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Estudo da UFF propõe alternativa acessível para tratamento de artrose no joelho

Aplicação de plasma rico em plaquetas mostra resultado semelhante ao uso do ácido hialurônico em todos os pacientes testados

Cerca de 15 milhões de brasileiros são afetados pela osteoartrite, a condição mais predominante entre as doenças que afetam as articulações, em especial o joelho, indicam os dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR). Atenta a esse cenário, uma pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) propõe uma terapia mais acessível para a para redução da dor e melhora da função no o tratamento da artrose de joelho: o plasma rico em plaquetas (PRP) 

Designada como um tipo de “reumatismo”, classificação referente a doenças que afetam o sistema locomotor danificando as articulações, a osteoartrite de joelho (OAJ) é causada pelo desgaste das estruturas da rótula ao longo do tempo. O professor de Ortopedia da Faculdade de Medicina da UFF e coordenador do ensaio clínico, Eduardo Branco, explica que a doença é mais complexa do que parece. “Atualmente, entendemos que a osteoartrite é muito mais do que uma doença crônica de cunho degenerativo, porque contém o componente genético, inflamatório e metabólico”.

Nesse cenário, o pesquisador buscou novos métodos para amenizar os sintomas da OAJ com testes conduzidos no Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap) e com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), por meio do edital Jovem Cientista do Nosso Estado. Em seis meses, os resultados têm mostrado que o tratamento com PRP é tão eficaz quanto o tratamento já consolidado e conhecido: a injeção intra-articular de ácido hialurônico (AH). 

Tratamentos atuais e destaque para o PRP

Hoje, o recurso terapêutico para osteoartrite de joelho considerado “padrão ouro” é a colocação da prótese articular, porém, devido ao desgaste, pode ser necessária a troca após um período de 12 a 15 anos. “Tratamentos como esses são reservados para pessoas com idade acima de 65 anos, após falha de outras terapias”, indica Eduardo. “O risco de complicação com a prótese felizmente é baixo, em torno de 3% a 4%, o que inclui o risco de infecção, porém ele existe e pode ser devastador.”

Dentro deste cenário, “tem-se investido em tratamentos que ajudam a melhorar a dor, melhorar a função, na tentativa de postergar ou até mesmo evitar a colocação da prótese.” Neste momento, além dos tratamentos com remédios, as infiltrações surgem como alternativa para o tratamento da osteoartrite no joelho. 

A dor no joelho e rigidez articular são duas características da artrose, doença crônica e complexa. Foto: Pexels

Quando se discute o tratamento injetável, os corticoides são muito lembrados devido seu efeito anti-inflamatório potente. Entretanto, devido ao risco de efeitos adversos quando usados em excesso, seu uso deve ser limitado às crises de dor.

Assim, para ajudar no tratamento dos pacientes com osteoartrite, surgiram outras alternativas, como o AH. “Ele é o principal componente do líquido sinovial, já existente nas articulações, mas nas pessoas com osteoartrite, ele é de pior qualidade, por causa da presença de substâncias inflamatórias liberadas pela doença”, elucida Eduardo. Nesse caso, o líquido doente perpetua a inflamação, o que aumenta, também, a dor. “A ideia da infiltração de ácido hialurônico é dar um aporte de um líquido novo, que ajuda a melhorar a lubrificação e controlar a inflamação articular.”

“Infelizmente no Sistema Único de Saúde (SUS) e mesmo em alguns convênios, o ácido hialurônico não está disponível para os pacientes devido ao seu custo”, explica o professor.

Com o aumento no interesse em tratamentos com potencial regenerativo, têm sido estudados nos últimos anos produtos chamados ortobiológicos, obtidos a partir de substâncias do próprio organismo, como o plasma rico em plaquetas, o aspirado de medula óssea e o aspirado de gordura. Hoje sabe-se que esses produtos não conseguem promover regeneração de tecidos na articulação, mas ajudam no controle da inflamação, o que ajuda na melhora da dor e da função. 

No caso do ensaio clínico de Eduardo, o PRP é o principal estudado, mas ele relata que também existem linhas de pesquisa para os outros produtos que se mostraram também eficazes para o alívio dos sintomas de osteoartrite, como os produtos derivados da medula óssea.

A injeção de ácido hialurônico para tratar a osteoartrose pode custar de R$ 250 a R$ 1 mil por aplicação. Foto: Pexels

O pesquisador explica que a plaqueta é um fragmento de célula presente no sangue que atua no sistema de coagulação, com a liberação de substâncias pró e anti-inflamatórias e que ajudam na cicatrização. “Verificou-se que, na osteoartrite, elas ajudam a modular a inflamação articular relacionada à doença”, indica. 

A fim de testar a eficácia do procedimento, foram selecionados 120 pacientes do Huap diagnosticados com osteoartrite de joelho bilateral, de grau leve a moderado, de 40 a 70 anos, que foram divididos em três diferentes grupos. No formato de estudo duplo-cego, no qual nem os pacientes nem o avaliador sabiam qual produto foi aplicado, o tratamento padrão com ácido hialurônico foi comparado com dois protocolos de PRP distintos, diferindo pelo protocolo de preparação.

Foram realizadas três aplicações de PRP com um intervalo de uma a três semanas e, após seis meses de acompanhamento, os efeitos sobre a dor e a função têm se mostrado  semelhantes aos encontrados nos participantes tratados com AH, constatou o estudo da UFF. “Já existem trabalhos que demonstram que o plasma rico em plaquetas pode ser superior à outras injeções, tanto em termos de redução de dor e melhora na função, alguns com duração superior a um ano.”

O resultado foi medido com ferramentas padronizadas: a Escala Visual Analógica (EVA), que mede o grau de dor de 0 a 10, e o WOMAC, uma escala desenvolvida no Canadá que avalia subjetivamente através de perguntas sobre atividades cotidianas a dor, além da rigidez e a capacidade funcional de cada paciente.

No caso do estudo foi feito com duas etapas de centrifugação, o que segundo a literatura aumenta a concentração de plaquetas por volta de 360%. “Isso é importante, porque quanto mais plaquetas, melhor o efeito do tratamento”, explica Eduardo. 

Todos os 120 participantes já passaram pela etapa dos três procedimentos no Huap em 2024 e 2025. “Já avaliamos todos os pacientes por até seis meses e agora caminhamos para a avaliação de 12 meses. A previsão é terminar a análise em agosto de 2026 para a publicação dos resultados de um ano de acompanhamento”, conta Branco.

Uma amostra do PRP obtida de cada paciente também foi armazenada para análise da sua composição através de um ensaio, chamado Elisa, que quantifica os fatores presentes no PRP com o objetivo de saber quais fatores podem estar relacionados aos efeitos encontrados nos pacientes.

 “Continuaremos o acompanhamento pelos próximos meses de forma a avaliarmos a resposta ao tratamento ao longo de dois anos. Isso é importante para sabermos a durabilidade do efeito do tratamento com PRP.”

Embora a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já tenha autorizado o uso do plasma rico em plaquetas, o Conselho Federal de Medicina (CFM) ainda considera o uso experimental, restrito apenas a estudos e pesquisas. 

Foco na acessibilidade

Embora não fosse o objetivo principal, o ensaio clínico também tem o relevante viés social de validar um método de potencial baixo custo, com possibilidade de ser incorporado ao SUS, para lidar com a doença que atinge grande parte da população. “O custo do tratamento com AH ainda é elevado para a realidade financeira da nossa população”. Se pensarmos que a osteoartrite acomete cerca de 500 milhões de pessoas no mundo todo, ao transpor essa proporção para o Brasil, vemos como o custo do tratamento é alto para muitas pessoas e para o sistema de saúde público e privado.”

O plasma rico em plaquetas pode ser produzido de diversas maneiras, seja por meio de kits prontos ou o que denominamos PRP caseiro, por meio da produção com equipamentos e insumos já disponíveis em qualquer hospital, como tubos de coleta de sangue, seringa e agulhas, além do sangue colhido do próprio paciente. “Assim, é viável reduzir o custo da produção do PRP e aumentar o acesso ao tratamento sem perda da qualidade”, evidencia o professor. No caso de clínicas e consultórios, onde essa estrutura pode não estar presente, os kits prontos facilitam o processo. 

“Num país continental com um sistema público universal de saúde, conseguir atender mais pessoas com um menor custo é relevante para mantermos a  viabilidade do sistema econômico de saúde”, defende. “Por isso é importante termos diversos tipos de tratamento para oferecer.”

Os pacientes com osteoartrite de joelho foram testados por seis meses e continuam o tratamento até completar um ano completo de injeções de PRP. Foto: Freepik

Perspectivas futuras

A opção terapêutica do plasma rico em plaquetas é de extrema relevância para a ortopedia, porém ela não substitui o papel do ácido hialurônico no tratamento da osteoartrite, reforça o pesquisador. O objetivo é ampliar o espectro de terapias  para perfis distintos de pacientes, já que a doença é complexa, sendo inclusive estudado a associação desses dois tratamentos. Apesar dos avanços, o professor relembra que as infiltrações não são uma solução isolada para a osteoartrite. “Manter um estilo de vida saudável, o controle do peso, a realização de atividades físicas regulares e o acompanhamento multidisciplinar são essenciais”.

Afinal, o que é a doença?

A artrose de joelho é responsável por 7,5% dos afastamentos no trabalho, aponta a SBR. A doença não tem cura até hoje e, segundo o professor, cada pessoa pode manifestar os sintomas de maneira distinta, sendo mais comum o desenvolvimento da dor e rigidez articular, que afetam a capacidade de caminhar, explica. 

 “A genética é um fator que tem sido muito estudado nos últimos anos”, ressalta o pesquisador. “Sabemos que 20% a 30% dos pacientes com osteoartrite tem o componente genético, mas não há nenhuma intervenção sobre essa questão. A expectativa é de que, sabendo que a pessoa tem predisposição para a doença, consigamos atuar precocemente nos fatores passíveis de modificação.”

A segunda causa citada por Branco é inevitável: o envelhecimento. Ao longo da vida, os tecidos do corpo humano tornam-se incapazes de recuperar certos danos e, no caso da osteoartrite, as lesões na cartilagem articular não regeneram e o acúmulo dos danos contribui para a doença. Por fim, os estudos mostram que a mulher é mais acometida pela osteoartrite do que os homens, o que parece estar associado a alterações pós menopausa, como a osteoporose. 

A osteoartrite atinge, em sua maioria, idosos e mulheres. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil.

Ainda, há fatores em que a atuação clínica e do próprio paciente podem intervir, por exemplo, a obesidade e a inatividade física. De acordo com o pesquisador, o entendimento sobre as consequências da obesidade também alteraram a compreensão sobre a osteoartrite. “Antes, o excesso de tecido adiposo, característico da obesidade, era associado à osteoartrite ao considerar apenas os efeitos mecânicos do peso sobre a articulação e a rapidez com que a cartilagem seria desgastada. Hoje, sabemos que o tecido adiposo também atua liberando substâncias inflamatórias na circulação e que, por consequência, afetam as articulações”, explica. “A obesidade tem um efeito não apenas mecânico, mas também inflamatório e metabólico. Quando a combatemos, ajudamos no tratamento da osteoartrite.”

A sarcopenia é outro fenômeno que não recebe tanta atenção, pontua o pesquisador. A doença refere-se a perda de massa muscular generalizada para além do habitual no decorrer do tempo. “Depois dos 30 anos, perdemos a partir de 1% de massa muscular por ano. Dependemos dela para proteger a articulação, pois ela ajuda a absorver impacto e dar impulso durante a marcha, por exemplo”. O estímulo muscular por meio de uma rotina de atividade física auxilia na prevenção de lesões articulares e no tratamento da OAJ.

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Eduardo Branco de Sousa é professor adjunto de Ortopedia na Faculdade de Medicina na Universidade Federal Fluminense (UFF). É pós-doutor em biotecnologia pelo Inmetro, doutor em Ciências Morfológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Ciências Médicas pela UFF. É especialista em Ortopedia e Traumatologia pela SBOT/AMB/MEC, em Cirurgia do Joelho pela SBCJ e em Medicina do Exercício e do Esporte  pela SBME/AMB. Branco é graduado em Medicina pela UFF e tem Residência Médica em Ortopedia e Traumatologia e Especialização em Cirurgia do Joelho pelo Hospital Central da Polícia Militar.

Por Letícia Souza
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