Notícia

Projeto da UFF ajuda a implementar modelo sustentável para a pesca marinha

A pesquisa busca entender a realidade socioeconômica de pescadores artesanais no litoral fluminense

Professores da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com pesquisadores da região Sudeste e Sul do território brasileiro, conduzem um projeto com o objetivo de realizar a avaliação de estoques e ciclo de vida de alguns peixes prioritários do litoral do país. Com o título Ordenamento da Pesca Marinha Brasileira, a iniciativa busca garantir uma gestão eficiente e sustentável dos recursos pesqueiros marinhos, implementando a gestão espacial baseada no ecossistema para a pesca marinha do Sudeste e Sul do Brasil.

Liderado pelos professores do Departamento de Biologia Marinha da UFF, Marcus Rodrigues da Costa e Cassiano Monteiro Neto, o Projeto Remanejar atua na análise dos estoques da Micropogonias Furnieri, popularmente conhecida como corvina e da Mugil liza, nome científico da tainha, espécies essenciais para a pesca artesanal fluminense. O estudo também busca entender a situação socioeconômica e cultural das populações que utilizam desses pescados para subsistência.

A costa do estado do Rio de Janeiro é de suma importância para as pesquisas sobre estoques pesqueiros por conta de suas características oceanográficas que apresentam alta produtividade biológica e uma grande concentração de espécies endêmicas (raras), atuando como um hotspotárea essencial para reprodução, alimentação e crescimento dos organismos e de forte importância ecológica e econômica para a atividade pesqueira – do Oceano Atlântico Sul. 

A retomada na atualização dos dados

Um dos maiores desafios quando se trata de pesquisas pesqueiras é a dificuldade de se encontrar dados atualizados sobre estoques. Em outubro de 2025, o MPA anunciou a retomada da atualização das estatísticas pesqueiras, com o lançamento do Boletim da Estatística Pesqueira e Aquícola (2023-2024) . Antes, os especialistas utilizavam o levantamento divulgado em 2007.

Além de realizar a avaliação dos estoques pescados na costa do Rio de Janeiro, o Projeto Remanejar realiza as avaliações dos peixes, por meio de protocolos de amostragem que acontecem nas atividades de biometria de campo. A coleta de dados é feita a partir da medição de duas variáveis: comprimento, em centímetros (cm), e o peso, em gramas (g).

“A partir desses dois valores conseguimos estimar alguns parâmetros da história de vida desses peixes e da população a qual ele pertence”, comenta Rodrigues. Ao utilizar as relações matemáticas envolvendo as duas medidas, os pesquisadores conseguem estimar e entender alguns aspectos do ciclo de vida das espécies marítimas, tais como seu bem-estar fisiológico – que funciona como o equivalente ao Índice de Massa Corpórea (IMC) humano -, aspectos da sua reprodução e alimentação.

Exemplares de tainha sendo medidos para o processo de biometria. Foto: Arquivo Pessoal

A partir de uma  abordagem multidisciplinar, o projeto também busca entender como diferentes cardumes interagem entre si por meio da modelagem ecotrófica. Semelhante ao conceito de teia alimentar, a modelagem permite compreender como a matéria flui desde os produtores, como pequenas algas, passando pelos consumidores primários como pequenos crustáceos e camarões, por exemplo, até chegar aos consumidores de topo: o robalo e os consumidores de pescados. Além disso, a modelagem ecotrófica permite verificar a qualidade ambiental daquele ecossistema, bem como fazer projeções futuras sobre o status dos estoques.

Um olhar sobre a pesca artesanal

A atividade pesqueira no Brasil é tradicionalmente dividida em dois grandes segmentos: a pesca industrial e a pesca artesanal. Além de investigar os aspectos ecológicos e biológicos da atividade pesqueira, a pesquisa também busca compreender a realidade social e econômica dos pescadores artesanais, avaliando indicadores de qualidade de vida, bem-estar e segurança alimentar dessas comunidades.

A pesquisa busca evidenciar que, apesar de sua importância econômica, social e cultural, os pescadores artesanais ainda enfrentam diversos desafios, como a vulnerabilidade social, a baixa valorização da profissão e o acesso limitado a políticas públicas. “O grupo  desempenha um papel fundamental na segurança alimentar do país, fornecendo pescado fresco e de qualidade para milhões de brasileiros, além de preservar conhecimentos tradicionais e contribuir para a economia das comunidades costeiras. Compreender essa realidade é um passo fundamental para promover a sustentabilidade da atividade e melhorar as condições de vida das populações que dependem diretamente da pesca artesanal”, aponta Rodrigues.

No livro “Caminhos Lagunares: Ecossistema, pesca e desenvolvimento sustentável”, publicado em 2024 pelo Laboratório ECOPESCA – Biologia do Nécton e Ecologia Pesqueira, um estudo de campo realizado no sistema lagunar Maricá-Guarapina classificou a qualidade de vida da comunidade pesqueira e o nível da pesca sustentável das espécies locais.

A pesquisa aponta que os trabalhadores possuem uma jornada de trabalho longa, com cerca de nove horas diárias. Apesar da exaustiva rotina, a comunidade pesqueira apresentou uma boa qualidade de vida, que é registrada levando quatro fatores em consideração: as condições físicas dos habitantes, o bem estar psicológico e social e os fatores ambientais. A metodologia foi replicada no Projeto Remanejar, abrangendo as comunidades pesqueiras visitadas.

A pesca tradicional sofre com a ausência de subsídios governamentais para a garantia do bem-estar do produtor, apesar de oferecer maiores benefícios para o meio ambiente em comparação à pesca industrial. Por operar pela lógica da biomassa, as grandes embarcações realizam a captura das espécies em larga escala, ao contrário do pequeno pescador, que pesca pequenos volumes contínuos de espécies, permitindo o equilíbrio ecológico.

“O pescador artesanal tem o conhecimento empírico. Ele só pesca o necessário, porque no ano que vem ele quer encontrar aquele mesmo pescado, naquelas condições”, adiciona o biólogo Marcus Rodrigues.

Reunião com pescadores e lideranças locais, para discussão de ações de melhoria da atividade pesqueira local, em Maricá, RJ. Foto: Arquivo Pessoal

No início de 2023, o Ministério da Pesca e Aquicultura foi recriado pelo Governo Federal, visando ao fortalecimento de políticas públicas, a regularização e a sustentabilidade dos setores no Brasil. O Laboratório ECOPESCA, que participa de uma rede de pesquisadores inseridos no Projeto Remanejar, conta com o apoio da Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (FIPERJ) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) para que os dados gerados através de diferentes pesquisas subsidiem regulamentos para as pescarias.

Os impactos climáticos e o Novo Modelo de Gestão Espacial da pesca

Em 2016, os pesquisadores da UFF, hoje à frente do Remanejar, realizaram estudos sobre a sustentabilidade da pesca do bonito-listrado na costa do Rio de Janeiro. Durante o período da pesquisa, houve um aquecimento no Atlântico Sul que fez com que a espécie, que era encontrada com abundância, fosse cada vez mais rara nas águas fluminenses. Esse fenômeno demonstra o impacto que as mudanças climáticas causam nas populações e nos ecossistemas marinhos.

O coordenador do projeto, Cassiano Neto, ressalta que não é possível mitigar os efeitos causados pelas mudanças e que o caminho possível é o de se adequar à nova realidade: “Teremos que nos adaptar. Espécies originadas numa determinada área, eventualmente, vão se deslocar para outras e assim por diante. Ocasionalmente, algumas regiões que eram pouco piscosas, ou seja, com menor abundância de peixes,  podem se tornar mais, e outras  que eram muito piscosas podem se tornar verdadeiros desertos no futuro”, conclui o oceanógrafo.

O trabalho realizado pelo Projeto Remanejar ajuda na avaliação dos impactos legais e operacionais necessários para a implementação e desenvolvimento de um Modelo de Gestão Espacial com Enfoque Ecossistêmico, que busca ajudar na adaptação dos efeitos causados pelo aquecimento global.

A zona costeira é dividida em sub-regiões definidas de acordo com suas características físicas oceanográficas. Da região de Paraty, sul do estado, até a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, existem três embaiamentos que formam sistemas costeiros semi-fechados: Baía de Guanabara, Baía de Sepetiba e Baía de Ilha Grande.

As baías de Guanabara e Sepetiba formam zonas estuarinas – quando ocorre uma mistura de águas decorrente do aporte fluvial das bacias de drenagem – enquanto a de Ilha Grande é mais voltada para o mar, recebendo influência direta do ambiente marinho. Espécies presentes em estuários dificilmente são encontradas em ambientes marinhos, e vice-versa, por isso a importância de um modelo baseado na gestão espacial por ecossistema.

A zona costeira do estado do Rio de Janeiro apresenta uma das maiores diversidades ambientais do litoral brasileiro. Foto: Divulgação

A zona costeira do estado do Rio de Janeiro apresenta uma das maiores diversidades ambientais do litoral brasileiro, reunindo praias arenosas, costões rochosos, estuários, manguezais, lagoas costeiras e ilhas oceânicas. Essa heterogeneidade de habitats, associada às características da circulação oceânica e às diferenças geomorfológicas do litoral, favorece a ocorrência de uma elevada biodiversidade marinha e influencia diretamente a distribuição das espécies de peixes e outros organismos aquáticos.

Um dos principais marcos ambientais desse litoral é a região de Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, considerada uma importante zona de transição biogeográfica entre as províncias tropical e subtropical do Atlântico Sul Ocidental. Nesse trecho, a linha de costa altera sua orientação predominante de leste-oeste para norte-sul, condição que, associada ao regime de ventos, favorece a ocorrência do fenômeno da ressurgência. “Durante o processo, águas profundas, frias e ricas em nutrientes são transportadas para a superfície, aumentando significativamente a produtividade primária e sustentando uma complexa cadeia alimentar marinha. Como consequência, a região abriga elevada abundância de plâncton, invertebrados, peixes, aves e mamíferos marinhos, constituindo uma das áreas pesqueiras mais produtivas do Brasil”, comentam os pesquisadores Rodrigues e Neto.

O gradiente ambiental faz com que a composição das comunidades marinhas varie ao longo da costa fluminense, o que permite identificar conjuntos característicos de espécies em cada sub-região. A distribuição demonstra que fatores como temperatura, salinidade, profundidade, disponibilidade de nutrientes, conectividade entre habitats e influência das atividades humanas atuam de forma integrada na estruturação da biodiversidade marinha. 

“Durante muito tempo, toda a gestão pesqueira e pesquisas referentes à atividade de pesca eram baseados em avaliações por espécie. É uma prática oriunda das regiões mais frias, onde há safras bem definidas. Quando se trata de uma região tropical, é possível encontrar uma infinidade de espécies que são capturadas ao mesmo tempo”, ressalta Neto. Atualmente, existem mais de 800 modelos feitos para diferentes localidades e pescaria.

Além do Projeto Remanejar, que conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), o Laboratório ECOPESCA desenvolve diversos projetos relacionados à atividade pesqueira como o Projeto CAMMARADA, voltado ao estudo da pesca de camarões marinhos ao longo do litoral brasileiro. A equipe do centro de pesquisa é formada por alunos e docentes do Programa de Pós-Graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros da UFF, além de contar com apoio de pesquisadores formados no programa e de outras instituições nacionais e internacionais.

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Marcus Rodrigues da Costa possui graduação em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1995), mestrado em Biologia Animal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (2001), doutorado em Biologia Animal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (2006) e Pós-doutorado pela UFRRJ (2014). Atualmente é professor Adjunto da Universidade Federal Fluminense – laboratório de ECOPESCA. Tem experiência na área de Zoologia, Recursos Pesqueiros e Ecologia, com ênfase em Ecologia de Ecossistemas Aquáticos, atuando principalmente nos seguintes temas: Ecologia de peixes costeiros e continentais (estrutura em tamanho, crescimento, reprodução, modelos ecossitêmicos). Nos últimos anos vem se dedicando a estudos em sistemas lagunares costeiros e pesca artesanal.

Cassiano Monteiro Neto é graduado em OCEANOLOGIA pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande (1982), com doutorado em CIÊNCIAS DO MAR (Virginia Institute of Marine Science-1990). É associado do Programa LEAD – Lideranças para o Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (3a turma). Foi Professor Adjunto na Universidade Federal do Ceará entre 1991 e 2000. Atualmente é Professor Titular no Departamento de Biologia Marinha e Pós-graduação em Biologia Marinha da Universidade Federal Fluminense. É membro associado da Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos – AQUASIS. Tem experiência na área de Oceanografia, com ênfase em Interação entre os Organismos Marinhos e os Parâmetros Ambientais, atuando principalmente no estudo de comunidades de peixes, pesca artesanal, mamíferos marinhos e conservação. É líder do Grupo de Pesquisas em Áreas Marinhas Protegidas.

Por Guilherme Neves.
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