz são os valores das comunidades tradicionais: a questão da oralidade, do respeito à memória e à ancestralidade. Temos a educação quilombola como uma modalidade e há um grande erro dentro da educação básica que acaba separando-a. Em algumas escolas não se aborda o tema , sendo que os saberes que os quilombos trazem são muito importantes quando pensamos em educação para as relações étnico-raciais. Dentro desses conhecimentos estão a diversidade cultural e a memória ancestral, os quais são fundamentais para preservar saberes que muitas vezes são apagados nos contextos urbanos, mas permanecem vivos na educação quilombola por meio da valorização dos mais velhos. Saber viver em comunidade e aprender esses aspectos é fundamental, pois fazem parte da nossa história, embora ainda vejamos poucos trabalhos sobre a modalidade na educação básica como um todo.

Professora Natália Barbosa, diretora do Colégio Universitário Geraldo Reis (COLUNI/UFF)
Ao longo da sua trajetória, você pesquisou temas como educação antirracista, formação de professores e a implementação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas. Como essas experiências ajudam a compreender o papel da educação quilombola na construção de uma escola mais plural e representativa?
Natália: Minha trajetória acadêmica toda é pensada na discussão das relações étnico-raciais e no ensino de história e cultura africana e afro-brasileira na educação básica, com um recorte nos anos iniciais e na formação de professores. Quando estudamos e pensamos na educação quilombola, vemos não só a importância dessa inserção, mas a necessidade de falar e afirmar esse espaço, até porque o reconhecimento da modalidade não é simplesmente dado, mas feito a partir de muita luta. Precisamos, por meio da educação,introduzir as referências, assim como demonstrar a importância e a relevância desse modelo de ensino. Fala-se pouco sobre quilombos nas escolas, nas universidades e menos ainda nas licenciaturas. Eu mesma fiz pedagogia e, ao longo da minha formação, não estudei quantos quilombos existem no Rio de Janeiro. No geral, nós desconhecemos essa realidade. O desconhecimento faz parte da ausência de uma discussão que precisa estar presente tanto na universidade como na educação básica. Mesmo com a criação da Lei 10.639/2003, ainda há muito trabalho a ser feito quando pensamos na educação quilombola, seja no ensino superior ou na educação básica.
A educação quilombola costuma ser associada apenas às comunidades onde ela acontece. Na prática, quais aprendizados desse modelo podem contribuir para melhorar a experiência educacional de estudantes em diferentes contextos do país?
Natália: Acaba que a ideia de educação quilombola fica restrita às comunidades tradicionais, como se devêssemos discutir o tema apenas onde há uma escola quilombola. Mas não é disso que falamos quando usamos o termo “aquilombar”; o conceito não diz que queremos discutir apenas com as escolas quilombolas. Elas já estão vivenciando o que as outras unidades de ensino precisam discutir. A diversidade cultural e a memória ancestral são fundamentais, pois temos dificuldade em entender a memória do nosso povo. Na educação quilombola, a memória dos mais velhos é referenciada na prática, algo que muitas vezes perdemos no meio urbano, onde a memória local e cultural é apagada. Outras questões essenciais são a oralidade e o viver em comunidade, o senso de circularidade [é a capacidade de compreender e aplicar a lógica de que nada se perde, tudo se transforma], de aprender com o outro e com o mais velho, priorizando a troca em vez da disputa. Acredito que cresceríamos muito mais como sociedade se nos “aquilombássemos”.
Sua pesquisa tem uma forte ligação com a formação de professores. Qual é o papel dos educadores na construção de uma escola capaz de reconhecer diferentes identidades, histórias e formas de produção de conhecimento?
Natália: Aprendi com os mais velhos e com pessoas que estudam relações raciais que só existe democracia se a sociedade for antirracista. Isso traz toda a discussão sobre as questões raciais para dentro da escola. Se um professor quer ser de fato comprometido com uma educação democrática, para a diversidade e para a diferença, ele precisa compreender os diferentes saberes e as diferentes contribuições para essa educação acontecer. Não tem como pensar em modelo educacional para a diversidade sem olhar para as questões raciais que atravessam essa discussão, especialmente quando falamos sobre a formação do povo brasileiro.
Mais de vinte anos após a criação da Lei 10.639/2003, quais transformações você considera mais significativas e quais lacunas ainda precisam ser enfrentadas?
Natália: Tivemos avanços e alguns retrocessos voltados às políticas governamentais. A Lei 10.639 foi uma conquista do movimento negro e gerou políticas de ação afirmativa importantes, como as diretrizes curriculares de 2004, a criação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (SECADI), da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), a Lei de Cotas e o Estatuto da Igualdade Racial. Após 20 anos, o maior gargalo está na gestão escolar. Muitas vezes os professores têm práticas maravilhosas, mas a gestão não as institucionaliza, o que impede a continuidade do trabalho. Outra lacuna está nas licenciaturas; a discussão de Educação e Relações Étnico-Raciais (ERER) ainda aparece de forma opcional ou ausente em muitos currículos. Esse debate precisa avançar em todas as áreas, não apenas em história ou artes, mas também na matemática, física e biologia, pois todos esses professores estarão nas escolas. A discussão racial não pode ser responsabilidade apenas de uma disciplina ou dos professores negros. Então, eu acho que na universidade o debate precisa avançar ainda mais nos próximos anos.
Questões como diversidade, pertencimento e combate ao racismo têm impacto direto na formação das novas gerações. Qual a importância de eventos como a SBPC criarem espaços de diálogo entre pesquisadores, educadores e a sociedade para discutir esses temas?
Natália: Acho fundamental. Sendo a SBPC o maior encontro de ciências do Brasil, é essencial que todos os pesquisadores pensem sobre esses aspectos. Eu, enquanto mulher negra e pedagoga, não quero essa discussão apenas para mim, mas para todo mundo. É fundamental que a ciência brasileira seja antirracista e se coloque nesse compromisso. Embora a legislação foque na educação básica, a responsabilidade é coletiva, pois a ciência está em toda parte e deve se afirmar como um lugar de compromisso com as relações raciais.
Para quem pretende acompanhar a mesa na SBPC, qual é a principal reflexão que você espera provocar sobre a educação quilombola e os caminhos para uma educação mais inclusiva no Brasil?
Natália: A principal reflexão é de que essa discussão não é só da educação, é para todo mundo. Precisamos nos “aquilombar” e valorizar nossa ancestralidade, a diversidade e a diferença. Mas, antes de valorizar, precisamos conhecer. Por isso, convido a todos para que possam conhecer e discutir, entendendo que construir esse caminho é uma tarefa de todos nós.
A Reunião Anual da SBPC é aberta ao público, com acesso livre e gratuito às atividades. Primeira edição a ocorrer em Niterói, o evento contará com conferências, mesas-redondas, sessões de pôsteres, atividades culturais, exposições, minicursos e outras programações. Acompanhe as informações sobre o evento no site oficial e no instagram.
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Natália Barbosa da Silva é professora do Quadro Permanente da Universidade Federal Fluminense, lotada no Colégio Universitário Geraldo Reis (COLUNI/UFF) e Diretora da Unidade de Ensino. Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2017), Especialização no Programa de Residência Docente do Colégio Pedro II (2018) e Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2020). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em formação de professores, alfabetização, educação antirracista e história e cultura africana e afro-brasileira.
Por João Santos