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Impressora Braille de baixo custo desenvolvida na UFF inova modelo tradicional de tecnologia assistiva

Tecnologia desenvolvida em parceria com pesquisadores do IFRO alia engenharia acessível, software livre e impacto social direto

Garantir que uma pessoa com deficiência visual possa ler, de forma autônoma, uma prescrição médica ou um material didático ainda é um desafio no Brasil. Apesar de a legislação assegurar o direito à informação acessível, a realidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e das instituições de ensino revela uma lacuna persistente: o alto custo das tecnologias assistivas limita o acesso e compromete a autonomia desses usuários. Na prática, isso significa que pacientes ainda dependem de terceiros para compreender orientações médicas, enquanto estudantes enfrentam barreiras para acessar conteúdos básicos em sala de aula.

Foi a partir dessa constatação que pesquisadores do Laboratório Design Thinking, Gestão e Engenharia Industrial (LabDGE), da Universidade Federal Fluminense (UFF), coordenado pelo professor Robisom Calado, em parceria com o Instituto Federal de Rondônia (IFRO), desenvolveram uma impressora Braille de baixo custo, pensada para ser utilizada diretamente em unidades de saúde e ambientes educacionais. A proposta parte de uma inversão lógica: em vez de adaptar o usuário à tecnologia existente, busca-se criar uma solução alinhada às condições reais de uso, com menor custo, maior acessibilidade e facilidade de operação.

“Hoje, as impressoras disponíveis no mercado podem ultrapassar R$ 170 mil. Isso torna inviável o acesso justamente para quem mais precisa. A proposta foi desenvolver uma solução funcional, acessível e replicável”, explica o desenvolvedor da tecnologia e doutorando pela Pós-Graduação em Engenharia de Produção (PPGEP-UFF), Maicon Gonzaga da Silva.

Inovação acessível e impacto direto no uso cotidiano

Diferente dos equipamentos comerciais, que priorizam velocidade e escala industrial, a impressora desenvolvida pelo grupo aposta em uma engenharia simplificada, com foco no custo-benefício e na aplicabilidade em contextos reais. O equipamento utiliza uma única cabeça de impressão móvel para formar a célula Braille, o que reduz significativamente o custo de produção. Embora isso implique uma velocidade menor de impressão em comparação aos modelos comerciais, o ganho em acessibilidade compensa a limitação, sobretudo em ambientes como unidades de saúde e escolas, onde a demanda é pontual e imediata.

Outro aspecto central da inovação está na integração com uma plataforma digital de uso simplificado. A impressora funciona conectada a um computador, por meio de uma interface web que dispensa a instalação de programas. Isso permite que profissionais de saúde e professores utilizem a tecnologia sem necessidade de formação técnica específica, reduzindo uma barreira histórica no uso de recursos em Braille. “O usuário acessa a plataforma, faz a conversão do texto e gerencia toda a impressão de forma direta. A ideia foi eliminar intermediários e tornar o processo mais ágil”, explica Maicon.

Plataforma que o usuário acessa para utilizar a tecnologia assistiva. Foto: Assessoria de Imprensa/SCS

A solução também enfrentou desafios técnicos relevantes, como a adaptação a diferentes gramaturas de papel, uma exigência importante para garantir a legibilidade do Braille. Para isso, foi desenvolvido um sistema de calibração que ajusta a força aplicada na impressão, que evita tanto a perfuração quanto a baixa definição dos pontos. Esse tipo de ajuste só se tornou possível a partir de testes contínuos e da observação direta do uso.

Experiência piloto no IFRO e validação em campo

A tecnologia foi testada em diferentes contextos, incluindo unidades de saúde, escolas e eventos públicos em Ji-Paraná (RO). Um dos momentos mais relevantes do processo ocorreu durante a apresentação da impressora em um evento aberto promovido pelo IFRO, que reuniu milhares de participantes e permitiu o contato direto com usuários finais. Essa etapa foi decisiva para validar a usabilidade do equipamento e identificar ajustes necessários em tempo real.

Durante a demonstração, pessoas com deficiência visual testaram a impressora e contribuíram com feedback imediato sobre a qualidade da impressão. “Um usuário apontou que a perfuração do papel não estava adequada. Fizemos o ajuste ali mesmo, testamos outras gramaturas e conseguimos melhorar o resultado na hora”, relata a professora Ilma Rodrigues de Souza Fausto, coordenadora do projeto, pós-doutoranda do PPGEP-UFF sob a supervisão do professor Calado e pesquisadora do LabDGE. Esse tipo de interação evidenciou a importância de desenvolver tecnologias assistivas com participação ativa dos usuários, e não apenas em ambiente laboratorial.

A experiência também revelou aspectos subjetivos do uso que dificilmente seriam captados em testes controlados, como a preferência individual por diferentes tipos de papel. “Cada pessoa tem uma sensibilidade diferente ao toque, e isso influencia diretamente na leitura do Braille. Tais nuances só aparecem quando a tecnologia está em uso real”, explica Ilma. Os aprendizados foram incorporados ao desenvolvimento da impressora, reforçando seu caráter adaptável e centrado no usuário.

Autonomia, redução de custos e transformação no SUS e na educação

Nos testes realizados em unidades de saúde, a equipe identificou um cenário recorrente: a ausência total de materiais acessíveis para pacientes com deficiência visual. Em alguns casos, nunca havia sido emitida uma receita em Braille, o que obrigava o paciente a depender de terceiros para compreender orientações médicas básicas. Com a implementação da impressora, o cenário começou a se transformar, permitindo que o próprio paciente tivesse acesso direto às informações sobre seu tratamento.

“A pessoa passa a ter autonomia para ler a própria receita, entender a posologia e conduzir o tratamento com mais segurança”, afirma Ilma.

Segundo Maicon, essa autonomia tem impacto direto não apenas na experiência do paciente, mas também na eficiência do sistema de saúde. “Quando o usuário não compreende corretamente a medicação, há maior risco de erro, complicações e internações. Isso gera um custo adicional para o SUS que poderia ser evitado com acesso adequado à informação”, explica. A tecnologia, portanto, atua simultaneamente como ferramenta de inclusão e de otimização do sistema público.

Na educação, os efeitos seguem a mesma lógica. Professores passam a ter autonomia para produzir materiais acessíveis sem depender de serviços externos, o que reduz tempo, custo e risco de erro na adaptação de conteúdos. “Agora, é possível pegar um texto digital, converter e imprimir em Braille imediatamente. Isso muda completamente a dinâmica de ensino e amplia o acesso ao conhecimento”, destaca Ilma. O resultado é uma experiência mais inclusiva, tanto para estudantes quanto para educadores.

Tecnologia social e potencial de transformação

Mais do que uma solução técnica, a impressora Braille de baixo custo se insere no campo das tecnologias sociais ao propor um modelo de desenvolvimento orientado pela realidade dos usuários e pela busca por equidade. O projeto demonstra que é possível produzir inovação relevante, desde que haja articulação entre conhecimento técnico, escuta ativa e compromisso social.

“A tecnologia assistiva precisa promover autonomia. Não é apenas sobre acesso à informação, mas sobre garantir independência e dignidade”, afirma Ilma.

Maicon Gonzaga, desenvolvedor da tecnologia da impressora Braille. Foto: SCS/UFF

Para Maicon, o diferencial da iniciativa está justamente na sua intencionalidade. “Hoje, muitas tecnologias não são pensadas para quem realmente precisa delas. A proposta aqui foi inverter a lógica e desenvolver uma solução que seja, de fato, utilizável por essas pessoas”. Com potencial de replicação em diferentes contextos, a tecnologia aponta caminhos para a construção de um sistema de saúde e de educação mais inclusivo, eficiente e alinhado às necessidades da população.

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Maicon Gonzaga da Silva é Doutorando em Engenharia de Produção pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com mestrado na mesma área e instituição. Suas pesquisas concentram-se em processos de produção e inovação tecnológica, com contribuições notáveis nas áreas de saúde digital, agrocomputação, educação inclusiva e tecnologia assistiva. Atua como pesquisador no Laboratório Design Thinking, Gestão e Engenharia Industrial (LabDGE/UFF), onde aplica o design thinking para otimizar processos produtivos, e colabora com o laboratório de agrocomputação da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) no desenvolvimento de soluções tecnológicas para a agricultura. Sua sólida formação inclui graduação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO) e especializações em Cibersegurança e Engenharia Eletrônica.Profissionalmente, trabalha como Engenheiro Eletrônico e de Firmware na Fagons Tecnologia. É também o fundador da Programatrônica, uma empresa dedicada à pesquisa e ao desenvolvimento de produtos tecnológicos para educação inclusiva e acessibilidade. Sua produção intelectual inclui artigos em periódicos qualificados, registros de patentes e desenvolvimento de softwares.

Ilma Rodrigues de Souza Fausto é professora em regime de dedicação exclusiva no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO), Campus Ji-Paraná, desde 2010. Possui Pós-doutorado em Ciências, Tecnologias e Inclusão pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Doutora em Ciências, Tecnologias e Inclusão pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF), é também mestre em Educação Escolar pelo PPGEEPROF da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências, Tecnologias e Inclusão (PGCTIN/UFF). No IFRO, participa do Observatório do Ensino Médio Integrado (OBEMI), desenvolvendo projetos que articulam metodologias participativas, inovação tecnológica e práticas pedagógicas inclusivas. É também líder do Grupo de Pesquisa Inovação e Inclusão Tecnológica para o Desenvolvimento Sustentável (ITDS), em parceria com o LABDGE-UFF.Desde 2019, coordena o Ensino a Distância no IFRO, colaborando com a Diretoria de Educação a Distância (DEAD) na concepção, implementação e avaliação de cursos de Formação Inicial e Continuada (FIC) nas áreas de Computação, Tecnologias e Robótica Educacional, além de cursos superiores em Tecnologia em Gestão Comercial, Tecnologia em Gestão Pública e Técnico Subsequente em Administração, também coordena os cursos mooc do IFRO com 53 mil alunos. Sua atuação na EAD reforça o compromisso com a democratização do acesso ao conhecimento e o fortalecimento das competências digitais de estudantes e docentes. O impacto de suas iniciativas é reconhecido por diversas honrarias, como: Dama Comendadora Cruz do Mérito da Educação, Cruz do Mérito da Amazônia, Grão Colar Mérito da Educação e Grão Colar Contribuição Acadêmica e Profissional. Em âmbito acadêmico, foi premiada com o primeiro lugar no Prêmio Seymour Papert Paulo Freire de Robótica Educacional (2024), recebeu o Prêmio Destaque ABED de Pesquisa Científica (2023) e obteve menções honrosas por projetos inovadores em Libras e realidade aumentada.

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