No programa de Residência da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), a tecnologia contribui para recuperar a qualidade de vida e a autoestima de pessoas que enfrentam casos clínicos graves com perda de ossos e dentes. O tratamento, realizado em fluxo totalmente digital, permite maior precisão, agilidade e previsibilidade. Com o objetivo de criar e implantar próteses da arcada dentária, o projeto restabelece a função mastigatória, além de reintegrar psicossocialmente os pacientes.
Sob a liderança do professor do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Odontologia da UFF, Vittorio Moraschini Filho, a clínica de residência atua em parceria com o Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) que encaminha os pacientes às quintas-feiras para tratamentos na UFF. “Há três anos começamos a chamá-los para realizarem sua reabilitação aqui na Faculdade de Odontologia. Muitos deles possuíam inúmeras cicatrizes e perda de segmentos ósseos, e não existem técnicas reabilitadoras descritas na literatura especificamente para esses casos”, adiciona o docente.
A partir dessa iniciativa, a equipe passou a documentar as ocorrências, além de estabelecer protocolos e técnicas para reabilitar os pacientes dentro de um fluxo digital. A digitalização dos procedimentos permite a agilização e uma maior precisão nos processos através de scanners, fresadoras e tecnologias de modelagem e impressão tridimensional.

Digitalização para modelo em 3D de molde dentário – foto: divulgação – Clínica de Residência/UFF
Os pacientes chegam à clínica com exames de tomografia realizados previamente no hospital. Os casos são apresentados e discutidos em seminário com os residentes da UFF, que avaliam caso a caso, para o planejamento mais adequado de tratamento. Devido às limitações de infraestrutura e o alto custo dos equipamentos, a equipe realiza em média 4 reabilitações por ano.
Do planejamento virtual à instalação dos implantes
Na clínica, após passarem pela produção de guias virtuais, o paciente é submetido a uma nova tomografia facial e por um escaneamento intrabucal. Os dados tridimensionais são integrados em programas de computador. Em seguida, a equipe realiza um seminário clínico para analisar virtualmente a anatomia, calcular a quantidade necessária de implantes, definir o desenho ideal da futura prótese e mapear o posicionamento exato de cada componente.
Após o planejamento digital, a fase cirúrgica de instalação dos implantes é viabilizada por meio da tecnologia de impressão 3D. O software gera guias cirúrgicas personalizadas que são impressas e adaptadas à cavidade oral do paciente durante o procedimento. Desenvolvidas a partir do planejamento virtual, essas guias são posicionadas na cavidade oral durante o procedimento e orientam a direção e a localização das brocas e dos implantes. “A literatura já demonstra que quando você faz a instalação de um implante com uma guia digitalizada, a precisão tende a ser maior do que na odontologia tradicional à mão livre”, aponta Moraschini.
Após a cicatrização e osseointegração dos implantes, inicia-se a etapa protética, dispensando o uso de moldagens tradicionais e modelos físicos em gesso. Um novo escaneamento intrabucal é realizado e a prótese é desenhada inteiramente em ambiente digital. Com o projeto concluído, o arquivo é enviado através de computadores para centrais de fabricação, onde máquinas fresadoras esculpem a prótese final. Depois que a prótese é instalada, o paciente segue em acompanhamento com a equipe.
Há oito anos, Miguel, de 41 anos, sofreu um erro médico que resultou na necrose do palato, popularmente conhecido como céu da boca, e do maxilar, levando a perda dos dentes da arcada superior. “Eu procurei vários médicos para reparar esse erro, e somente quando cheguei aqui consegui um lugar que o colocasse adiante. Graças ao tratamento e toda equipe da UFF, hoje em dia consigo ter qualidade de vida e eu voltei a sorrir”, comenta em depoimento.

Após 8 anos de luta, Miguel sorri em depoimento – foto: divulgação – Clínica de Residência/UFF
Três alicerces são fundamentais para o tratamento: recuperar a parte estética do sorriso, restabelecer a função mastigatória, possibilitando que os atendidos voltem a se alimentar regularmente, e contribuir para sua reinserção psicossocial. O projeto atende em sua maioria pacientes baixa-renda provenientes do Sistema Único de Saúde (SUS), que passaram por cirurgias para remoção de lesões císticas, ou quadros de necrose, que frequentemente resultam na perda de segmentos do maxilar/mandíbula, dentes e em grandes cicatrizes.
A gratuidade das próteses, ajuda os pacientes a retomarem sua confiança, o convívio social e a superarem barreiras psicológicas decorrentes de graves sequelas faciais, promovendo sua plena reintegração à sociedade e uma transformação profunda em sua qualidade de vida.
As próteses, são projetadas na universidade em parceria com a EFF Dental, empresa especializada em componentes protéticos. A equipe também conta com o apoio da Plenum Bioengenharia e da Dentsply Sirona no fornecimento dos equipamentos utilizados nas consultas. A parceria entre universidade e empresas permite que às tecnologias sejam testadas e aprimoradas antes de chegarem ao mercado, ao mesmo tempo que fortalece as pesquisas e divulgação científica.
Novos paradigmas na literatura científica
Além do impacto social, a iniciativa possui fundamentos pedagógicos tanto para os alunos envolvidos na residência, quanto para os demais estudantes na vida acadêmica. Os pacientes submetidos aos tratamentos assinam um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e integram um estudo longitudinal, com acompanhamento e coleta de dados para avaliar taxas de sucesso, desenvolver pesquisas científicas e criar novos protocolos clínicos.

Alunos da graduação participam de seminários clínicos na Residência – foto: divulgação – Clínica de Residência/UFF
Em 2026, a equipe teve um artigo publicado na The Journal of Prosthetic Dentistry – principal revista científica sobre próteses e restauração dentária – em que apresentava o protocolo desenvolvido para a reconstrução da arcada inferior de um paciente de 32 anos, que possuía uma reconstrução prévia feita a partir de enxerto ósseo microvascularizado de fíbula e retalhos de pele extraoral.
Após realização do exame intraoral, o rapaz apresentava o rebordo mandibular assimétrico, com apenas dois dentes molares no lado esquerdo da boca e crescimento ativo de pelos provenientes do enxerto da pele. Para se iniciar o processo de reconstrução digital, foi necessário desenvolver um protocolo para a remoção dos folículos capilares por meio de um laser cirúrgico de alta potência, focado nas áreas em que os pelos estavam nascendo, realizado de 3 a 4 sessões.
Recentemente, os profissionais receberam o aceite para a publicação de um protocolo voltado para a arcada superior. Essa distinção decorre do diferente nível de complexidade entre as regiões. A mandíbula apresenta maior desafio técnico para o escaneamento digital devido à mobilidade da língua, interferência de bochechas e escassez de marcos anatômicos fixos, especialmente em pacientes mutilados.
O programa de Residência em Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilo-facial da UFF existe desde 2010 e é coordenado pelo professor Rafael Seabra Louro. Os locais de atuação são a Faculdade de Odontologia da UFF para procedimentos ambulatoriais e o Hospital Federal dos Servidores do Estado para a realização de cirurgias de média e alta complexidade.
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Vittorio Moraschini Filho possui graduação em Odontologia – Universidade Salgado de Oliveira (2004), Mestrado em Clínica Odontológica (2012) e Doutorado em Odontologia (2015) pela Universidade Federal Fluminense. Possui dois Pós-Doutorados (2016 e 2020) em Odontologia pela Universidade Federal Fluminense sendo bolsista do programa de Pós-Doutorado da FAPERJ. Foi professor Substituto da UFF na área de Clínica Odontológica nos anos de 2015 e 2016/2018. Foi professor colaborador do programa de pós-graduação em Odontologia (PPGO) da Universidade Federal Fluminense (2015-2018) tendo orientado/coorientado alunos de Mestrado e Doutorado. Foi professor do Programa de Pós-graduação em Odontologia (Mestrado/Doutorado) da Universidade Veiga de Almeida (2020-2024). Foi Coordenador do curso de graduação em Odontologia da UNISUAM (2021-2023). Atualmente é Jovem Cientista do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e Professor Adjunto de Cirurgia Bucal da Universidade Federal Fluminense. Atua na área de saúde, em estudos de revisão sistemática/meta-análises, estudos pré-clínicos e clínicos relacionados ao reparo tecidual dentro das seguintes linhas de pesquisa: desenvolvimento e caracterização física, química, biológica e clínica de biomateriais, em particular nas áreas de periodontia, implantodontia e cirurgia. Possui artigos publicados em revistas de fator de impacto e é membro do corpo editorial e revisor ad-hoc de inúmeras revistas científicas. Foi considerado em publicação na revista PLoS Biology (Poannidis et al., 2020) o 36° pesquisador de maior impacto nacional na odontologia no ano de 2019.
Por Guilherme Neves
