Descoberta ajuda a explicar a expansão recente do vírus e pode orientar estratégias de diagnóstico e vigilância
Pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) participam de estudo que identificou uma nova linhagem do vírus Oropouche que já circula no Sudeste do Brasil, indicando mudanças no comportamento epidemiológico da doença, historicamente associada à região amazônica. A pesquisa acompanhou 55 pacientes com infecção confirmada entre dezembro de 2024 e maio de 2025 nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e aponta evidências de adaptação viral à nova região. Os resultados foram publicados na revista científica Open Forum Infectious Diseases.
A análise genética das amostras revelou que os casos estão associados a uma linhagem viral reassortante, resultado da reorganização de segmentos do material genético do vírus. Esse processo pode gerar variantes com características novas. “A avaliação da árvore genética mostrou que o vírus passou por modificações e se adaptou à região Sudeste”, explica um dos responsáveis pelo estudo, o infectologista Ezequias Batista Martins, da Faculdade de Medicina da UFF. Segundo ele, a presença dessa linhagem sugere que o vírus pode se estabelecer na região, com possíveis períodos de maior ou menor incidência.
O estudo também identificou características clínicas que ajudam a diferenciar a doença de outras arboviroses comuns no Brasil, como dengue, zika e chikungunya. Entre os 55 pacientes analisados, os sintomas mais frequentes foram dor de cabeça intensa (87%), mal-estar (87%), febre (82%), dor muscular (75%) e manchas na pele (45%). Os pesquisadores observaram ainda um comportamento incomum: em cerca de um terço dos casos, os sintomas retornaram cerca de uma semana após a melhora inicial, configurando um novo período agudo da doença.
Outra descoberta considerada relevante pelos pesquisadores foi a possibilidade de diagnóstico tardio por meio de amostras de urina. Diferentemente do padrão observado em outras arboviroses, o RNA do vírus Oropouche pode permanecer detectável na urina por mais de três semanas, mesmo quando já não aparece no sangue. “Esse exame prolongado permite confirmar que se trata da mesma infecção e pode ajudar a melhorar o diagnóstico e a vigilância epidemiológica”, explica a pesquisadora Anielle Pina-Costa, da Escola de Enfermagem da UFF.
Os pesquisadores também destacam que o vírus não é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, mas por um inseto muito menor conhecido como maruim (Culicoides), comum em áreas úmidas, margens de rios e regiões próximas a cachoeiras. Para os pesquisadores, a identificação dessa nova linhagem e de características clínicas específicas reforça a necessidade de ampliar a vigilância e difundir o conhecimento sobre a doença na rede de saúde, especialmente diante da possibilidade de expansão geográfica do vírus no país.

