Há 32 anos, a Universidade para Terceira Idade (UNITI) abre as portas do ensino para a população idosa da cidade de Campos dos Goytacazes. O programa do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense (UFF) já recebeu mais de duas mil pessoas ao longo de sua existência. Atualmente, são oferecidas aulas, oficinas e atividades que vão de corte e costura, espanhol e informática, a discussões sobre política e participação social dos idosos no Brasil.
Coordenada pelas professoras do departamento de Psicologia da UFF, Ana Lúcia Novais Carvalho e Mayra Silva de Souza, a iniciativa nasceu com o objetivo de oferecer à pessoa idosa a possibilidade de educação continuada. Ao longo dos anos, passou a reunir professores, estudantes da UFF e voluntários da comunidade de Campos para estimular o aprendizado e a troca de experiências entre gerações.
“O programa de extensão foi criado em 1993 e os dados de jornais daquele período apontavam que cerca de 200 pessoas fizeram inscrições para participar da primeira turma. Foram 60 participantes da faixa etária limite da época, que era de 50 anos”, conta Novais. Segundo levantamentos internos, de 1994 a 2024, mais de duas mil pessoas já passaram pela universidade e 1420 já concluíram a chamada Turma do Ano.
Além da UNITI ser um reflexo de processos que já existem em outras partes do Brasil e do mundo, sua criação também tem relação direta com a legislação nacional, que indica que as instituições de ensino devem oferecer oportunidades de educação ao longo da vida para os mais velhos, com cursos, programas de extensão e atividades formais e informais.

O perfil de idosos que buscaram a UNITI tem se diversificado ao longo do tempo, afirma a coordenadora. Foto: Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Um espaço de aprendizagem e socialização
A UNITI é um programa de extensão, formado por vários projetos paralelos, que acontecem ao longo do semestre letivo ou em um tempo pré-determinado, como as atividades que duram um dia, por exemplo. Nas aulas e oficinas como o Café Expresso, um evento com a temática escolhida pelos próprios alunos, os participantes se dividem em dois grupos: a Turma do Ano e o Grupão. O primeiro conta com os ingressantes anuais, que somam 60 ao total, enquanto o segundo é uma grande turma que reúne todos os participantes de anos anteriores e conta atualmente com mais de 300 inscritos.
“Estamos nos referindo a um programa político pedagógico com quatro ênfases: Corpo, arte e cultura; Memória, patrimônio e história; Educação, direitos e cidadania e Temas contemporâneos. Ou seja, as oficinas e pautas discutidas em aula transitam nessas frentes”, ressalta Novais. Nesse sentido, a Turma do Ano existe com o objetivo de firmar um vínculo entre os idosos e a universidade, criando identidade e pertencimento por parte deles. “Mas o que nos faz escolher o tema das atividades é a demanda dos alunos e dos projetos de estudo de cada professor.”
Os docentes envolvidos no projeto são de departamentos diversos da UFF, como Economia, Ciências Sociais, História, Geografia, Serviço Social ou Psicologia. Além disso, os alunos também são convidados a participar como bolsistas ou voluntários, o que enriquece ainda mais a interação entre gerações promovida pela UNITI. “Os temas tratados nas aulas não são apenas para ocupar o tempo dos idosos, mas também envolve a questão de trazê-los ao debate, apresentar novidades e envolver no aprendizado”, conta a coordenadora. Os participantes da UNITI gostam de receber novos desafios e aprendizados, sejam teóricos ou práticos, ao mesmo tempo que eles também ensinam. A oficina de corte e costura, por exemplo, é disponibilizada por uma voluntária da comunidade idosa de Campos dos Goytacazes, enquanto as atividades de informática são oferecidas por um aluno de psicologia.
Além disso, a universidade também tem colaboração de outras instituições além da UFF. A parceria com o Abrigo Monsenhor Severino, por exemplo, promove atividades como a Dança Livre e o Projeto de Xadrez. “Isso mostra como conseguimos expandir o programa para além do espaço acadêmico”, afirma Novais.

Discussões, aulas e oficinas variadas ocupam o tempo e promovem o desenvolvimento de diferentes habilidades nos alunos da UNITI. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Envelhecimento populacional e mudanças possíveis
A proposta da UNITI ganha ainda mais relevância diante do envelhecimento da população brasileira. De acordo com os dados da Pnad Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no início do ano, a pirâmide etária do país está se invertendo. Nos últimos 14 anos, a proporção de crianças e adolescentes caiu, em média, dois pontos percentuais, enquanto a população de idosos cresceu de 11,3% para 16,6% de 2012 para 2025.
“O compromisso do programa existe, porque o envelhecimento da população acontece em uma velocidade importante e esses indivíduos demandam serviços e conhecimento”, explica a professora. “Compreender o processo e proporcionar um envelhecimento adequado e de qualidade é a grande meta da UNITI, bem como produzir conhecimento, pesquisa e subsidiar serviços direcionados a essa população.”
A experiência do programa, além de utilizar recursos multidisciplinares para levar à tona o assunto, também consegue observar particularidades do envelhecimento das pessoas de Campos dos Goytacazes. A maioria dos participantes do projeto são mulheres, que ficam envolvidas em afazeres domésticos na parte da manhã e, por isso, estão disponíveis para as atividades na parte da tarde, quando encontram disponibilidade do transporte público da cidade.
Segundo Novais, não é por acaso que as mulheres compõem a maior parte da Turma do Ano e do Grupão. Em geral, a coordenadora percebeu que elas estão mais dispostas a participar de atividades coletivas, além de buscar por mais serviços de saúde, interação social e aulas. Além disso, a questão do cuidado é historicamente ligada ao feminino. Para a coordenadora, são variáveis como essas que mostram a importância de observar o contexto regional e os impactos que ele causa à população idosa. Assim, a criação de propostas políticas para melhorar a qualidade de vida das pessoas dessa faixa etária é mais precisa.
Da sala de aula para o debate político
É dentro da proposta de participação e autonomia dos idosos que surge uma das atividades da UNITI: a Oficina Legislativa para Idosos, oferecida pela professora do departamento de Ciências Sociais da UFF, Mariele Troiano. Pioneiro no Brasil, o projeto foi implementado na UFF com uma bolsa do Pró-Reitoria de Extensão (Proex).
A iniciativa permite que os participantes aprendam sobre o funcionamento do sistema político brasileiro e, ao final, desenvolvam ideias para projetos de lei que podem ser registrados no Portal e-Cidadania, do Senado Federal. Porém, é a primeira vez que essa possibilidade foi abordada com uma turma da terceira idade. “Há um obstáculo em nossa sociedade para reconhecer as pessoas idosas como cidadãs ativas, que formulam ideias e que participam de discussões”, afirma Troiano. “Se mais de 20% dos deputados federais, na atual legislatura, têm mais de 60 anos, por que a população idosa não é devidamente engajada, como sujeito ativo de direitos, na formulação das políticas públicas do nosso país?”, questiona.
A partir de uma revisão bibliográfica na área da Ciência Política, a professora constatou que os temas que mais abordam os idosos são arrecadação do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), previdência privada, voto facultativo e temas que envolvem bem-estar. “Diferente de outras iniciativas que apenas formulam ideias, a Oficina Legislativa não é uma simulação de como se faz uma lei”, ressalta. “É uma tentativa bastante elaborada de aproximar a sociedade civil que não vive a rotina da política”.
A Oficina Legislativa segue a metodologia desenvolvida pelo Senado Federal e adaptada para o público idoso. São cinco encontros, que começam com a apresentação do projeto até chegar à elaboração e ao registro de uma ideia legislativa. “Falar sobre política em um ano eleitoral gera muito afastamento, então primeiro criamos uma relação de confiança”, conta Troiano.
No segundo momento, os participantes retomam conceitos sobre política no cotidiano e, por exemplo, as funções dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. “Os alunos entraram no projeto com receios, alguns estereótipos e preconceitos, mas conseguimos derrubar todos eles ao longo dos encontros. Como uma das alunas ressaltou, nós colocamos os idosos de volta ao centro da discussão no momento em que a sociedade os tirou de vista”, acrescenta.
A terceira aula é dedicada à construção das ideias legislativas e os alunos são estimulados a pensar em sugestões para o âmbito federal, conhecer projetos que já existem e compreender o que é, de fato, viável dentro de uma proposta de lei. A aula seguinte é a única etapa de simulação, quando os participantes fazem um debate de ideias e aprendem a se posicionar, assim como fazem os deputados em posições de lideranças e relatorias.
A última aula, por fim, é o momento em que os idosos fazem o registro da ideia no Portal. O processo, segundo a professora, exigiu adaptações para que a atividade fosse acessível ao público idoso. “Foi um trabalho conjunto para adaptar o programa à recepção do projeto. A equipe do Senado considerou, por exemplo, canais de acessibilidade com o uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras), mas não pensou na pessoa idosa que, frequentemente, não tem uma relação de confiança com a tecnologia para o uso de senhas e a aceitação de termos. Por isso, essas pessoas fizeram a sugestão por telefone, diretamente com a atendente, muitas vezes utilizando o viva-voz, porém sem interferência externa”, explica Troiano.
E a participação não termina com a elaboração da ideia. Segundo o portal do Senado, as propostas são submetidas a votação pública e, se alcançarem 20 mil apoios virtuais, serão analisadas pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa. Neste meio tempo, também é possível que um senador adote a ideia e a transforme em projeto de lei.
“O projeto é muito enriquecedor”, ressalta Troiano. “Os alunos têm muita memória política. Quando falamos da redemocratização, por exemplo, nos deparamos com alunos que já participaram das Diretas Já e reconhecem a importância da nossa democracia.”
Uma universidade construída a várias mãos
A Oficina Legislativa é um exemplo de como a UNITI procura aproximar as diferentes gerações e promover a interação entre elas a partir de uma visão multidisciplinar e coletiva. “Após a aprovação da oficina em fevereiro, fizemos um processo de capacitação, com questões técnicas e éticas para que os alunos conseguissem coordenar encontros cujo público seria composto integralmente por pessoas idosas”, conta Troiano. “A educação política, enquanto processo dialógico, exige constante adaptação e envolvimento da equipe, dos alunos e da sociedade civil.”
A diversidade de participantes do projeto, para além dos docentes e alunos da UFF, também mudou ao longo dos anos. De acordo com a coordenadora Ana Lúcia Novais, a UNITI passou a reunir pessoas com histórias diferentes. “Hoje, temos desde a dona de casa, à idosa que fez graduação, trabalhou fora e está buscando algo diferente”, conta. “A diversidade de realidades é muito interessante e a nossa proposta é que tudo aconteça com todos juntos. A UNITI é uma mistura de aprendizado acadêmico e de vida, uma interação emocionante”, arremata.
A proposta de aproximar os idosos da universidade também produz efeitos que vão além das atividades em sala de aula. Para Troiano, são essas mudanças que mostram, na prática, o impacto do programa. Entre as situações relembradas pelas professoras, estão os alunos jovens que contam como foram tocados pelo projeto, estudantes que mudaram o tema de suas monografias para dedicar um olhar atento a esse grupo etário, e idosos que perceberam as mudanças em casa, no diálogo e interação com familiares e amigos.
A expansão da iniciativa para outros campi da UFF e outras universidades está entre as perspectivas das professoras, incentivando outras instituições a pensarem na participação e inserção da população idosa nas atividades. “São formas de pensar na acolhida e no diálogo entre gerações, além de usar o espaço da UFF para isso”, pontua Troiano.
“Compreender esse processo e proporcionar um envelhecimento adequado e de qualidade para a população é a grande meta da UNITI como um todo, bem como produzir conhecimento, pesquisa e subsidiar serviços direcionados a essa população”, finaliza a professora de Ciência Política.
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Ana Lúcia Novais Carvalho é professora do departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora da Universidade para Terceira Idade (UNIT), em Campos dos Goytacazes. É pós-doutora em Ciências Fisiológicas, doutora e mestre em Biologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Possui graduação em Psicologia pela UERJ e especialização em neurobiologia pela UFF.
Mariele Troiano é professora de Ciência Política na UFF e coordenadora da Oficina Legislativa para Idosos. É doutora e mestre em Ciência Política e graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Líder do Grupo de Pesquisa Observatório de Instituições Políticas e Democracia (@ObservaDemocracia).
