O tamanho pequeno é uma característica marcante do maruim, vetor de transmissão da febre Oropouche | Foto: Coleção de Ceratopogonidae do IOC/Fiocruz
Durante décadas, a febre de Oropouche foi considerada uma doença típica da Amazônia. Desde sua identificação, em 1955, o vírus circulou principalmente na região Norte e em áreas da bacia amazônica, onde provocava surtos localizados. Atualmente, pesquisadores brasileiros mostram que essa realidade mudou.
Um estudo com a participação dos docentes Anielle de Pina-Costa, da Escola de Enfermagem, e Ezequias Batista Martins, da Faculdade de Medicina, ambos da Universidade Federal Fluminense (UFF), conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), indica que uma nova linhagem do vírus já circula no Sudeste do país, com características clínicas e epidemiológicas que diferem das descritas até então.
O trabalho, publicado em uma revista científica internacional Open Forum Infectious Diseases, acompanhou 55 pacientes com infecção confirmada entre dezembro de 2024 e maio de 2025 nos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Os pesquisadores analisaram aspectos clínicos, genéticos e epidemiológicos da doença e encontraram indícios de que o vírus passou por adaptações ao chegar à nova região.
Entre os principais achados estão a identificação de uma linhagem viral adaptada ao Sudeste, a observação de um padrão de recorrência clínica em parte dos pacientes e a possibilidade de diagnóstico tardio, ou seja, após três semanas dos sintomas agudos da doença, a partir de amostras de urina, algo incomum em arboviroses, grupo de doenças transmitidas por artrópodes, mosquitos e carrapatos.
Linhagem do Sudeste
A expansão geográfica do vírus não surpreendeu completamente os especialistas. Nos últimos anos, pesquisadores já vinham alertando que os arbovírus, tradicionalmente restritos à Amazônia, poderiam avançar para outras regiões do país, impulsionados por transformações ambientais e pela intensificação da mobilidade humana.
Segundo Pina-Costa, diferentes fatores podem favorecer esse movimento. “Temos várias doenças infecciosas transmitidas por vetores que já eram esperadas que ‘descessem’ da região Norte até o Sudeste, muito por conta do favorecimento do clima e da temperatura.”
Ela explica que a disseminação dessas doenças raramente tem uma única causa. “Existe um conjunto de fatores que envolve mobilidade urbana e alterações climáticas. É sempre um combo. Não dá para dizer que foi apenas uma coisa ou outra.”
Outro fator importante para a identificação recente da doença é o avanço dos métodos de diagnóstico. “Hoje, temos ferramentas mais sensíveis e profissionais de saúde mais atentos. O que antes poderia passar como uma virose inespecífica, agora pode ser identificado”, acrescenta a docente.

Esquema da pesquisa que caracteriza a linhagem do vírus da oropouche no sudeste. Fonte: Artigo (Tradução DAI/CCI/SCS)
Foi justamente a combinação entre vigilância clínica e tecnologia laboratorial que permitiu uma das descobertas centrais do estudo: o sequenciamento genético das amostras virais coletadas nos pacientes.
A análise do RNA mostrou que os casos registrados no Sudeste estão associados à linhagem reassortante, que é viral e reorganizada geneticamente. Esse tipo de fenômeno ocorre quando vírus trocam segmentos de material genético, que geram variantes com características novas.
O professor da Faculdade de Medicina explica que os dados indicam um processo de adaptação viral. “O que observamos e confirmamos no artigo é que o vírus foi sofrendo modificações. Foi feita uma análise filogenética, ou seja, a avaliação da árvore genética do vírus e observou-se que ele foi se adaptando à região Sudeste.”
A descoberta, segundo ele, levanta um alerta importante para a saúde pública. “Ele carrega características do vírus original, mas apresenta modificações, o que pode indicar permanência na região. O alerta é: o arbovírus veio e pode permanecer, com períodos de maior ou menor incidência”, acrescenta Martins.
Dor de cabeça intensa e sintomas que podem voltar
No início, a febre de Oropouche pode ser confundida com outras arboviroses comuns no Brasil, como dengue, zika e chikungunya. Os sintomas iniciais incluem febre, mal-estar, dor muscular e dor retro-orbital.
No entanto, o estudo identificou algumas características que ajudam a diferenciar a doença. Uma delas é a intensidade da cefaléia. “Enquanto a chikungunya tem dor articular e a dengue tem mialgia, a febre de Oropouche apresentava cefaleia muito forte. Alguns pacientes achavam que tinham algum problema neurológico”, relata Martins.
Entre os 55 pacientes acompanhados, os sintomas mais frequentes foram: dor de cabeça (87%); mal-estar (87%); febre (82%); dor muscular (75%); e manchas na pele (45%). Os especialistas apontam que os dados ajudam a delinear um perfil clínico mais claro da doença na região Sudeste, algo que até agora era pouco documentado.
Além disso, segundo os pesquisadores, uma das descobertas mais intrigantes surgiu ao longo do acompanhamento dos pacientes. Em cerca de um terço dos casos, os sintomas voltaram depois de uma aparente melhora. Após a fase inicial da doença, que dura alguns dias, parte dos infectados apresentou uma nova fase de sintomas cerca de uma semana depois.
“Diferente de dengue e chikungunya, em que o período agudo dura até dez dias, na febre Oropouche, uma semana depois, os sintomas podem voltar, especialmente a dor de cabeça”, explica Martins. Segundo ele, a segunda fase pode ser confundida com uma nova infecção. “Identificamos que não se trata de sequela contínua, mas sim um novo período agudo”, elucida.
A pesquisadora Anielle de Pina-Costa destaca que nem sempre todos os sintomas retornam. “Às vezes, retorna apenas a cefaleia intensa. Isso pode confundir paciente e profissional.”
Por isso, os pesquisadores acompanharam os participantes por um período mais longo. “O acompanhamento de três meses permitiu fazer um ‘filme’ do paciente, não apenas uma foto”, explica Pina-Costa. “O atendimento único oferece apenas um recorte. O seguimento semanal permitiu observar evolução, melhora, piora e recorrências”, acrescenta Martins.
Urina pode ajudar a identificar infecção semanas depois
Outra descoberta relevante do estudo está relacionada ao diagnóstico da doença. Normalmente, arboviroses são detectadas por meio de exames de sangue realizados nos primeiros dias da infecção, quando a carga viral é mais alta. No caso do Oropouche, no entanto, os pesquisadores observaram um comportamento diferente.
O material genético do vírus foi identificado na urina semanas depois de desaparecer da circulação sanguínea. “Na recorrência, o vírus não é mais detectável no sangue, mas pode ser identificado na urina por PCR”, afirma Martins.
As análises mostraram que o RNA viral permaneceu detectável por mais de três semanas nas amostras de urina, enquanto no sangue e na saliva a detecção costuma ocorrer apenas na primeira semana da doença.
Para os pesquisadores, essa característica pode abrir novas possibilidades de diagnóstico, além de ajudar a reduzir casos de subnotificação e melhorar a vigilância epidemiológica. “O exame positivo prolongado na urina permite confirmar que é a mesma doença”, explica Pina-Costa.
Um transmissor quase invisível
Um outro ponto importante ressaltado pelo estudo é o vetor da doença. Diferentemente da dengue, o vírus Oropouche não é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. O principal transmissor é um inseto muito menor, conhecido popularmente como maruim, pertencente ao gênero Culicoides. Esses insetos estão associados principalmente a ambientes úmidos. “Ele pode ser encontrado nas margens de rios, cachoeiras e áreas úmidas”, afirma Pina-Costa.
O comportamento do vetor também muda as estratégias de prevenção. “Repelente não é eficaz. A proteção é feita com roupas de barreira e óleos corporais, que dificultam a picada”, explica Martins. Além disso, o inseto é pequeno o suficiente para atravessar telas comuns. “Ele é capaz de lacerar a pele, causando ardor e prurido intenso. É conhecido como ‘inseto pólvora’”, acrescenta Pina-Costa.
A análise epidemiológica mostrou que muitos pacientes viviam ou frequentavam áreas próximas à plantações de banana, cachoeiras e regiões de mata úmida, ambientes que favorecem a presença do vetor. Isso sugere que o risco de transmissão não está distribuído de forma homogênea nas cidades. “O risco maior está associado a áreas de mata, solo úmido e presença do vetor. Não é o centro urbano tradicional”, explica a pesquisadora.
Os especialistas apontam que o próximo desafio é fazer com que o conhecimento produzido na pesquisa chegue ao sistema de saúde. Segundo Pina-Costa, os exames laboratoriais para detecção do vírus já existem na rede pública. “Os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACENs) já realizam os exames de sangue para Oropouche. O primeiro passo para fazer a informação chegar à ponta é o profissional aqui no Sudeste pensar nessa hipótese diagnóstica”, pontua.
Com a expansão geográfica do vírus e a identificação de novas características clínicas e laboratoriais, a febre de Oropouche passa a entrar de forma mais ampla no radar da saúde pública brasileira. Entender essa nova fase da doença e sua possível adaptação ao Sudeste pode ser decisivo para aprimorar estratégias de diagnóstico e vigilância.
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Anielle de Pina-Costa é mestre e doutora em Pesquisa Clínica em Doenças Infecciosas pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas INI/FIOCRUZ-RJ. Pós Doutorado em Medicina Tropical no Instituto Oswaldo Cruz (IOC), e em Pesquisa Clínica em Doenças Infecciosas no INI/Fiocruz. Curso de Extensão em Epidemiologia das Doenças Infecciosas pela Johns Hopkins University, Baltimore, Maryland, USA e em Medicina Tropical e Saúde do Viajante pela American Society of Tropical Medicine and Hygiene, Philadelphia, Pennsylvania USA. Especialista em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, ENSP/FIOCRUZ. Integra o Comitê Técnico de Acompanhamento e Assessoramento do Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária (CTA-PNCM) do Ministério da Saúde, é Professora Adjunto de Doenças Infecciosas e Parasitárias na Universidade Federal Fluminense (UFF).Tem experiência nas áreas de Pesquisa Clínica, Vigilância em Saúde, Epidemiologia, Doenças Febris Agudas e Malária, atuando principalmente nos aspectos envolvidos na vigilância sindrômica e dinâmica de transmissão de arboviroses, oropouche, malária e SARS-COV-2
Ezequias Batista Martins é médico pela Universidade Federal do Amazonas (2000). Doutor e Mestre em Medicina Tropical pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC) da Fiocruz (2023 / 2006). Residência Médica em Infectologia pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro (2004). Professor Adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor Permanente da Pós-Graduação em Ciências Médicas da UFF. Pesquisador Assistente do Ambulatório de Doenças Febris Agudas do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). Membro do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Medicina da UFF. Atua ativamente no diagnóstico e tratamento de Doenças Febris Agudas, Doenças Tropicais e Infecções Sexualmente Transmissíveis.

