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UFF Responde: Hipertensão

O que é, riscos e como prevenir a doença silenciosa

A hipertensão arterial é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares no mundo e segue como um desafio relevante para a saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1,28 bilhão de adultos vivem com hipertensão globalmente, e quase metade não sabe que tem a doença. A condição está diretamente associada a eventos graves como infarto e acidente vascular cerebral (AVC), sendo responsável por uma parcela significativa das mortes evitáveis. No Brasil, o impacto também é expressivo. Dados do Ministério da Saúde indicam que as doenças cardiovasculares permanecem como a principal causa de morte no país, com a hipertensão entre os principais fatores associados. 

No contexto do Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão, celebrado em 26 de abril, participa desta edição do UFF Responde o cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), Ronaldo Curi Gismondi, que atua diretamente no cuidado a pacientes com doenças cardiovasculares no Ambulatório de Hipertensos Resistentes desenvolvido no âmbito do Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP). O especialista explica como identificar, prevenir e controlar a doença:

O que é a hipertensão arterial e o que acontece no organismo quando a pressão se mantém elevada?

Ronaldo Gismondi: A hipertensão arterial é a elevação sustentada da pressão do sangue nas artérias em níveis que aumentam o risco de lesão de órgãos ao longo do tempo. Em termos práticos, consideramos hipertensão quando há medidas repetidas acima de 140 por 90 mmHg, embora em alguns grupos de maior risco, como pessoas sedentárias, obesas, com alto consumo de sal ou com histórico familiar da doença, já se considere a partir de 130 por 80. Quando essa pressão se mantém elevada de forma crônica, ocorre um processo de agressão contínua à parede dos vasos, com disfunção endotelial, aumento da rigidez arterial e sobrecarga de órgãos como coração, rins e cérebro. Isso favorece o desenvolvimento de lesões de órgãos-alvo e eventos cardiovasculares.

Por que a hipertensão é considerada uma doença silenciosa?

Ronaldo: Porque, na maioria dos casos, ela não provoca sintomas nas fases iniciais. A pessoa pode ter níveis elevados de pressão por anos sem qualquer manifestação clínica evidente, enquanto o processo de dano vascular e orgânico já está em curso. Eventualmente, alguns pacientes podem relatar sintomas inespecíficos, como dor de cabeça ou mal-estar, mas isso não é a regra. Por isso, o diagnóstico depende da medição ativa e não da presença de sintomas.

Quem está mais em risco hoje?

Ronaldo: O risco aumenta com a idade, mas está fortemente associado a fatores como obesidade, sedentarismo, estresse crônico, diabetes e dislipidemia. Há também um componente genético importante. Homens tendem a apresentar maior risco em faixas etárias mais jovens, enquanto nas mulheres esse risco se aproxima após a menopausa. O acúmulo de fatores de risco cardiovasculares potencializa o desenvolvimento e a gravidade da hipertensão.

Como é feito o diagnóstico e por que medir a pressão regularmente é tão importante?

Ronaldo: O diagnóstico é feito por meio da aferição da pressão arterial em diferentes momentos, porque ela varia ao longo do dia e pode sofrer influência de fatores transitórios, como esforço físico ou estresse. É necessário confirmar que a elevação é persistente. A medição pode ser feita em unidades de saúde ou em casa, com aparelhos automáticos validados, preferencialmente de braço. Medir regularmente permite identificar precocemente a doença e acompanhar a eficácia do tratamento.

Ao receber o diagnóstico, quais são as primeiras mudanças práticas?

Ronaldo: A primeira abordagem é baseada em medidas não farmacológicas. Isso inclui reduzir o consumo de sal, melhorar a qualidade da alimentação, aumentar a prática de atividade física, controlar o peso, melhorar o padrão de sono e reduzir o estresse. Também orientamos a redução do consumo de álcool. Essas intervenções atuam em diferentes mecanismos fisiológicos envolvidos no controle da pressão

Na prática, o que significa reduzir o sal e melhorar a alimentação?

Ronaldo: Significa diminuir a ingestão de sódio, que está presente não apenas no sal de cozinha, mas principalmente em alimentos industrializados e ultraprocessados. Ao mesmo tempo, é importante aumentar o consumo de alimentos in natura, especialmente vegetais, que contribuem para o equilíbrio metabólico e cardiovascular. Não se trata apenas de retirar o sal visível, mas de modificar o padrão alimentar como um todo.

Pesquisa da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) descobriu que um maior consumo de alimentos ultraprocessados ​​está associado a um risco aumentado de câncer e multimorbidade cardiometabólica. Foto: Freepik

Como incluir atividade física na rotina pode ajudar a controlar a hipertensão?

Ronaldo: A atividade física regular melhora a função vascular, reduz a resistência periférica e contribui para o controle do peso e do metabolismo. A recomendação geral é de pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica, distribuídos ao longo da semana. Não adianta concentrar todo o esforço em um único dia. A regularidade é o fator mais importante.

Quando o uso de medicamentos se torna necessário?

Ronaldo: Quando as medidas não farmacológicas não são suficientes para controlar a pressão ou quando o paciente já apresenta risco cardiovascular elevado. Utilizamos classes de medicamentos que atuam em diferentes mecanismos, como o sistema renina-angiotensina, os diuréticos e os bloqueadores de canal de cálcio. Em muitos casos, é necessário combinar mais de um medicamento para atingir o controle adequado.

Quais os principais riscos da hipertensão não controlada?

Ronaldo: Os principais são o acidente vascular cerebral (AVC), o infarto do miocárdio e a doença renal crônica. Além disso, a hipertensão pode causar arritmias, como a fibrilação atrial, alterações na retina com prejuízo da visão e comprometimento progressivo de outros órgãos. Trata-se de uma condição sistêmica com múltiplas repercussões.

Quais são os erros mais comuns no controle da hipertensão? Qual o principal conselho para a população?

Ronaldo: O principal erro é a falta de adesão ao tratamento. Isso inclui não seguir a dieta, não praticar atividade física regularmente e não usar a medicação conforme prescrito. Em uma avaliação realizada no ambulatório, observamos que cerca de 80% dos pacientes falham em algum desses pontos. Hoje, o maior desafio não é o acesso ao tratamento, mas a manutenção das mudanças necessárias no dia a dia. O principal conselho é simples: medir a pressão regularmente, seguir as orientações e entender que o controle da hipertensão depende de um cuidado contínuo.

Atendimento multiprofissional no HUAP-UFF amplia cuidado em casos de hipertensão mais grave

No Hospital Universitário Antônio Pedro, o acompanhamento de pacientes com hipertensão mais complexa é realizado por meio de um ambulatório multiprofissional, liderado pelos professores da Faculdade de Medicina, Ronaldo Curi Gismondi; da Escola de Enfermagem, Dayse Mary da Silva Correia; e da Faculdade de Nutrição Grazielle Vilas Bôas Huguenin, que integram as três áreas da saúde no mesmo fluxo de atendimento.

Do ponto de vista médico, Gismondi explica que o foco do ambulatório está nos casos mais graves, como a hipertensão resistente. “São pacientes que utilizam três ou mais medicamentos e ainda assim mantêm níveis elevados de pressão. Isso aumenta significativamente o risco de lesão de órgãos e eventos cardiovasculares.”

Foto: Freepik

Um dos diferenciais do serviço é a organização do atendimento. As consultas com diferentes profissionais são realizadas no mesmo dia, no mesmo espaço, o que reduz a fragmentação do cuidado e facilita o acompanhamento. “Isso melhora a adesão e respeita o tempo do paciente, que não precisa retornar várias vezes ao hospital para diferentes atendimentos”, complementa Correia.

Ela destaca que o modelo do ambulatório surgiu a partir da necessidade de ampliar o cuidado para além da consulta médica. “A hipertensão não é apenas uma doença tratada com medicamento. Ela exige acompanhamento contínuo e atuação de diferentes áreas para melhorar a adesão do paciente e o controle da doença.”

Segundo a enfermeira, o ambulatório recebe pacientes tanto por encaminhamento interno quanto pela rede básica e metropolitana. “São pacientes de diferentes perfis e idades, que chegam já com maior complexidade clínica e precisam de um cuidado mais estruturado.”

Huguenin explica que a atuação da nutrição combina estratégias coletivas e individuais. “Realizamos atividades em grupo, como salas de espera com temas mensais sobre alimentação e controle da pressão. Quando necessário, fazemos atendimento individual, principalmente em pacientes com comorbidades como obesidade, diabetes e dislipidemia.”

A nutricionista ressalta que o acompanhamento contínuo permite reforçar o aprendizado ao longo do tempo. “Muitos pacientes participam de diferentes encontros e conseguem consolidar melhor as mudanças alimentares.”

Além da assistência, o ambulatório também integra ensino, pesquisa e extensão. As equipes desenvolvem estratégias como telemonitoramento, intervenções educativas e estudos sobre adesão ao tratamento, ampliando o impacto do serviço tanto na formação acadêmica quanto na qualificação do cuidado em saúde pública.

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Ronaldo Altenburg Odebrecht Curi Gismondi é professor de Clínica Médica da Universidade Federal Fluminense. Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (2002), residência médica em Clínica Médica (UFRJ) e Cardiologia (Insitituto Nacional de Cardiologia), Mestrado em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2009) e Doutorado em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2015). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Cardiologia e Clínica Médica.

Dayse Mary da Silva Correia é Doutora em Ciências Cardiovasculares pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (2014), com período sanduíche na York University/Canada (2013). Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Graduada e Licenciada em Enfermagem pela Universidade Gama Filho. Possui Residência em Enfermagem no Programa de Cirurgia Cardiovascular pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro ; e Especialização em Administração Hospitalar pela Universidade Grande Rio. Com Aperfeiçoamento na University of Miami Hospital, nos Estados Unidos ; na Clinical Observation Heart Function Clinic, e Faculties of Nursing and Pre-Health Sciences, no Canadá. No atendimento hospitalar, possui experiência em Administração (gerente de enfermagem , coordenadora de unidade e na educação permanente); e na Assistência, em unidades de atendimento intensivo e cardiológico. Na Universidade Federal Fluminense (UFF) é Docente da Graduação no Departamento de Fundamentos de Enfermagem e Administração; e Docente de Doutorado e Mestrado na Pós-Graduação do Programa Acadêmico em Ciências do Cuidado em Saúde (PACCS); Membro Titular do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina (2015-2020); Colaboradora do Projeto de Extensão ”Abordagem Multidisciplinar ao Hipertenso Resistente” no hospital universário da UFF; Pesquisadora e Líder do Espaço LAPEEI_Sc ( Laboratório de Pesquisa, Ensino, Extensão e Inovação em Saúde Cardiometabólica ) e do GEpHAS_UFF (Grupo de Enfermagem e Pesquisa em Hipertensão Arterial Sistêmica da Universidade Federal Fluminense, CNPq. Atua no Ensino ,Pesquisa e Extensão, nos seguintes temas: fundamentos de enfermagem, tecnologia educacional, simulação realística, doenças cardiovasculares, insuficiência cardíaca, hipertensão arterial sistêmica, hipertensão resistente, saúde cardiometabólica, consulta de enfermagem especializada de hipertensão arterial; saúde cardiovascular; promoção da saúde; e prevenção cardiovascular.

Grazielle Vilas Bôas Huguenin é nutricionista pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2006), Especialização em Nutrição Clínica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2008) e Mestrado em Alimentação, Nutrição e Saúde pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2010) e Doutorado em Ciências na Universidade Federal do Rio de Janeiro (2014). Realizou Estágio Sanduíche na Universidade de Newcastle (UK) sob orientação do Prof. John Hesketh. Atualmente é Professora Adjunta do Departamento de Nutrição e Dietética da Universidade Federal Fluminense (UFF), Docente permanente do Mestrado Profissional em Ciências Cardiovasculares do Instituto Nacional de Cardiologia (RJ), Colaboradora da Pós-Graduação em Ciências Cardiovasculares da UFF, e da Pós-Graduação em Ciências da Nutrição (UFF). Atua nos seguintes temas: doenças cardiovasculares, fatores de risco cardiovascular, alterações cardiometabólicas, alimentos funcionais, fitoterapia, função endotelial, estresse oxidativo, genômica nutricional e doenças inflamatórias intestinais.

 

Por Fernanda Nunes

 

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