Notícia

UFF Responde: Transtorno Bipolar

Condição ainda é confundida com “mudança de humor”, alertam as especialistas

O Dia Mundial do Transtorno Bipolar, celebrado em 30 de março, é uma data voltada à ampliação do debate público sobre saúde mental e à redução do estigma associado à condição. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que cerca de 37 milhões de pessoas vivem com transtorno bipolar no mundo e que a condição está entre as principais causas de incapacidade, especialmente quando não tratada adequadamente.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), publicado pela American Psychiatric Association, o transtorno bipolar é caracterizado pela alternância entre episódios de depressão e de mania ou hipomania, com impacto significativo no funcionamento social, ocupacional e afetivo. Apesar disso, ainda há ampla circulação de informações imprecisas nas redes sociais e nos meios de comunicação.

O Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) é frequentemente retratado de forma simplificada no senso comum, ora confundido com “mudanças bruscas de humor”, ora associado a estereótipos de instabilidade e imprevisibilidade. Essa distorção compromete o diagnóstico precoce, dificulta a adesão ao tratamento e reforça práticas discriminatórias conhecidas como psicofobia.

Para esclarecer o que é o Transtorno Afetivo Bipolar, diferenciar a condição de outros transtornos mentais e discutir o impacto da psicofobia, o UFF Responde ouviu as especialistas da Universidade Federal Fluminense (UFF):  Ana Lúcia Novais Carvalho, docente de Psicologia no Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da UFF de Campos, e Valéria De Queiroz Pagnin, docente da Faculdade de Medicina, com atuação em psiquiatria clínica.

O que caracteriza o Transtorno Afetivo Bipolar e como diferenciá-lo de oscilações emocionais consideradas normais?

Valéria Pagnin: O TAB envolve alterações de humor que não se limitam a mudanças pontuais do dia a dia. Trata-se de uma condição caracterizada por episódios de depressão e de elevação do humor, como mania ou hipomania, com impacto direto no funcionamento do indivíduo. Na mania, há aumento de energia, redução da necessidade de sono, aceleração do pensamento e, em alguns casos, sentimentos de grandiosidade. Já na depressão, predominam tristeza persistente, fadiga, perda de interesse e pensamentos negativos. Os episódios têm duração mínima definida de cerca de duas semanas e causam prejuízo significativo. 

Ana Lucia Novais: Diferentemente disso, as oscilações emocionais consideradas normais fazem parte da experiência humana e costumam ser proporcionais aos acontecimentos da vida. Emoções como tristeza ou frustração são esperadas diante de situações adversas e tendem a ser transitórias, sem comprometer de forma global a funcionalidade. A principal diferença está na intensidade, duração e no grau de prejuízo associado aos sintomas, além do caráter recorrente do transtorno bipolar. 

Quais são os tipos de transtorno bipolar e como eles se manifestam?

Valéria Pagnin: O transtorno bipolar tipo I pode ser diagnosticado a partir de um episódio de mania com gravidade suficiente para causar prejuízo, mesmo que não haja episódios prévios de depressão. Já no tipo II, é necessário que o indivíduo tenha apresentado pelo menos um episódio depressivo maior e um episódio de hipomania, que é uma forma mais leve e de menor duração da mania. Muitas vezes percebida como um período de maior energia ou produtividade, o que pode dificultar sua identificação como sintoma. Há ainda outras formas dentro do espectro bipolar, como o transtorno ciclotímico, caracterizado por oscilações mais leves e persistentes que não preenchem todos os critérios diagnósticos, além de quadros associados ao uso de substâncias ou a condições médicas. 

Qual é a diferença entre o transtorno bipolar e a depressão unipolar?

Valéria Pagnin: Na depressão unipolar, o indivíduo apresenta apenas episódios depressivos ao longo da vida. No transtorno bipolar, esses episódios se alternam com períodos de mania ou hipomania. O diagnóstico pode demorar porque, frequentemente, o primeiro episódio identificado é depressivo. Em muitos casos, a mania ou a hipomania surgem anos depois. Além disso, especialmente no tipo II, a hipomania pode não ser reconhecida como um problema, já que pode ser vivida como um período de maior disposição. Esse conjunto de fatores contribui para que muitos pacientes sejam inicialmente diagnosticados com depressão,  o que retarda o reconhecimento do transtorno bipolar.

O transtorno bipolar pode ser confundido com outros transtornos mentais?

Ana Lucia Novais: Sim, especialmente com transtornos de personalidade, como o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Ambos podem envolver instabilidade emocional, impulsividade e alterações de comportamento, o que contribui para a confusão. A principal diferença é que o transtorno bipolar é episódico, com períodos de alteração de humor bem delimitados e fases de remissão. Já no de personalidade, os padrões são mais persistentes e relacionados à forma como a pessoa se percebe e se relaciona ao longo do tempo. Além disso, no TAB há uma alteração mais global de energia e funcionamento durante os episódios, o que não é típico dos transtornos de personalidade.  

Quais são as comorbidades mais frequentes associadas ao transtorno bipolar?

Valéria Pagnin: O transtorno bipolar frequentemente ocorre associado a outras condições, sendo comum a presença de transtornos de ansiedade, como ansiedade generalizada, síndrome do pânico e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Também há associação com o uso de substâncias, como álcool e outras drogas, muitas vezes utilizadas como tentativa de aliviar sintomas. No entanto, esse uso tende a agravar o quadro clínico e dificultar o tratamento.  A presença de comorbidades torna o manejo mais complexo e geralmente dificulta o prognóstico dos pacientes.

Quais são as abordagens terapêuticas e o impacto do tratamento na qualidade de vida?

Valéria Pagnin: O tratamento do transtorno bipolar tem como base a medicação, considerada o principal recurso terapêutico para estabilização do quadro. Existem estratégias específicas para as fases agudas e para a manutenção, com o objetivo de prevenir recaídas. A psicoterapia também desempenha papel importante, especialmente na organização de rotinas e no reconhecimento precoce de sinais de crise. A psicoeducação permite que pacientes e familiares tenham acesso à informações claras sobre transtornos mentais e  identifiquem alterações no sono, na energia e no humor, favorecendo intervenções mais rápidas. Com diagnóstico precoce e adesão ao tratamento, é possível alcançar estabilidade e preservar a qualidade de vida. O transtorno é crônico, mas pode ser manejado ao longo do tempo. 

De que forma a psicofobia afeta pessoas com transtorno bipolar?

Ana Lucia Novais: A psicofobia se manifesta por meio de estigmatização, preconceito e discriminação de pessoas diagnosticadas doenças mentais. Ela pode ocorrer em nível interpessoal, institucional ou até internalizado pelo próprio indivíduo. Pessoas com transtorno bipolar podem ser rotuladas como instáveis ou incapazes, além de terem seu sofrimento minimizado. Esse processo pode prejudicar relações familiares, limitar oportunidades acadêmicas e profissionais e dificultar a busca por tratamento. A invalidação dos sintomas contribui para o atraso no diagnóstico e para a baixa adesão ao cuidado. Por outro lado, iniciativas como a psicoeducação, o envolvimento da família e a construção de ambientes institucionais mais inclusivos são fundamentais para reduzir esses impactos. 

Quais são os mitos mais comuns sobre o transtorno bipolar?

Ana Lucia Novais: Um dos principais mitos é a ideia de que a pessoa com transtorno bipolar muda de humor rapidamente ao longo do dia. Na prática, os episódios são mais duradouros e envolvem um conjunto de alterações que afetam sono, energia, comportamento e pensamento. 

Outro equívoco é considerar a mania ou a hipomania como estados positivos. Embora possam envolver aumento de energia, frequentemente resultam em impulsividade, irritabilidade e prejuízos nas relações e na vida cotidiana. Também é comum a crença de que a medicação altera negativamente a personalidade. Na realidade, o tratamento tem função estabilizadora e protetora, ajudando a prevenir crises e seus impactos. Por fim, o fato de uma pessoa estar estável não significa ausência do transtorno, mas sim que o tratamento é eficaz. 

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Ana Lúcia Novais Carvalho é Psicóloga pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ (1994), especialização em neurobiologia pela UFF (1996), especialização em psicoterapia cognitivo-comportamental pela UNESA (1998), mestrado (2001) e doutorado (2009) em Biologia (Biociências Nucleares) pela UERJ. É Professora do curso de Psicologia da UFF/ESR Campos dos Goytacazes. Foi sub-chefe do Departamento de Psicologia no período de 2019 a 2021. Tem experiência na prática psicológica, atuando principalmente nos seguintes temas: neuropsicologia, neurociências, transtornos do desenvolvimento, psicoterapia cognitivo-comportamental, psicologia geral e experimental. É Terapeuta Cognitivo-Comportamental certificada pela FBTC (2017). 

Valéria de Queiroz Pagnin é Médica pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1992), mestrado em Psiquiatria e Saúde Mental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1997) e doutorado em Neurobiologia e clinica dei disturbi affettivi – Università Degli Studi di Pisa (2005). Atualmente é Professora Associada da Universidade Federal Fluminense.

 

Por Fernanda Nunes
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