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Liga Acadêmica da UFF desconstrói capacitismo de forma lúdica e acessível

O projeto contribui na inclusão e construção de cuidado em saúde para a pessoa com deficiência através de oficinas interprofissionais com jogos adaptados e seminários abertos

No dia 21 de setembro é celebrado o Dia de Luta da Pessoa com Deficiência (PcD), data escolhida às vésperas da primavera para simbolizar o florescer da igualdade e dos direitos das PcDs. Na Universidade Federal Fluminense (UFF), a Liga Acadêmica de Saúde e Inclusão da Pessoa com Deficiência (LISIPD) promove a integração, a convivência social e a construção de cuidado em saúde para as pessoas com deficiência por meio de seminários e oficinas interprofissionais. O grupo é pioneiro no estado do Rio de Janeiro entre as ligas acadêmicas dedicadas ao tema.

As ligas acadêmicas são organizações formadas por estudantes com o objetivo de aprofundar os estudos em uma área específica através de atividades extracurriculares. Assim como a universidade, a associação funciona baseada no tripé: ensino, pesquisa e extensão. Embora a LISIPD tenha sido idealizada por alunos do curso de Medicina, a organização foi concebida para ser interprofissional, abrangendo outras áreas relacionadas à saúde, devido à necessidade do cuidado profissional adequado às PcD.

“O que mais os motivaram foi perceberem que apenas a turma deles havia tido acesso a um conteúdo tão aprofundado e relevante sobre a saúde e o cuidado da pessoa com deficiência na grade acadêmica. Para os estudantes, aquilo era extremamente importante e precisava ser levado para mais pessoas”, comenta a professora do Instituto de Saúde Coletiva (ISC-UFF) e coordenadora do projeto, Magda de Souza Chagas.“A proposta central é que diferentes cursos conversem, pensem e construam as atividades de forma conjunta. A nossa grande aposta é que essas pessoas em formação, ao exercitarem a prática interprofissional durante a graduação, naturalizem o comportamento ao ingressarem no mercado de trabalho”, complementa. 

A LISIPD é composta por 35 membros, dos cursos de Biomedicina, Enfermagem, Farmácia, Medicina, Nutrição, Odontologia e Psicologia da UFF e Terapia Ocupacional da ISAFAC. Foto: Imagem de Arquivo/LISIPD

No Censo Demográfico de 2022, publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil registrou que cerca de 14,4 milhões de pessoas com dois ou mais anos de idade no país eram portadoras de algum grau de deficiência. No estado do Rio de Janeiro, por volta de 7,4% da população se enquadrou nesta categoria, ocupando a décima colocação no ranking nacional. 

Brincando e Incluindo

O principal objetivo da LISIPD são as atividades voltadas para o público externo – em especial as ações realizadas semestralmente em algumas escolas do Ensino Fundamental de Niterói. Durante as atividades nas escolas, a equipe realiza uma oficina itinerante em conjunto com uma feira integrada com diversos objetos que fazem parte do cotidiano da pessoa com deficiência, como cadeira de rodas, próteses, cordões de identificação visual (utilizado por pessoas com transtorno do espectro autista e/ou deficiências ocultas ) e muletas. 

“O objetivo nas escolas é naturalizar a presença dos dispositivos na infância. Acreditamos que, se a criança compreender o funcionamento dessas tecnologias assistivas e perceber que um brinquedo comum pode ser adaptado para um colega com deficiência, ela crescerá sem preconceitos ou estranheza. Desse modo, conseguimos construir uma sociedade mais empática e inclusiva”, aponta a coordenadora do projeto.

Com o tema “Vivenciando a Inclusão”, a principal oficina transporta as crianças por quatro estações temáticas com jogos adaptados para diferentes deficiências. Foto: Imagem de Arquivo/LISIPD

Em 2026, a Liga levou pela primeira vez a aula prática a uma escola do Ensino Infantil e a curiosidade e a espontaneidade em falar sobre os objetos surpreendeu a vice-presidente da LISIPD e estudante do oitavo período de Enfermagem, Julia Pereira Alves: “Na escola, as crianças, do jeitinho delas, compartilharam vivências reais do tipo ‘meu avô usa prótese’, ou ‘eu já vi uma pessoa usando cadeira de rodas’. Dessa maneira, elas vão compreendendo e absorvendo o conteúdo de forma muito natural”.

Em relação ao uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras), a Liga conta com a  Estação de Libras, onde os pequenos aprendem através de jogos didáticos, como o “Libras em Memória” e “Conhecer e Usar Libras”, sobre a língua brasileira de sinais e a sua história. Na Estação de Braille, as crianças aprendem o alfabeto e os números conforme o sistema, além de entrarem em contato com uma reglete (dispositivo usado na escrita em braille).

Durante uma das atividades realizadas, um jovem rapaz com deficiência visual chamou a atenção de todos os integrantes. O menino com deficiência desde o nascimento, devido a intercorrências no tratamento neonatal, é apaixonado por futebol e tem como sonho ser treinador de um time um dia. Ele disse que não conseguia jogar futebol no colégio com seus colegas porque nenhuma criança aceitava jogar utilizando a bola de guizo – bola utilizada no futebol de cinco, que possui pequenos chocalhos internos para que a pessoa com deficiência visual a localize através do som. “Para as crianças que enxergam, não fazia diferença jogar com ela, pois era apenas uma bola com barulho, mas havia uma resistência e essa resistência precisa ser trabalhada”, comenta Chagas.

Um aluno integrante da Liga então elaborou uma oficina com as crianças na qual elas vendadas teriam que cobrar um pênalti – guiando-se apenas pelo som – contra um goleiro que estaria enxergando normalmente. “Essa dinâmica fez total sentido para as crianças e para nós, tocando fundo na empatia e na sensibilização real de todos os envolvidos”, adiciona a coordenadora.

Um ligante da Liga fica responsável por sinalizar onde está o gol fazendo barulho na trave enquanto o outro orienta o batedor em que local está a bola. Foto: Imagem de arquivo/LISIPD

Para se aprofundar em temas ligados ao direito da pessoa com deficiência, a Estação da Inclusão permite que a garota utilize jogos clássicos adaptados, como o “Cara a Cara Paralímpico” e o “Jogo dos Pares”, para relacionar símbolos, objetos e atitudes à PCD. A Estação da Acessibilidade apresenta mais alguns brinquedos adaptados ressaltando que as brincadeiras podem ser adequadas para caber mais gente. No começo, a LISIPD contava com quatro jogos adaptados,hoje o número saltou para a casa dos dez.

“Ao adaptarmos a nossa mensagem para o lado lúdico, conseguimos que a sensibilização e a conscientização sobre a inclusão chegue às crianças de forma mais suave, acolhedora e efetiva. Por meio das brincadeiras e das dinâmicas de experimentação prática, as crianças conseguem, do jeito delas, entender como funciona a rotina e qual é a perspectiva real de uma pessoa que possui alguma deficiência. Com isso, conseguimos estimular a empatia ativa desde muito cedo”, aponta a vice-presidente da Liga.

As outras duas estações da oficina são a de Experimentação, onde as crianças interagem com tecnologias assistivas, como cadeiras de rodas e muletas, e a de Inclusão e Neurodivergência, composta por um mural explicativo que aborda as neurodivergências e a utilidade dos cordões de identificação.

Das escolas aos eventos acadêmicos

Além das oficinas dentro dos colégios, outro foco da LISIPD é a participação em eventos e congressos acadêmicos. Em julho deste ano, a UFF foi palco do maior encontro científico da América Latina, a 78ª Reunião Anual da Sociedade para o Progresso da Ciência (SBPC), e a Liga marcou presença no evento com uma versão compacta de suas oficinas. A participação na SBPC foi uma oportunidade para o estreitamento de conexões com outras instituições federais, além de ter funcionado como uma vitrine para divulgar as iniciativas e buscar apoios.

“Esse tipo de retorno nos enche de entusiasmo e vontade de expandir as nossas fronteiras, mas infelizmente enfrentamos limitações logísticas. Atualmente, o transporte de materiais pesados e deslocamento de equipe para outros municípios exige um suporte financeiro que ainda não dispomos. Por isso, temos que escolher com cuidado a quantidade de saídas que faremos no semestre para não sobrecarregar as finanças dos alunos ou a nossa logística”, comenta a professora Magda Chagas.

Equipe durante realização da 78ª Reunião Anual da SBPC. Foto: Imagem de Arquivo/LISIPD

Atualmente, a LISIPD possui uma sólida parceria com a Associação Fluminense de Reabilitação (AFR), que fornece empréstimo de próteses, cadeiras de rodas, muletas, além de outros insumos para a realização das oficinas semestrais nos colégios. De acordo com a coordenadora, o objetivo para o futuro é transformar a parceria com a AFR em um campo de estágio oficial para os membros da Liga, devido à oportunidade de aprendizado para os alunos em formação.

A Liga também está em vias de formalizar uma parceria com o coletivo Frente Rara de Niterói (FRANIT), um coletivo de entidades formada por portadores de doenças raras que lutam por direitos e conscientização das doenças raras. Para Chagas, a parceria com diferentes esferas e modos de organização ajuda os membros da LISIPD a ampliarem seu horizonte de aprendizado interprofissional.

Olhando para a universidade e ampliando vozes

Os membros ligantes também realizam aulas e seminários regulares sobre temas que sentem falta nas grades curriculares e disponibilizam o conteúdo para o público externo, como as aulas abertas sobre a Esclerose Múltipla, Doenças raras e Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em abril deste ano, a LISIPD lançou a cartilha digital “Inclusão na Prática: Direitos, vivências e auxílios da pessoa com deficiência no Ensino Superior”, um guia com os benefícios, direitos, questões de acessibilidade e relatos de pessoas com deficiência na UFF, idealizada pelo presidente da Liga, Márcio Guilherme Figallo de Lima. O e-book surgiu do projeto de extensão “Atualiza UFF”, focado na análise da acessibilidade no ambiente universitário, com atuação presencial nos campi de Niterói e atuação online, por meio de postagens regulares no Instagram da Liga.

As postagens se dividem entre depoimentos de estudantes e visitas nos espaços acadêmicos. Foto: Instagram/LISIPD

Atualmente, a Liga Acadêmica de Saúde e Inclusão da Pessoa com Deficiência é formada por 35 membros e o processo para a seleção de novos integrantes ocorre anualmente por uma rodada de entrevista com a presidência e a realização de um simpósio aberto ao público.

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Magda de Souza Chagas é Professora Adjunta da Universidade Federal Fluminense no Instituto de Saúde Coletiva, Departamento de Saúde e Sociedade (UFF/ISC/MSS). Doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com bolsa CAPES. Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde: Formação Docente Interdisciplinar para o SUS e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Coordenadora do Projeto de Extensão LIga Acadêmica Saúde e Inclusão da Pessoa com Deficiência (LISIPD). Vice-líder do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Gestão e Trabalho em Saúde NUPGES/CNPq. Membro da Linha de Pesquisa Micropolítica do Trabalho e o Cuidado em Saúde. Mestrado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Graduação em Enfermagem. Habilitação em Enfermagem em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP). Experiência na assistência, ensino e pesquisa, atuando principalmente nas seguintes temáticas: saúde coletiva, educação permanente em saúde, formação em saúde, micropolítica do trabalho em saúde, planejamento e gestão do sistema e serviço de saúde e o processo de morrer como potência de vida. Nas últimas pesquisas trabalhou com temática da saúde mental, rede da atenção à saúde e rede de cuidado à pessoa com deficiência, sustentando a aposta de que todos são pesquisadores nas investigações.

Márcio Guilherme Figallo de Lima é estudante do sétimo período do curso de Medicina da Universidade Federal Fluminense e presidente da Liga Acadêmica de Saúde e Inclusão da Pessoa com Deficiência (LISIPD)

Julia Pereira Alves é estudante do oitavo período do curso de Graduação em Enfermagem na Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense e vice-presidente da Liga Acadêmica de Saúde e Inclusão da Pessoa com Deficiência (LISIPD)

Por Guilherme Neves
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