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UFF Responde: Maio Amarelo e conscientização no trânsito

Em maio, a preservação da vida de pedestres, ciclistas e motoristas ganha ainda mais visibilidade: o movimento Maio Amarelo é uma campanha de conscientização sobre segurança no trânsito e prevenção de acidentes. A iniciativa surgiu depois da Organização Mundial de Saúde (OMS) criar a Primeira Década de Ação pela Segurança no Trânsito, em 2011. Agora, a segunda década busca dar continuidade às medidas educativas sobre o tema num contexto de transformações significativas nas dinâmicas urbanas e de mobilidade.

Durante a pandemia de covid-19, o crescimento de motoboys nas ruas foi expressivo. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o número de trabalhadores em serviços de delivery passou de 25 mil em 2016 para cerca de 322 mil em 2021. Agora, os riscos dos entregadores no trânsito não são apenas as colisões, mas também a exposição contínua à poluição do ar, ruídos intensos e vibrações – fatores que podem trazer prejuízos à saúde a longo prazo, indica a Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (FUNDACENTRO), vinculada ao Ministério do Trabalho.

O balanço de 2024 da Polícia Rodoviária Federal (PRF) aponta uma redução de 33% nos acidentes graves, atribuída ao aumento das fiscalizações e a ações de conscientização. No entanto, a Operação Natal, realizada no período de festas de fim de ano, registrou um aumento de 10% a mais de mortes em um ano. Desde 2014, o Sistema  Único de Saúde (SUS) realizou mais de 2,2 milhões de atendimentos por acidentes no trânsito, de acordo com os dados da Associação Brasileira de Medicina no Tráfego (ABRAMET), sendo os pedestres, ciclistas e motociclistas os grupos mais vulneráveis.

Para ampliar o assunto e compreender mais sobre prevenção de acidentes de trânsito, conversamos com a professora do departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Universidade Federal Fluminense (CME/UFF), Andreia Escudeiro, com experiência em atendimento pré-hospitalar de emergência. 

Trânsito de veículos na ponte Rio-Niterói. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Quais fatores contribuem para os altos índices de acidentes nas grandes cidades?

Andreia Escudeiro: Os acidentes de trânsito nas grandes cidades resultam de uma combinação de fatores humanos, estruturais e sociais. Os fatores humanos que se destacam são excesso de velocidade, condução perigosa, utilização de álcool e outras substâncias, uso de celular. Os fatores estruturais são as ruas com buracos, cruzamentos perigosos, entre outros. Costuma-se dizer que a prevenção do desastre é pautada nos três Es: educação, engenharia e execução de leis.

Com base na sua atuação nos atendimentos de emergência, quais são os acidentes que comumente chegam nos hospitais? 

Andreia Escudeiro: Os acidentes com motociclistas são os mais frequentes e eles têm perfis variados. Em batidas frontais, o motorista costuma ser projetado e tem a tendência a fraturar o fêmur bilateralmente, o que gera risco de hemorragia e, se ele não tiver uma assistência rápida, ele pode chegar a óbito por perda sanguínea. Os acidentes laterais podem resultar em pernas amputadas pelo impacto. Também vemos atropelamentos de pedestres e os com ciclistas. De um modo geral, esses são os piores, porque são acidentes onde o arcabouço humano é a proteção contra o impacto, diferente de um acidente automobilístico, onde tem vários airbags, a carroceria do carro e a cabine. 

Segundo os dados da ABRAMET, 80% das vítimas de acidente são homens jovens. O que pode explicar esse perfil?

Andreia Escudeiro: Isso realmente acontece, geralmente por fatores sociais e psicológicos, além de práticas temerárias. Homens jovens costumam ser mais impulsivos, tendem a dirigir em alta velocidade e combinar bebida e direção. Além disso, é mais comum que os pais emprestem os carros mais aos filhos do que as filhas. É uma questão cultural. 

Quais medidas podem ajudar a reduzir o número de vítimas no trânsito?

Andreia Escudeiro: Eu acho que tem que haver uma mudança cultural. Em casa, desde a educação com as crianças pequenas. Se falarmos apenas dos acidentes com óbito, 50% das vítimas morrem na hora do impacto, então a única coisa que vai minimizar esse tipo de acidente é a prevenção, como a conscientização do Maio Amarelo. Ainda, 30% das pessoas morrem aguardando socorro e os outros 20% chegam até o hospital, mas falecem. É um número muito grande de pessoas que, se não for feita uma prevenção, vão morrer.

As campanhas de conscientização e prevenção têm um impacto real para mudar a percepção da sociedade?

Andreia Escudeiro: Sim, mas eu acho que elas têm que ser mais agressivas e mostrar mais a realidade, como as campanhas nos maços de cigarros. Eu acho que deveria ter uma campanha importante, principalmente, hoje, quando o jovem utiliza mais internet do que televisão, mostrando pessoas amputadas ou em cadeiras de rodas. E, além disso, focar nos três Es: engenharia, educação e a execução da lei. Por exemplo, existe o airbag para moto, um colete que quem usa que fica preso ao volante e, quando a pessoa é projetada, um cilindro de ar comprimido se arma e protege da cabeça ao cóccix. Isso é engenharia. É um material relativamente barato, se você pensar que um garoto de 20 anos pode evitar de ficar tetraplégico. É preciso divulgar esse tipo de coisa, com campanhas educativas, mas também com a execução da lei. O Brasil foi pioneiro em acidente de fratura de antebraço e braço por queda de moto, porque o motociclista colocava o capacete no braço, em vez de usar na cabeça. Eles começaram a ser multados e as motos foram presas, a partir disso o uso do capacete aumentou. A mesma coisa o cinco de segurança: as pessoas sabiam que existiam, sabiam da importância, mas só passaram a usar quando a ausência do cinto de segurança causava uma multa.

Com o crescimento de entregadores e motoboys nas ruas, quais são as situações e riscos que esses grupos mais enfrentam?

Andreia Escudeiro: Nesse caso, os motoboys estão nas mesmas situações que os outros motociclistas. E, infelizmente, a não regularização da profissão, os salários baixos, a falta de compromisso social também são prejudiciais. Por exemplo, quando fazemos um pedido e a entrega demora, logo ligamos para cancelar. Quem sofre a consequência são os motoboys, que recebem um percentual ínfimo por cada entrega e tem que ter muitas corridas para conseguir dinheiro, não podem ficar doentes, devem correr, pegar chuva e buraco, trânsito, mas precisam fazer o delivery em 30, 40 minutos. Nós, os consumidores das plataformas, incentivamos isso, porque as plataformas não querem perder os clientes. 

Campanhas específicas voltadas para motoboys podem funcionar? O que é mais eficaz?

Andreia Escudeiro: Com eles, a questão é um pouco mais séria. Acho que a campanha deveria ser feita com usuários de aplicativos e os empregadores e, além disso, precisam de medidas a nível governamental. Um piso salarial é importante, porque se os motoboys não saírem para trabalhar, eles não recebem nada. Durante a pandemia, tivemos um pico altíssimo de acidentes com entregadores, porque as pessoas estavam em casa, mas eles estavam na rua trabalhando e recebendo pouco por entrega.

Ciclistas são um dos grupos mais vulneráveis no trânsito. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

E em relação aos ciclistas, como podem funcionar as campanhas de conscientização?

Andreia Escudeiro: É preciso haver uma boa política de ciclismo e também temos que pensar na educação de quem pedala. Eu sou ciclista e o meu capacete, por exemplo, é amarelo neon, as pessoas veem de longe. Em Niterói, hoje, existem várias ciclofaixas, mas não tem nenhuma rua transversal que liga a orla às ruas de principal fluxo dos bairros, por exemplo. A sociedade do ciclismo reconhece questões que estão sendo reestruturadas, mas ainda há muito o que melhorar. Precisa haver uma campanha com ciclistas, principalmente sobre a utilização de capacetes, que não é brincadeira. Já presenciei mortes e pessoas com lesões sérias por isso.

Quais são outras ações importantes para preservar a vida de quem está de bicicleta no trânsito?

Andreia Escudeiro: Com certeza o investimento em infraestrutura, com ciclovias protegidas e seguras, cruzamentos bem sinalizados, áreas de coexistência entre os modais, redução do limite de velocidade na área urbana. Também as campanhas de educação, tanto para os ciclistas, quanto para os motoristas de carro, reforçando as regras de convivência no trânsito. Alguns ciclistas percorrem no meio ou cortando os carros, às vezes passam numa velocidade ímpar na ciclovia e, quando o sinal fecha, eles têm que seguir as normas de trânsito, mas isso não acontece. Assim ocorre o atropelamento de pedestres, consequentemente os ciclistas também se machucam. E, claro, a fiscalização é importante. É um somatório de fatores que devem ser trabalhados para melhorar a qualidade de vida do ciclista.

De que maneira o ambiente urbano, com as ruas sem iluminação, sinalização ou esburacadas pode afetar a saúde das pessoas durante os períodos de deslocamento?

Andreia Escudeiro: Essas circunstâncias causam acidentes e é ainda pior a consequência para os veículos mais frágeis. Entre uma picape e uma bicicleta passando em um buraco, a situação é mais grave para o ciclista. As motos, bicicletas ou os próprios carros podem ser danificados e, como consequência, afetar o usuário. Pensamos também em uma pessoa com osteoporose, por exemplo, que, se o amortecedor do veículo não for tão bom, apenas com o impacto do buraco na via ela pode se fraturar. Em relação às ruas escuras, temos que pensar em ver e ser visto. Existe um artigo que apresenta um estudo com várias colorações de roupa e quais são melhores ou piores para serem vistas em um ambiente sem luminosidade. Para as motos e bicicletas, é interessante usar um sinalizador olho de gato, que brilha, ou um colete refletivo. Quando os pedestres andam na rua, os motoristas podem ver uma roupa mais clara, enquanto com a escura, às vezes, eles só vê muito perto e já não dá mais para parar. No geral, nenhum desses fatores devem existir: a rua escura, pela questão do trânsito e pela segurança de todos, as ruas esburacadas e mal sinalizadas.

Os movimentos como Maio Amarelo também influenciam no que diz respeito à segurança das vias?

Andreia Escudeiro: Sim, e outro ponto importante nessas campanhas é o estudo das vias e identificação dos locais com maior número de acidentes. Ali, são instalados os quebra-molas, radares, dispositivos de diminuição de velocidade ou sinalização. Uma situação na prática ocorreu em Copacabana: foi colocado um sinal entre a Avenida Atlântica e a Avenida Princesa Isabel, devido a uma análise da ABRAMET. Nós identificamos um número altíssimo de acidentes ali, realizamos o estudo e encaminhamos para o Detran, sugerindo o sinal de trânsito. Depois desse trabalho em conjunto, o número de incidentes realmente diminuiu significativamente. Eu acho muito interessante o trabalho do Maio Amarelo e ele deve continuar ainda mais agressivo, mostrando para o que veio mesmo.

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Andreia Escudeiroé médica e enfermeira, professora do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da UFF e oficial de saúde do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro. Ela compõe o quadro de participantes da Associação Brasileira de Medicina no Tráfego (ABRAMET) e atua nas áreas de emergência médica, atendimento pré-hospitalar e medicina do tráfego.

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