Notícia

Projeto da UFF promove letramento sobre os marcadores de opressões em Campos dos Goytacazes

O Jogo do Privilégio e da Diferença transforma o debate sobre Direitos Humanos em um jogo de tabuleiro formativo

O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado mundialmente no dia 28 de junho, é uma data comemorativa que reafirma e exalta a diversidade de orientações sexuais e de gênero. Nessa linha, o Laboratório Pluriverso, do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense (ESR-UFF), localizado em Campos dos Goytacazes, desenvolveu o Jogo do Privilégio e da Diferença, uma tecnologia social gamificada voltada para o letramento prático sobre opressões interseccionais e marcadores sociais, incluindo os de gênero e sexualidade.

A iniciativa aposta em uma abordagem lúdico-formativa para falar sobre temas sensíveis e complexos de debater sem a rigidez e pragmatismo das abordagens padrões em sala de aula. “Existem vários formatos de aula, mas esse permite tornar palpável temas como opressões estruturais que existem no Brasil sem trazer palavras difíceis de serem interpretadas e com situações que você consegue ver acontecer no cotidiano“, explica a extensionista do projeto e estudante do sétimo período do curso de Psicologia da UFF, Maria Clara Fernandes.

O projeto foi idealizado pelas alunas do curso de Psicologia da UFF, Júlia Barreto e Gabriela Alvice, e nasceu de um trabalho de disciplina focado na experiência formativa e de intervenção social. “Quando elas apresentaram o projeto, fizemos algumas aplicações em atividade acadêmica e vimos o potencial dele de ação em políticas sociais. Aos poucos, ampliamos e o conceituamos como uma tecnologia social”, aponta o coordenador do Pluriverso e professor de Psicologia, Pedro Oliveira.

O tabuleiro da reflexão

O Jogo do Privilégio e da Diferença, pensado para alcançar professores e estudantes do ensino público, é formado por um tabuleiro com 12 casas divididas em situações do cotidiano que reforçam os eixos de exclusão no Brasil. “Colocamos no tabuleiro os marcadores mais emblemáticos das opressões que estão às voltas dos sistemas de classe, gênero, território e capacitismo brasileiro”, comenta Oliveira. Além disso, o desafio conta com 11 cartas com personagens que carregam diferentes marcadores sociais. 

Na primeira rodada da partida, cada jogador atravessa o tabuleiro a partir de suas próprias vivências. Ao rolar o dado, a pessoa avança a quantidade de casas apontada na face e para em um cenário de marcador de opressão como: “se você sempre sentiu segurança para falar sobre seus relacionamentos amorosos, avance uma casa”. A mecânica da rodada faz com que participantes privilegiados concluam rapidamente o percurso, enquanto as atravessadas pela desigualdade tenham dificuldade de completar o caminho.

A segunda rodada tem um funcionamento diferente: os papéis são alterados. Antes do início, os jogadores recebem uma carta das extensionistas do projeto com a imagem e a descrição de um novo personagem – com características distintas do participante – construído a partir de marcadores de raça, classe, gênero, sexualidade, território e capacitismo. Na sequência, precisam passar pelo tabuleiro respondendo às situações de acordo com as vivências e experiências da figura.

As representações dos personagens foram desenvolvidas para causar verossimilhança com seus marcadores sociais. Foto: Arquivo Pessoal

Os jogadores e mediadores ao final de cada partida participam de uma roda de conversa para compartilhar as experiências e decisões tomadas durante o simulacro. “O jogo não pergunta quem você é, mas te faz pensar nisso a partir do momento em que você vai andando pelas casas e tem a possibilidade de avançar mais facilmente pelas casas ou ter que parar em algumas delas”, adiciona Oliveira.

Esse efeito é gerado por conta de duas dimensões psicossociais que são ativadas ao longo das partidas. Ao andar pelo tabuleiro lidando com as situações apresentadas a partir de suas próprias experiências, cada jogador é confrontado a reconhecer seus privilégios e opressões demarcados. O outro efeito causado é o da alterização para si, quando os participantes passam a introjetar identidades que não o constrói, na segunda rodada, e passa a vivenciar uma “nova realidade” com diferenças ou privilégios que não fazem parte do seu cotidiano.

O lúdico no papel formativo

Em 2025, o projeto ampliou uma parceria desenvolvida com a Subsecretaria de Igualdade Racial e Direitos Humanos do município de Campos dos Goytacazes, para a aplicação do jogo em atividades relacionadas aos Direitos Humanos, abrangendo o ambulatório LGBTQIAPN+ da saúde municipal e levando o debate sobre desigualdade e discriminação a novos públicos.

Em 2026, o foco está no letramento em Direitos Humanos para os professores da região, através da Escola de Formação de Educadores do Município (EFEM), uma parceria entre o Pluriverso e a Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia de Campos (SEDUCT). “Queremos construir uma esfera mais sensível dos professores campistas no sentido de acolher as inúmeras opressões que os estudantes, e em especial as vítimas enfrentam, para que a educação seja mais efetiva em termos de inclusão”, conclui o coordenador do Lab. Pluriverso.

Aplicação do jogo na 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Foto: Arquivo Pessoal

Atualmente, a equipe está submetendo o projeto aos trâmites da Agência de Inovação da Universidade Federal Fluminense (AGIR) para que ele seja oficialmente catalogado como uma Tecnologia Social da UFF. Uma vez finalizado esse processo, o objetivo é desenvolver uma versão online do tabuleiro para que o jogo alcance novos públicos.

Pedro Renan Santos de Oliveira é Professor Adjunto no Departamento de Psicologia de Campos na Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) – com estância doutoral (sanduíche) na Universidad Complutense de Madrid (UCM) – Espanha. Mestre em Saúde da Família (UFC). Especialista com Residência em Saúde da Família e Comunidade (UECE). Formação e Bacharelado em Psicologia (UFPE). Quanto às Linhas de Estudos e Pesquisas, a partir da Psicologia Social-Institucional e Política, tem realizado interface entre Teorias Críticas da Sociedade, Estudos sobre Colonialidade do Poder e as Racionalidades e Intersubjetividades nas relações (e políticas) de Cuidado em Saúde. No campo profissional e técnico, atuou em serviços de Saúde Mental e Atenção Primária, especialmente com supervisão clínica-institucional.

 

Por Guilherme Neves.
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