O estresse mental provocado pelo trânsito, ambiente de trabalho, dívidas e situações mais extremas, como violência urbana e fome, são condições presentes no dia a dia. No entanto, os pacientes com hipertensão resistente são acometidos mais intensamente pelos riscos cardiovasculares provenientes dessas circunstâncias. Diante desse cenário, pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) realizaram testes com pacientes do Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap-UFF), com uso do medicamento citrato de sildenafila. Comumente utilizado para tratamento de disfunção erétil, o princípio ativo pode se mostrar um aliado no controle da pressão arterial.
A hipertensão arterial sistêmica quando denominada “resistente” é aquela na qual a pessoa, mesmo que tenha uma alimentação saudável e use medicamentos, ainda precisa de mais acompanhamento e intervenções para manter a pressão arterial controlada. “Esses pacientes tomam três, quatro ou mais remédios diferentes para não subir a pressão. Essa é a forma mais grave da hipertensão, a mais difícil de controlar e a que mais tem chances de provocar lesão nos órgãos”, explica o cardiologista e professor do Departamento de Clínica Médica na UFF, Ronaldo Gismondi.
A partir disso, o Núcleo de Pesquisa em Hipertensão Arterial Sistêmica (NuPHAS), liderado pela pesquisadora Natalia Galito Rocha, desenvolveu o estudo PDE-5 Inhibition Mitigates Mental Stress-Induced Endothelial Dysfunction In Resistant Hypertension, publicado recentemente na revista norte-americana American Journal of Physiology – Heart and Circulatory Physiology. O artigo investiga o impacto do estresse mental sobre os vasos sanguíneos e a pressão arterial, buscando maneiras de reduzir os efeitos negativos. A pesquisa mostrou que o uso da sildenafila, que inibe a enzima PDE5, ajudou a prevenir a disfunção dos vasos sanguíneos e diminuir o aumento da pressão arterial após situações de estresse.
Explorando as possibilidades da Sildenafila
A pesquisa foi desenvolvida com o objetivo de avaliar se, de forma aguda e combinada ao tratamento convencional para a hipertensão resistente, essa medicação teria efeito benéfico sobre a pressão arterial e função vascular frente a situações estressantes. Os testes feitos com pacientes do Huap-UFF mediram os efeitos dos inibidores de PDE5 e investigaram o mecanismo do remédio sildenafila.
“Tentamos observar especificamente a reação dos pacientes em um uso agudo. Isso significa que eles não usaram os remédios por vários dias. A gente queria saber se, na hora que o paciente fosse submetido ao estresse, a pressão arterial dos que usaram a sildenafila subiria menos do que a do paciente que não usou”, descreve Gismondi.
Os participantes do estudo compunham um grupo de 13 pessoas, entre 40 e 70 anos, com diagnóstico confirmado de hipertensão resistente e adesão ao tratamento com remédios. Onze delas eram mulheres que já haviam passado pela menopausa há pelo menos um ano e os outros dois eram homens. Ao longo de duas semanas, cada indivíduo participou de visitas clínicas com duração de uma hora e 15 minutos, em um ambiente com luz, temperatura e condições adversas controladas. “Todos os 13 pacientes fizeram o uso de placebo e de sildenafila, porém em momentos distintos. Eles foram avaliados sob as duas circunstâncias”, indica Galito.

Após o estresse mental, os pacientes que tomaram o medicamento inibidor de PDE-5 (símbolo preto) mantiveram ou melhoraram a função dos vasos sanguíneos, enquanto os que receberam placebo (símbolo branco) tiveram piora. Foto: Reprodução/Artigo.
Enquanto os pacientes eram submetidos a episódios que simulavam estresse, como teste de cores, letras, palavras e sons, os pesquisadores analisavam como os vasos sanguíneos e a pressão arterial se comportavam Segundo Gismondi, a hipótese do estudo se mostrou correta. “A resposta foi positiva, conseguimos identificar que a sildenafila – que age diretamente no endotélio – contribui para reduzir os danos do aumento da pressão arterial em pacientes com hipertensão resistente”.
A sildenafila, medicamento especialmente testado na pesquisa, age inibindo a PDE5, uma enzima que degrada as substâncias de controle dos vasos sanguíneos, como o GMPc. “Os inibidores da PDE5, como a sildenafila, tem a ação de vasodilatação e também são usados para um tipo de pressão alta nos vasos pulmonares, a chamada hipertensão pulmonar. Eles dilatam os vasos sanguíneos pulmonares e permitem a melhora na circulação pulmonar”, evidencia Gismondi.
A pesquisa mediu a função endotelial em três momentos: antes, imediatamente após e trinta minutos depois de uma situação estressora. “O grupo controle, que estava tomando placebo, apresentou o nível da pressão mais alto e o endotélio não teve uma boa reação durante a simulação de estresse”, conta Gismondi. “Já o grupo que tomou sildenafila, os vasos sanguíneos dilataram mais e o pico de pressão foi menor. O endotélio desses pacientes funcionou melhor, nem tão contraído, nem tão relaxado”.

Treze pacientes do Huap foram testados durante semanas. Imagem: Reprodução/Freepik
O pesquisador reforça que, apesar do resultado da pesquisa ser favorável, isso não significa que as pessoas hipertensas estão autorizadas a consumir a sildenafila como parte do tratamento. “Esse foi um teste para entender o mecanismo da doença. Agora que vemos que o remédio pode funcionar, a próxima etapa de pesquisas futuras é a aplicação do elemento de modo regular e estudar se isso ajuda a baixar a pressão a longo prazo”.
Atualmente, esse fármaco não é aprovado para o tratamento da hipertensão arterial sistêmica, sendo recomendado para a disfunção erétil e a hipertensão pulmonar. “Ainda precisamos fazer um estudo de uso diário, um ensaio clínico com pessoas usando a sildenafila todos os dias, de oito em oito horas, e verificar se o benefício compensa os efeitos colaterais”, ressalta Gismondi. O professor relembra que esse elemento pode apresentar reações adversas, como a dor de cabeça, vermelhidão no rosto, congestão nasal, vasodilatação na retina e até mesmo visão azulada no caso de algumas pessoas. Dessa forma, ainda são necessárias mais evidências e pesquisas para garantir que o uso seja sadio a longo prazo.
Como o estresse pode impactar a hipertensão arterial?
“Durante eventos estressantes, há o aumento da descarga simpática, com redução do calibre dos vasos sanguíneos, aumento da pressão arterial, alteração do fluxo de sangue e prejuízo na função das células endoteliais”, descreve Natália Galito, professora do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da UFF e uma das pesquisadoras envolvidas no estudo. “Isso significa, então, que o estresse está associado ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, que são preocupantes na área médica”, complementa a docente.
As doenças cardiovasculares são as principais responsáveis pelas mortes por doenças não transmissíveis. Dentre elas, a hipertensão arterial sistêmica é a mais prevalente, inclusive no Brasil, tendo sido diagnosticada em, aproximadamente, 32,8% da população. Obesidade, síndrome metabólica, diabetes e até mesmo pessoas saudáveis podem apresentar a disfunção endotelial induzida por estresse. “A gente sabe que o estresse é um componente importante e que influencia muito no controle da pressão arterial, mesmo em pessoas que não são hipertensas”, conta Gismondi.
No caso das pessoas com hipertensão resistente, no entanto, situações estressoras são ainda mais graves. “Esse grupo específico merece atenção, pois o risco dessa população apresentar desfechos cardiovasculares piores, como infarto, AVC ou morte por doença cardíaca, é até duas vezes maior quando comparado à pacientes com hipertensão não resistente ao tratamento”, relembra a professora.
Gismondi explica que o estresse mental é uma resposta do sistema nervoso autônomo simpático, que é involuntário. Em determinadas situações, esse sistema libera a adrenalina, o principal hormônio do estresse, responsável por aumentar a velocidade e a força de contração do coração, fazendo com que o sangue circule com mais intensidade pelas artérias. “Isso era um mecanismo para justamente preparar os humanos para uma reação de “luta ou fuga” no passado. Hoje, a gente nem luta, nem foge no dia a dia. Com o aumento da pressão arterial e o aumento do trabalho cardíaco, o estresse mental torna-se perigoso a longo prazo”, alerta o professor.
O endotélio, por sua vez, é diretamente afetado pelas condições de estresse dos indivíduos. Em condições saudáveis, essa camada interna dos vasos sanguíneos “não apenas controla a produção de substâncias de dilatação e contração – como o óxido nítrico – mas também dificulta a entrada de células inflamatórias para o espaço subendotelial vascular”, explica Galito. O fluxo de sangue, quando em contato com o endotélio dos vasos sanguíneos, estimula a produção de óxido nítrico e de GMPc. “A alteração na função das células endoteliais, também chamada de disfunção endotelial, gera desequilíbrio na produção de dessas substâncias, o que contribui para aumento da pressão arterial e da chance de formação de placas de gordura, chamadas de placas ateroscleróticas”, elucida a professora.

O estresse é um fator de risco preocupante para os pacientes com hipertensão arterial. Foto: Reprodução/Freepik
Segundo Galito, “estudos sugerem que a função endotelial, bem como a via do óxido-nítrico-GMPc, está prejudicada em indivíduos com hipertensão resistente”. No entanto, o funcionamento saudável do endotélio pode ser alterado por condições adversas para além da pressão alta, como as pessoas com diabetes, que fumam ou que têm colesterol alto. “As células endoteliais passam a secretar substâncias que atrapalham a vasodilatação e promovem vasoconstrição”, explica Gismondi. “A sildenafila, porém, promove o aumento da via do óxido nítrico. Esse é um elemento que auxilia na dilatação dos vasos sanguíneos e melhora a circulação e abaixa a pressão arterial”, destaca o professor.
Projeto contou com apoio do Huap-UFF e bolsas de financiamento
A pesquisa fez parte da tese de doutorado da aluna Amanda Sampaio Storch, do Programa de Pós-graduação em Ciências Cardiovasculares da UFF, com orientação dos professores citados, Natália Galito e Ronaldo Gismondi, além do professor Antonio Claudio Lucas da Nóbrega. O papel do Hospital Universitário no estudo, segundo Galito, foi fundamental: “os pacientes com hipertensão resistente eram provenientes do NuPHAS, do HUAP”.

Professores e pesquisadores na defesa da tese de doutorado de Amanda Storch, orientanda da professora Natália Galito. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Galito ressalta que, além de ser uma colaboração entre grupos de pesquisa da faculdade de Biomedicina e o Huap-UFF, o projeto também contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e de bolsas de mestrado e doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Ronaldo Altenburg Odebrecht Curi Gismondi é professor do departamento de Clínica Médica na UFF. É doutor e mestre em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), tem residência médica em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em Cardiologia pelo Instituto Nacional de Cardiologia. Foi graduado em Medicina pela UFF.
Natalia Galito Rocha Ayres é professora do departamento de Fisiologia e Farmacologia da UFF e membro permanente da Pós–Graduação em Ciências Biomédicas e da Pós-Graduação em Ciências Cardiovasculares da UFF. É doutora e mestre em Ciências Cardiovasculares e graduada em Biomedicina, também pela UFF. É Jovem Cientista no Nosso Estado pela FAPERJ, bolsista de Produtividade pelo CNPq.

