
Professora e pesquisadora Bruna Pinto Martins Brito
A maternidade no ambiente acadêmico será uma das temáticas abordadas na programação científica da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sediada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), entre 26 de julho e 1º de agosto. O conceito ganha destaque no maior evento científico da América Latina com a mesa-redonda “Maternidade como marcador social da diferença na trajetória profissional das cientistas brasileiras”, coordenada pela professora e pesquisadora do Departamento de Psicologia da UFF em Campos dos Goytacazes, Bruna Pinto Martins Brito.
A mesa compõe as atividades propostas pela comissão de Gênero, Diversidade e Equidade e contará com a participação das pesquisadoras Fernanda Staniscuaski, Tatiane dos Santos Duarte, Alana Karoline Fontenelle Valente e Lilian Angélica da Silva Souza. O encontro irá discutir a maternidade enquanto processo de diferenciação na carreira de cientistas homens e mulheres por meio de questões como: sobrecarga mental em mulheres; invisibilidade do trabalho reprodutivo e de cuidado; patriarcado; e lógica produtivista na academia.
Pesquisadora da temática de gênero e saúde mental, Brito ingressou em 2020 no Grupo de Trabalho Mulheres na Ciência, que desde 2022 tornou-se a Comissão Permanente de Equidade de Gênero (CPEG) da UFF. A docente também coordena a ação extensionista “Mães na Rede: Atenção, Cuidado e Redes de Apoio a mães em sofrimento”, projeto que oferece rodas de conversa em espaços públicos na cidade de Campos dos Goytacazes (RJ). Nesta edição , a docente fala sobre a importância de a universidade e as demais instituições oferecerem condições para o ingresso e permanência das mães na produção científica.
Por que é importante compreender a maternidade como uma questão política e estrutural na universidade?
Bruna: Pensando que a universidade não está descolada do social, e que a maternidade extrapola a esfera particular e ocupa o espaço público, conseguimos compreender que ela reproduz tudo aquilo que está num cenário social mais amplo, marcado pelo produtivismo do sistema capitalista e pela invisibilidade do trabalho reprodutivo e de cuidado. Trabalho esse que não é remunerado. Dessa forma, pensar politicamente a maternidade dentro do ambiente acadêmico é, também, avançar em direção a uma mudança cultural, permitindo que a maternidade seja vista enquanto um trabalho, não pela ótica do produtivismo, mas como uma função que garante a manutenção da vida e que, inclusive, sustenta o trabalho produtivo.
De que maneira o sistema capitalista e patriarcal impacta na trajetória das mães pesquisadoras?
Bruna: Em um sistema sustentado pela exploração da força de trabalho aliado à socialização feminina que, até hoje, impõe a maternidade, a carreira das mulheres na ciência é diretamente influenciada pela lógica produtivista e pela invisibilização do trabalho de cuidado. Como esperar que mães cientistas, especialmente com filhos pequenos ou com deficiência, tenham as mesmas condições de produzir, com a excelência que se espera de uma pesquisadora, ao mesmo tempo que se dedicam ao trabalho materno? A sobrecarga mental enfrentada pelas mães, principais cuidadoras das crianças, é muito maior do que a de um pai. A conta não fecha. O que vemos, muitas vezes, são mulheres que trabalham como se não tivessem filhos, sem nem tirar licença pós-maternidade, abrindo mão desse direito, com medo de sofrerem alguma retaliação em uma tentativa desigual de competir com pesquisadores. Um homem não tem que recuperar nada após a paternidade, da mesma forma que ele não pesquisa mais que uma mulher, ele apenas tem mais condição de pesquisar.
Como a invisibilidade do trabalho de cuidado e do trabalho de reprodução afeta a saúde mental das mulheres, especialmente, das mães cientistas?
Bruna: A cultura patriarcal ainda associa ao sexo feminino uma “disposição natural” para o cuidado, enquanto a divisão social do trabalho faz com que as mulheres acumulem as responsabilidades domésticas e profissionais, intensificando seu esgotamento físico e emocional. Na pandemia, isso ficou muito evidente, e tiveram muitos casos de mulheres extremamente sobrecarregadas. Também precisamos pensar o quanto a saúde do seu filho também afeta a sua saúde mental. Em casos de doenças, é a mãe que desmarca os compromissos, sejam profissionais ou pessoais. E, pensando nas mães cientistas, a invisibilidade do trabalho de cuidado passa a comprometer sua própria saúde mental na medida em que as instituições não entendem que aquela mulher não está nas mesmas condições de mulheres sem filhos ou homens. Nesses casos, a solução é retirar sua carga horária de pesquisa e extensão, interrompendo seu viés de pesquisadora. Ou seja, para as mulheres, a tripla jornada é acompanhada pelo desgaste psíquico e comprometimento do seu trabalho.

Atividades do grupo “Mães na Rede” na Semana de Ciência e Tecnologia de Campos dos Goytacazes em 2023 (Jardim São Benedito/ Campos dos Goytacazes)
Qual é a sua percepção sobre os editais de fomento à pesquisa destinados a mães cientistas?
Bruna: Apesar da importância de editais específicos para garantir a permanência de pesquisadoras que são mães no ambiente acadêmico, é preciso que haja recortes que considerem o momento profissional que cada uma delas está, principalmente quando pensamos em crianças pequenas, que têm uma exigência maior de trabalho. Ainda faltam incentivos reais que deem conta da pluralidade do que é ser uma mãe pesquisadora. Mas não dá para começar de cima. É preciso entender as próprias desigualdades entre as mães pesquisadoras. Na UFF, uma das conquistas da CPEG foi a atribuição de uma pontuação extra para as mães nos editais. Então, essa pode ser uma alternativa: incluir ponto extra para as mães com crianças pequenas, a fim de que elas consigam uma pontuação mais equiparável para concorrer às bolsas. Também considero importante implementar essas medidas nos editais de iniciação científica, como forma de incentivar quem está iniciando seu processo de formação.
Como os critérios atuais de avaliação acadêmica podem acabar aprofundando desigualdades entre homens e mulheres na ciência?
Bruna: Quando se iniciou a discussão da maternidade enquanto trabalho, o debate ficava muito nos termos sociológicos e pouco dentro da universidade, especialmente em como o tema afetava as mulheres dessas instituições. Atualmente, entendemos que há uma iniquidade de gênero. Principalmente quando pensamos na maternidade como marcador social da diferença, materializado pelo efeito tesoura de gênero. No caso das mulheres, é muito comum que elas passem por um período de estacionamento da carreira durante os primeiros anos dos filhos. Ao mesmo tempo, mesmo os homens pais de crianças muito pequenas continuam produzindo como se não tivessem filhos. Dados de 2022 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mostraram que dos 20,9 mil bolsistas, 65% eram homens e 35% mulheres. Já no nível 1A, o mais alto, a discrepância de gênero é ainda maior, e 73% era representado por pessoas do sexo masculino, enquanto apenas 27% eram mulheres. Eu acho que os dados falam por si só. Por que será que tem poucas mulheres no nível A1? Os dados que revelam a desigualdade de gênero em bolsas de pesquisa não mostram a relação entre pesquisadores que exercem a maternidade e paternidade, fatores que considero essenciais para escancarar a desigualdade do trabalho de cuidado.

Bruna e a bolsista Aguitha Vasconcelos na apresentação do projeto no “Mães na Rede” no Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica (CONFICT) em 2024
Como driblar a lógica produtivista dentro da academia?
Bruna: Apesar de considerar a produção importante, acredito que é preciso problematizar a lógica produtivista adotada pelas universidades, muitas vezes alinhada às exigências do capital e da manutenção de status acadêmico. Também acho fundamental discutir como parte da produção de pesquisadores homens é sustentada pelo trabalho invisibilizado de mulheres, tanto no cuidado com os filhos quanto no suporte acadêmico realizado por bolsistas de iniciação científica e pós-graduandas. Além disso, acho que as instituições deveriam valorizar mais outras formas de circulação do conhecimento para além das publicações científicas, como as ações extensionistas, que ampliam o diálogo entre universidade e sociedade e dialogam com diferentes formas de saber. A produção científica é fundamental, mas ela não pode acontecer às custas do adoecimento de quem pesquisa.
Como você avalia a inserção dessas temáticas na programação da SBPC?
Bruna: Vejo com muita alegria a inclusão dessas discussões na programação da SBPC. Há alguns anos, seria impensável debater gênero e maternidade dentro de um evento científico desse porte. Considero que esse encontro será um passo importante para refletirmos sobre a realidade das pesquisadoras no Brasil, embora ainda seja insuficiente diante do que precisamos avançar. Espero que as pautas que serão discutidas resultem em mudanças concretas, como alterações nos editais, revisão da lógica produtivista, combate ao assédio nas universidades e no fortalecimento dos coletivos de mães. Também acredito que a ampliação do espaço para pesquisadoras mães fortalece e diversifica a produção científica. Vi essa mudança na prática desde que iniciei meu projeto de extensão sobre maternidade, em 2020. Em cinco anos, já orientamos mais de 20 trabalhos de conclusão de curso sobre o tema, mostrando o impacto direto dessa abertura.
Qual é a sua expectativa para a mesa-redonda?
Bruna: Espero que este espaço seja um local seguro para que as mulheres possam discutir e expressar, livremente, os desafios enfrentados pelas mães pesquisadoras, desde as discentes até as docentes, e que possamos transformar essa discussão em propostas concretas de mudanças estruturais nas universidades, como melhores condições de permanência e mais ações de apoio às mães na pesquisa. Além disso, desejo que o debate incentive a comunidade científica a tratar esse tema como uma questão coletiva, e não individual, e que essa discussão ganhe espaço dentro da SBPC como um tema central para a ciência brasileira, com mais respeito, visibilidade e compromisso com a redução das desigualdades de gênero.
Aberta ao público e com participação gratuita, a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência acontece no Campus Gragoatá da UFF, em São Domingos. A programação contará com conferências, mesas-redondas, minicursos, exposições, atividades culturais e palestras voltadas tanto para estudantes do ensino básico quanto para discentes e docentes da universidade. As informações sobre o evento podem ser acompanhadas no site oficial da SBPC e no perfil do instagram.
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Bruna Pinto Martins Brito é professora associada do curso de Psicologia de Campos dos Goytacazes da UFF. Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2004), mestrado e doutorado em Psicologia pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em tratamento e prevenção psicológica, tratamento analítico, saúde mental e maternidade.
Por Vivian Abreu