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UFF Responde: Chuvas Persistentes

Entenda como a sequência de dias chuvosos aumenta os riscos de alagamentos e deslizamentos e por que as condições do solo e do território fazem diferença.

“Antes não chovia assim por aqui.” Esta é uma frase que aparece quando os dias chuvosos se prolongam em uma época do ano que as pessoas lembravam de outra forma. Mas como saber se a chuva realmente mudou? A percepção levanta uma questão que exige observar como as chuvas se distribuem ao longo das estações em cada região.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) divulgou um boletim, em setembro de 2026, que apontou risco de inundações em áreas do Sudeste ao considerar, em conjunto, a previsão de chuvas persistentes, os volumes já acumulados e a umidade do solo. O órgão também alertou que a continuidade das chuvas poderia provocar deslizamentos em encostas suscetíveis. 

Pensando no Dia Internacional para a Redução do Risco de Desastres, 13 de outubro, o UFF Responde conversa com a professora Franciele Zanandrea, do Departamento de Engenharia Agrícola e Meio Ambiente da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense (UFF), sobre quando a chuva persistente se torna perigosa e o que os dados permitem dizer sobre possíveis mudanças no padrão das chuvas.

O que são chuvas persistentes? Elas precisam ocorrer sem interrupção ou também podem ter pausas entre um dia e outro?

Franciele Zanandrea: O fenômeno é caracterizado pela ocorrência de precipitação durante períodos prolongados, podendo se estender por várias horas ou mesmo por vários dias. Elas não precisam ocorrer de forma ininterrupta, pois também podemos ter uma sequência de eventos de chuva, com intervalos entre eles, mas que, no conjunto, representam um período prolongado de condições chuvosas. Essas chuvas costumam estar associadas à atuação de sistemas meteorológicos de maior escala, como frentes frias e zonas de convergência de umidade, que favorecem a manutenção de condições atmosféricas propícias à precipitação por períodos prolongados.

São Paulo (SP), 10/09/2026. – Trânsito de carros durante chuva em São Paulo. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Por que vários dias de chuva podem deixar uma encosta ou uma área próxima a um rio em risco, mesmo quando a chuva do último dia não foi forte?

Franciele: Mesmo que a chuva do último dia não apresente alta intensidade, a ocorrência dela nos dias anteriores, as chamadas de chuvas antecedentes, pode deixar o solo progressivamente mais úmido e próximo da saturação. Com isso, sua capacidade de armazenar novas quantidades de água diminui, fazendo com que uma parcela maior da chuva passe a escoar pela superfície e alcance rapidamente os cursos d’água. Nas encostas, o aumento da umidade do solo pode reduzir sua estabilidade e favorecer a ocorrência de deslizamentos. Já nas áreas próximas aos rios, o maior volume de água que chega aos canais pode provocar a elevação do nível e favorecer a ocorrência de inundações. Portanto, o risco não depende apenas da intensidade da chuva em um determinado dia, mas também do histórico de precipitação e das condições prévias do solo e da bacia hidrográfica.

Por que uma mesma sequência de chuvas causa danos em alguns lugares e passa sem grandes consequências em outros?

Franciele: Isso pode ocorrer por diferentes motivos. Primeiro, as características das chuvas, como intensidade, duração e volume acumulado, podem variar espacialmente, ou seja, uma mesma sequência de dias chuvosos não necessariamente produz os mesmos volumes de precipitação em diferentes locais. Além disso, as características físicas do terreno também influenciam a resposta às chuvas. Os tipos de solo, sua profundidade, permeabilidade e resistência, assim como a declividade e as condições de drenagem, determinam como a água se infiltra, se movimenta e se acumula no terreno. Por exemplo, solos mais profundos podem armazenar maiores volumes de água antes de atingir a saturação, embora isso também dependa de suas características e das condições do subsolo. Outro fator fundamental é o uso e a ocupação do local. Áreas com cobertura florestal apresentam condições de infiltração, interceptação da chuva e estabilidade do solo diferentes daquelas encontradas em áreas urbanizadas. Intervenções humanas, como cortes inadequados em encostas, retirada da vegetação e impermeabilização do solo, podem modificar a dinâmica da água e aumentar a suscetibilidade a deslizamentos e inundações. Por fim, o risco também depende de como os territórios são ocupados: a presença de moradias, infraestrutura e populações em áreas suscetíveis influencia diretamente as consequências desses processos.

Juiz de Fora (MG), 19/03/2026 – Parque Jardim Burnier, um dos bairros mais atingidos pela chuva. Um mês depois dos deslizamentos e alagamentos que causaram a morte de mais de 70 pessoas em Juiz de Fora, além de deixar milhares de pessoas desabrigadas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Como os pesquisadores identificam que a chuva em determinada região está fora do habitual? O que precisamos saber antes de dizer que um lugar “não estava acostumado” a chover daquela forma?

Franciele: O principal caminho para responder a essa pergunta é analisar séries históricas de dados hidrometeorológicos, especialmente os registros de precipitação obtidos por pluviômetros. Essas séries permitem conhecer o comportamento habitual das chuvas em determinada região e identificar possíveis mudanças ao longo do tempo. Um dos desafios no Brasil é a disponibilidade e a continuidade desses registros, já que ainda existem lacunas importantes na rede de monitoramento. Uma das abordagens utilizadas pelos pesquisadores é avaliar a estacionariedade das séries temporais, ou seja, investigar se suas propriedades estatísticas, como média e variabilidade, permanecem constantes ao longo do tempo. É importante lembrar que a precipitação apresenta naturalmente uma grande variabilidade, com períodos mais chuvosos e outros mais secos, muitas vezes influenciados por fenômenos climáticos como o El Niño e a La Niña. Por meio de testes estatísticos e da análise de indicadores de extremos de precipitação, podemos investigar se estão ocorrendo mudanças na frequência, na intensidade, na duração ou no volume acumulado das chuvas, em comparação com o comportamento observado no passado. Assim, antes de afirmar que um lugar está recebendo chuvas fora do habitual, precisamos conhecer seu histórico de precipitação e considerar tanto a variabilidade natural do clima quanto possíveis mudanças de longo prazo.

O que as pesquisas já mostram sobre mudanças no padrão das chuvas no Brasil? 

Franciele: As pesquisas têm mostrado que os padrões de precipitação no Brasil estão passando por mudanças, mas essas alterações não ocorrem de maneira uniforme em todo o território. Existem estudos que identificam tendências de aumento dos totais de chuva em algumas regiões, como no Sul do Brasil, enquanto em outras, como partes do Sudeste e do Nordeste, foram observadas tendências de redução da precipitação em determinados períodos e escalas de análise. Entretanto, uma questão importante é que a redução dos totais de chuva não significa necessariamente uma diminuição dos eventos extremos. Em algumas localidades, por exemplo, observa-se uma maior concentração da precipitação em eventos de curta duração e alta intensidade, intercalados por períodos mais prolongados sem chuva. Isso significa que podemos ter, ao mesmo tempo, períodos de estiagem mais prolongados e episódios de chuva intensa. É importante destacar também que as mudanças podem estar associadas não apenas às mudanças climáticas globais, mas também a fatores como o desmatamento, que pode modificar as interações entre a superfície terrestre e a atmosfera e produzir efeitos nos padrões de precipitação em escalas regionais e locais. Portanto, compreender as mudanças nos padrões de chuva exige considerar a combinação desses diferentes fatores e suas interações.

Com que antecedência é possível identificar o risco de deslizamentos e inundações? O que entra na elaboração dos alertas?

Franciele: A antecedência dos alertas varia de acordo com o tipo de processo e as características do território. No caso das inundações graduais, por exemplo, que ocorrem frequentemente em grandes bacias hidrográficas e em regiões de menor declividade, a elevação do nível dos rios tende a ser mais lenta, permitindo, em muitos casos, maior antecedência na emissão dos alertas. Já nas enxurradas, comuns em bacias menores e mais declivosas, a resposta hidrológica é muito rápida e faz o nível dos rios subir em um intervalo de tempo bastante curto, o que reduz a possibilidade de antecipação. No caso dos deslizamentos, o tempo de resposta também pode ser muito curto e depende das características da encosta, das condições do solo e da quantidade e duração da chuva. Podem ser utilizados dados de monitoramento da umidade do solo, da pressão da água nos poros do solo e de sensores que identificam movimentações nas encostas, para monitoramento de movimentos de massa, e sensores de nível para inundações. Atualmente, o que vem sendo usado no Brasil para antecipar os processos são os limiares críticos de precipitação, que indicam combinações de intensidade, duração e/ou volume acumulado de chuva associadas à ocorrência de deslizamentos, ou inundações. A definição dos limiares exige um conhecimento detalhado das características locais e de como cada território responde à chuva. Por isso, gostaria de destacar a importância dos registros históricos de desastres, que permitem relacionar as condições de chuva e do terreno com a ocorrência dos eventos. Informações como o horário em que um rio transbordou ou uma encosta deslizou, o nível máximo atingido pelo rio, o volume de chuva acumulado e as condições antecedentes do solo são fundamentais para desenvolver e aprimorar os sistemas de monitoramento e alerta. 

Brasília (DF), 08/04/2026 – Após chuva o Acampamento Terra Livre, ficou alagado. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Para os moradores das  áreas sujeitas a esses riscos, o que é importante acompanhar durante dias seguidos de chuva e como devem agir diante de um alerta da Defesa Civil?

Franciele: É muito importante acompanhar as informações e orientações divulgadas pela Defesa Civil local, especialmente durante os períodos de chuvas persistentes. Também é fundamental estar atento a sinais que podem indicar situações de perigo, como o aparecimento de rachaduras no terreno e nas paredes das casas, inclinação de árvores ou postes, surgimento de água barrenta escorrendo pelas encostas e elevação rápida do nível dos rios próximos. Outro aspecto fundamental é conhecer previamente o plano de contingência do município, que identifica as rotas de fuga e os pontos de apoio e abrigo disponíveis. Essa preparação permite agir com mais rapidez e segurança diante de uma situação de emergência. Ao receber um alerta da Defesa Civil ou ouvir o acionamento da sirene, é fundamental seguir as orientações das autoridades ,se deslocar para um local seguro e utilizar as rotas de evacuação indicadas. Não se deve esperar que a situação se agrave para deixar uma área de risco. A prevenção e a preparação antecipada são fundamentais para reduzir os riscos e proteger vidas. É importante lembrar que os desastres não são determinados apenas pela ocorrência de fenômenos naturais, mas também pelas condições de vulnerabilidade e exposição da população. Por isso, o acesso à informação, o planejamento territorial, o monitoramento e a preparação das comunidades são fundamentais para reduzir os riscos e salvar vidas.

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Franciele Zanandrea é graduada em Engenharia Ambiental, mestrado e doutorado em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental. Desenvolve pesquisas na área de Recursos Hídricos, principalmente nos seguintes temas: hidrologia, hidrossedimentologia, conectividade, hidrogeomorfologia e desastres. Atuou como analista ambiental na elaboração de diversos estudos ambientais. Atualmente é Professora Adjunta do Departamento de Engenharia Agrícola e Meio Ambiente da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, onde é líder do Grupo de Análises e Pesquisas em Hidrologia e Desastres (GRAPHID). Atual coordenadora adjunta da Comissão Técnica de Desastres da ABRHidro. Membro da Comissão de Coordenação das Atividades de Meteorologia, Climatologia e Hidrologia (CMCH) do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI).

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