A química é uma vertente da ciência presente em diversos níveis do cotidiano. Nos medicamentos, alimentos e fontes de energia que moldam a vida hoje, a chamada “ciência invisível” é fundamental para solucionar diversos desafios socioeconômicos, desde à fome mundial às mudanças climáticas e novas tecnologias.
Esses são alguns tópicos abordados pelo professor do departamento de Química Orgânica, coordenador do Laboratório de Síntese Orgânica Aplicada (LabSOA) da UFF e presidente da Sociedade Brasileira de Química (SQB), Fernando de Carvalho da Silva, na programação da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira no Progresso da Ciência (SBPC), evento sediado na Universidade Federal Fluminense (UFF), durante os dias 26 de julho a 1 de agosto.
A conferência “Química: a ciência invisível no enfrentamento dos desafios globais (SBQ)” propõe uma reflexão sobre o papel da química na sociedade, a importância de informações acessíveis e o conhecimento como ponte entre a ciência e a população.
A conferência na qual você participa na 78ª Reunião Anual da SBPC aborda como as pesquisas na área da química são responsáveis por enfrentar desafios globais. Quais são esses desafios e por que essa ciência é fundamental para enfrentá-los?
Fernando de Carvalho: A conferência na Reunião Anual da SBPC faz parte de um grupo de atividades e, como presidente da Sociedade Brasileira de Química, também tenho a responsabilidade de apresentar no evento. Como esse é um evento multidisciplinar, não poderia apresentar algo focado na química, então decidimos falar sobre temas presentes no cotidiano. Eu costumo dizer que a química é uma das profissões mais importantes, porque não há nada no mundo que não haja química. Nós temos a capacidade de solucionar vários problemas a partir dela.
O título da palestra chama a química de “ciência invisível”. Por que ela ainda recebe esse rótulo, mesmo estando presente em diversos aspectos da nossa vida?
Fernando de Carvalho: Existem livros que dizem que a química é uma ciência central, pois ela é usada de forma oculta em várias áreas, como uma linguagem para outras ciências. A engenharia de materiais, medicina, farmácia e nanotecnologia, por exemplo, têm a química como ferramenta ou linguagem científica.
Na sua opinião, por que a química ainda desperta certo distanciamento ou receio em parte da população?
Fernando de Carvalho: Em primeiro lugar, isso é um erro de formação. Os estudantes leem literatura clássica, mas não formam pensamento crítico sobre ciência, com Isaac Newton, Copérnico, Einstein, Stephen Hawking, por exemplo. Quando o interesse das crianças e adolescentes é desviado, principalmente, para as áreas humanas, a área científica não sobrevive. O mesmo ocorre frente à grande mídia: sabemos quando um acadêmico toma posse na Academia Brasileira de Letras, mas não sabemos sobre a Academia Brasileira de Ciências. Eu acredito que seja cultural, uma herança do passado, que incentiva a população a outras áreas e não estimula a conteúdos dessa área da ciência.

A química é considerada por autores como uma “ciência central”, uma ferramenta para outras áreas. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
A crise climática, a saúde e a segurança alimentar estão entre os principais desafios da atualidade. De que maneira as pesquisas em química podem contribuir para transformações e avanços concretos nessas áreas?
Fernando de Carvalho: A química trabalha em diferentes frentes, por exemplo: o desenvolvimento de agrotóxicos e herbicidas para lutar contra a fome e escassez de alimentos no mundo; a fabricação de novos medicamentos para médicos e farmacêuticos por meio de novas moléculas; e a produção de fontes alternativas de energia para as baterias de carros elétricos, ou carros movidos a hidrogênio. A química tem a capacidade de solucionar vários problemas mundiais, como esses. Os químicos ou engenheiros químicos estão envolvidos nestes processos, ligados à educação científica, que deveria ser um ponto fundamental da formação de qualquer cidadão.
A UNESCO aponta que investir em educação científica é fundamental para enfrentar os desafios atuais, porém o Brasil ainda apresenta uma escassez de professores de química e outras áreas das ciências. Como a compreensão sobre o papel da ciência pode alterar essa realidade?
Fernando de Carvalho: Isso é o reflexo do pouco estímulo. Por exemplo, são poucos os graduandos em química ou física que concluem o curso, talvez eles sejam menos receptivos a se formar na universidade, entre outros pontos. Eu acredito que, em primeiro lugar, é preciso aumentar a carga horária em ciências no currículo do ensino básico. É caro, trabalhoso, mas deveríamos ter, por exemplo, atividades e experimentos práticos nas escolas como regra. Isso atrai a atenção das crianças e jovens. A química tem conceitos fundamentais muito abstratos – é preciso imaginar um elétron, um próton ou um átomo, diferente de outra área em que você consegue ver ou tocar o conteúdo. A Casa da Ciência da UFF, que também estará presente na SBPC, sempre recebe visitas e atrai estudantes que, no futuro, podem se especializar nisso.
Suas pesquisas variam entre diferentes compostos como quinonas, triazóis e cumarinas. Como os estudos sobre esses elementos podem resultar em aplicações práticas para o cotidiano?
Fernando de Carvalho: Essas são moléculas que tem o que chamamos de função química e, aqui na UFF, trabalhamos com sínteses químicas, ou seja, a fabricação de novas moléculas que são enviadas para avaliação contra várias doenças como cânceres, tumores, bactérias, fungos, inflamações. A partir disso, encontramos resultados e podemos desenvolver patentes de medicamentos ou publicamos artigos, gerando conhecimento para a área. Nosso grande objetivo é contribuir para a área de síntese orgânica e química com aplicação de potencial biológico e doenças.

O professor da UFF também é coordenador do LabSOA e presidente da Sociedade Brasileira de Química. Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
Qual o papel de eventos como a SBPC, que levam a ciência até o público geral, para ampliar o conhecimento da química e solução de problemas através dela?
Fernando de Carvalho: Eles são fundamentais. Eventos como a SBPC são um sopro de esperança entre todos os problemas que citei anteriormente. É uma oportunidade enorme encontrar e trazer jovens para estudar, dar continuidade e até mesmo melhorar as tecnologias e conhecimentos que temos hoje. O evento tem o papel de colocar as pessoas em contato com grandes pesquisadores e professores, para entenderem mais sobre as várias ciências envolvidas, desde as humanas até as exatas e, além disso, despertar o interesse das pessoas. Acredito que a SBPC tira a ciência do local de elitismo intelectual, que, de certa forma, ainda existe. O fato de ser uma Reunião Anual bem diversa oferece o cardápio completo para os participantes.
Como presidente da SBQ e palestrante na SBPC, qual a importância de eventos como esse para fortalecer a confiança na ciência, em um contexto em que a desinformação ainda desafia a comunicação científica?
Fernando de Carvalho: A luta contra as fake news é diária, e se tornou ainda mais intensa durante a pandemia do corona vírus. Antes, haviam várias pseudociências que eram inofensivas, de certa forma: é perigoso comer manga com leite, fazer bolo durante a menstruação pode dar errado, entre outras. O problema foi quando elas passaram a prejudicar as pessoas, como os movimentos antivacina ou a indicação de remédios errados para uma doença. É neste momento que entramos em ação, com vídeos em redes sociais com linguagem inclusiva, ou através do jornalismo científico. O papel da SBPC gira em torno disso: com uma população informada, muitos danos são reduzidos.
SBPC na UFF
São esperadas mais de 50 mil pessoas de todo o Brasil para acompanhar a 78ª Reunião Anual da SBPC, de volta ao estado do Rio de Janeiro após 32 anos. O tema “Ciência Para Todos: Soberania, Desenvolvimento e Inclusão” engloba a programação de 26 de julho a 1 de agosto no Campus do Gragoatá, da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói. O evento, com atividades voltadas à ciência, educação, cultura, tecnologia e inovação, é realizado em parceria com a Prefeitura de Niterói e a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), com o apoio da Fundação Itaú.
Fernando de Carvalho da Silva é professor do departamento de Química Orgânica e coordenador do Laboratório de Síntese Orgânica Aplicada (LabSOA) na Universidade Federal Fluminense (UFF). É doutor e graduado em Química pela UFF e graduado no Programa Especial de Formação de Docentes pela Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO). É presidente da Sociedade Brasileira de Química (SBQ).
