Relatório inédito revela que 90% das prisões por reconhecimento facial atingem pessoas negras e aponta como moradores já utilizam IA no cotidiano
Um relatório inédito lançado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Instituto Papo Reto e a Universidade de Exeter, propõe inverter o eixo do debate sobre inteligência artificial (IA) no Brasil: em vez de tratar as favelas apenas como alvo dos impactos da tecnologia, o estudo investiga como esses territórios já utilizam, interpretam e tensionam o uso da IA. A pesquisa ouviu lideranças comunitárias, midiativistas e pesquisadores ao longo de 2025 e aponta que a tecnologia chega de forma desigual, frequentemente ampliando vulnerabilidades históricas.
Entre os dados mais contundentes, o relatório mostra que cerca de 90% das pessoas presas com base em reconhecimento facial no Brasil são negras, evidenciando o viés racial embutido em sistemas amplamente adotados na segurança pública. Ao mesmo tempo, o estudo desmonta a ideia de exclusão digital: aproximadamente 90% dos moradores de favelas acessam a internet, majoritariamente por smartphones, ainda que em condições precárias, com limitações de conectividade e dependência de plataformas específicas.
Apesar das desigualdades, o levantamento identifica usos concretos e estratégicos da inteligência artificial no cotidiano, como apoio na escrita de textos, organização de informações e produção de conteúdo para redes e iniciativas de midiativismo. O estudo também aponta uma leitura crítica por parte dos moradores sobre os impactos da tecnologia, especialmente em relação ao mercado de trabalho, à circulação de informações e aos riscos de desinformação e vigilância.
O relatório defende que enfrentar os efeitos da inteligência artificial exige medidas estruturais, como regulação com foco em justiça social, inclusão de moradores de favelas nos processos decisórios e maior transparência no uso de dados. Ao reposicionar esses territórios como produtores de conhecimento e inovação, o estudo amplia o debate sobre o futuro da tecnologia no país e levanta uma questão central: quem define, de fato, os rumos da inteligência artificial no Brasil?
