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Radar SBPC: Protótipo desenvolvido na UFF aposta em tecnologia para apoiar pessoas com dislexia no aprendizado de idiomas

Ferramenta combina recursos visuais e interação intuitiva para ampliar a acessibilidade no ensino

A dislexia, transtorno de desenvolvimento que afeta, principalmente, o aprendizado da leitura e da escrita, atinge milhões de pessoas em todo o mundo. Segundo a Associação Internacional de Dislexia (IDA), 10% da população mundial convivem com a condição. No Brasil, cerca de 4% da população são disléxicos, representando mais de 8 milhões de pessoas, de acordo com dados do Instituto ABCD.

O transtorno é congênito e impõe desafios no reconhecimento, na decodificação e na escrita de palavras, além de comprometer o tempo de processamento fonológico, que pode prolongar a fala e leitura de textos. A assistência ao aluno disléxico é reconhecida pela Lei Federal nº 14.254/2021, que garante o direito ao suporte integral para estudantes com dislexia, além de determinar a identificação precoce e a intervenção multidisciplinar, focada na saúde e na educação do indivíduo.

A partir da observação das dificuldades e demandas específicas das pessoas com dislexia em sala de aula e do interesse em computação, a professora de Língua Inglesa e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Computação da Universidade Federal Fluminense (PGC/UFF), Luciana Palhanos, idealizou uma ferramenta para facilitar a aprendizagem e o aperfeiçoamento de línguas estrangeiras. 

Assim surgiu Lili (Learning and Improvement for Language with Immersion), protótipo de aplicativo desenvolvido por Luciana em parceria com Rodrigo Oliveira, UX Design e doutorando do PGC/UFF, criado para auxiliar pessoas adultas a aprenderem inglês. O aplicativo foi estruturado na área de Interação Humano-Computador (IHC), que estuda, projeta e avalia a interação de pessoas com os sistemas computacionais, e concebido durante o curso de Projeto de Interface Humano-Computador do PPG em Computação da UFF.

Luciana é orientada pelo professor do Instituto de Computação da UFF, José Viterbo Filho, que estará como palestrante na mesa “O papel das infraestruturas nacionais de Ciência Aberta na construção da soberania científica”, que integra a programação científica da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Para ele, iniciativas como a do aplicativo Lili personificam a socialização dos saberes, benefício inerente à Ciência Aberta. 

“A democratização do conhecimento, tema central da discussão do painel que farei parte na SBPC, ganha rosto e utilidade pública em projetos como o Lili. Quando a infraestrutura científica é aberta e soberana, o conhecimento gerado na pós-graduação se transforma em ferramentas acessíveis como esta, que impactam a vida e o aprendizado de quem mais precisa”, explica Filho.

A 78ª edição da Reunião Anual (RA) da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência acontece na UFF, entre os dias 26 de julho a 1º de agosto. Considerado o maior evento científico da América Latina, a expectativa é que 50 mil pessoas participem das atividades no Campus Gragoatá da UFF, localizado em Niterói.

Interface pensada para diferentes perfis de aprendizagem 

O projeto arquiteta um protótipo que une os conhecimentos em ciência da computação e design para entregar uma experiência fluida e intuitiva ao usuário. Lili têm algumas funções principais, onde o usuário pode escrever, falar, ou fotografar uma palavra e receber a tradução para o português, além de uma imagem, caso a palavra seja um objeto concreto, um áudio com a pronúncia correta e sinônimos e exemplos de aplicação. 

O aplicativo também conta com o recurso da gamificação, em que é possível praticar lições de inglês que geram ranking de pontuação e estímulos de encorajamento para que o usuário continue utilizando realizando tarefas. Em 2023, o projeto recebeu uma menção honrosa no Simpósio Brasileiro sobre Fatores Humanos em Sistemas Computacionais (IHC), na trilha de IHC na prática, considerado o maior evento científico da área de Interação Humano-Computador no país. 

Rodrigo Oliveira, co-criador do protótipo de aplicativo Lili (à esquerda), ao lado da sua orientadora, Prof. Luciana Salgado (PPGC/UFF) e outros colegas no Simpósio Brasileiro sobre Fatores Humanos em Sistemas Computacionais (IHC 2023)

De acordo com Luciana, co-criadora do Lili, a ferramenta foi pensada para suprir uma lacuna importante no ensino de inglês para pessoas com dislexia. “O aplicativo associa palavras a imagens de forma intencional, facilitando a compreensão e a memorização do vocabulário, funcionando como um apoio visual. É um recurso que complementa o trabalho do professor de línguas e, embora tenha sido desenvolvido com foco na dislexia, também pode beneficiar diferentes perfis de estudantes”, explica.

Avaliações orientam melhorias na experiência do usuário 

Segundo Rodrigo, desde o início houve uma preocupação em utilizar títulos e descrições das funcionalidades de forma clara e objetiva. O protótipo passou por uma fase de avaliação, realizada anonimamente por pessoas disléxicas, que contou com quatro etapas: avaliação heurística; percurso cognitivo; first click; e teste de usabilidade. Além dessas fases, os criadores também realizaram entrevistas durante uma imersão dos usuários. 

“Durante os testes, percebemos oportunidades de aprimorar alguns recursos do Lili a partir das contribuições dos próprios usuários. Como as pessoas com dislexia apresentam dificuldades diferentes entre si, buscamos tornar o aplicativo mais flexível e intuitivo. Um dos avanços foi facilitar o acesso à tradução, recurso que se mostrou especialmente útil para atender a essa diversidade de necessidades”, comenta Oliveira. 

Um dos principais diferenciais apresentados por Lili em comparação a outros aplicativos de aprendizagem de idiomas está no tutorial de pronúncia. A funcionalidade inovadora foi acrescentada a partir da sugestão de uma pessoa com dislexia que participou do desenvolvimento do aplicativo. “Quando o usuário não consegue pronunciar corretamente uma palavra após algumas tentativas, a ferramenta oferece um guia em que um falante nativo da língua inglesa apresenta a pronúncia letra por letra, tornando o aprendizado mais acessível e intuitivo”, diz Palhanos. 

No que se refere aos desafios do desenvolvimento, como o aplicativo tem o objetivo de suprir uma lacuna de aprendizado de um público-alvo específico, um dos principais pontos de atenção consistiu na organização clara e intuitiva da interface. “Entendemos que seria importante que cada recurso disponível fosse identificado por um ícone acompanhado de uma breve descrição. Contudo, ao longo das avaliações, notamos a necessidade de tornar alguns textos mais curtos e objetivos para melhor compreensão dos usuários”, explica Oliveira. Dessa forma, os ajustes no protótipo foram orientados tanto por análises baseadas em princípios de design e interação humano-computador quanto pelos testes realizados.

Futuro do Lili

Os próximos passos para a evolução da ferramenta incluem o aprimoramento da gamificação, ainda em estágio inicial no protótipo, a fim de integrar melhor os recursos já disponíveis no aplicativo com apoio de especialistas da área pedagógica. A equipe também busca voluntários para participarem de testes de uso prolongados para aprimorar a usabilidade no aplicativo e assim realizarem a  implementação da versão funcional. 

Apesar de ainda não estar disponível para download, Luciana e Rodrigo trabalham para torná-lo acessível quanto antes. “Nosso maior objetivo é disponibilizar o Lili gratuitamente para que ele chegue a quem realmente precisa. O aplicativo ainda está em fase de desenvolvimento, mas buscamos apoio para concluir essa etapa e colocá-lo à disposição de estudantes com dislexia, ampliando o acesso a uma ferramenta que pode fazer diferença na aprendizagem”, conclui Palhanos. 

Sobre os pesquisadores

Luciana Palhanos é professora e tradutora. Graduada em Letras-Inglês/Literaturas (Inglesa e Norte-Americana) pela UERJ e superior incompleto em Matemática pela UFF. Possui pós-graduação em Desenvolvimento de Aplicações para Dispositivos Móveis (APPs) pela UniBF. Atualmente, faz parte do corpo discente do Programa de Pós-graduação em Computação da UFF (PGC/UFF) como aluna de mestrado. 

Rodrigo Oliveira é doutorando na pós-graduação em Computação da Universidade Federal Fluminense (PGC/UFF). Atua como UX/UI Design, possui mestrado em Informática pela UFRJ, tem dupla formação tanto em Sistemas de Informação (UNIRIO) como Design Gráfico (UNIGRANRIO).

José Viterbo é graduado em Engenharia Elétrica com ênfase em Computação pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, possui Mestrado em Computação pela UFF e doutorado em Informática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atualmente, é Professor Associado no Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense (IC/UFF). Atua no Programa de Pós-Graduação em Computação da UFF (PGC /UFF), onde desenvolve pesquisas na área de inteligência coletiva, governo eletrônico, análise e gestão de dados abertos e computação ubíqua.

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