Mais de 55% das denúncias de violência contra idosos registradas no Brasil em 2025 têm os filhos ou filhas como autores das agressões. A maior parte dos casos ocorrem dentro da própria casa da vítima, o que revela a persistência de um cenário que pesquisadores classificam como estrutural. Os dados fazem parte da atualização do “Mapa da Violência contra a Pessoa Idosa no Brasil”, coordenado pela professora Alessandra Funchal Camacho, da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense (UFF).
O levantamento foi elaborado a partir de dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e reuniu registros de denúncias feitas por meio da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. Em 2025, o país contabilizou mais de 180 mil denúncias de violência contra pessoas idosas, número superior ao registrado em 2024, quando houve mais de 179 mil notificações. Em 2023, haviam sido registradas 143.595 denúncias.
“Desde 2020, observamos um aumento vertiginoso das denúncias. Inicialmente, imaginávamos que isso estivesse relacionado apenas ao contexto da pandemia, mas os dados evidenciam que o crescimento permaneceu mesmo após aquele período”, afirma Camacho.
Segundo a pesquisadora, um dos aspectos mais preocupantes identificados na atualização é a permanência da violência dentro do ambiente familiar. “Isso revela uma quebra do ambiente de segurança. O lar, que deveria ser um espaço de proteção, acaba se tornando um lugar de medo para muitos idosos”, destaca.
A docente explica que os casos estão frequentemente relacionados às relações de dependência. “São idosos que dependem de cuidados ou de auxílio para atividades do cotidiano e acabam ficando mais vulneráveis. Muitas vezes, precisam justamente da pessoa que pratica a violência, seja financeira, física ou emocional”, explica.
De acordo com a atualização dos dados, houve também uma mudança inédita na série analisada pela pesquisadora. Nos levantamentos anteriores, os filhos homens apareciam com maior frequência entre os autores das agressões. Em 2025, houve uma inversão discreta: as filhas passaram a figurar ligeiramente à frente dos homens entre os principais agressores.

Como identificar sinais de violência. Fonte: Artigo. Elaboração DAI/SCS
Mulheres acima de 80 anos permanecem mais vulneráveis
O perfil das vítimas segue semelhante ao identificado nos anos anteriores. As mulheres continuam sendo as principais vítimas da violência, representando 63,44% dos registros em 2025. A faixa etária mais atingida foi a de idosos com 80 anos ou mais, responsável por 24,01% das denúncias registradas. “Quanto maior a vulnerabilidade, maior o risco de sofrer abuso”, resume Alessandra Camacho.
Outro dado considerado expressivo pela pesquisadora é a permanência dos filhos como principais agressores. Em 2025, 55,66% das denúncias identificaram filhos ou filhas como autores da violência. “O ambiente doméstico ainda é o principal cenário das agressões. Isso mostra que a violência contra idosos ainda está profundamente ligada às relações familiares e à sobrecarga de cuidado”, avalia.
A pesquisa também aponta que a região Sudeste concentrou mais da metade das denúncias do país em 2025, com 51,67% dos registros, seguida pelas regiões Nordeste (20,67%) e Sul (14,49%).

Mapa regional da violência contra o idoso em 2025. Fonte: Artigo. Elaboração DAI/SCS
Negligência, violência psicológica e abuso financeiro estão entre os principais casos
Entre os tipos de violência identificados estão negligência, abandono, violência psicológica, agressões físicas e abuso financeiro ou patrimonial.
A negligência aparece associada à omissão de cuidados básicos, como higiene, alimentação, administração de medicamentos e acompanhamento de saúde. Já a psicológica inclui ameaças, humilhações, agressões verbais e isolamento social. “Muitas vezes as marcas da violência ficam escondidas. O idoso sente vergonha, medo ou depende do agressor para sobreviver”, explica a professora.
Outro aspecto que chama atenção dos pesquisadores é a violência financeira, especialmente em contextos familiares. “Muitos idosos sustentam financeiramente famílias inteiras e sofrem exploração patrimonial dentro da própria casa”, afirma a pesquisadora.
Subnotificação ainda é um dos maiores desafios
Apesar do aumento dos registros, Alessandra Camacho alerta que a violência contra idosos permanece fortemente subnotificada no Brasil. “A subnotificação é crônica. Muitos casos nunca chegam ao conhecimento das autoridades. O idoso muitas vezes não denuncia porque depende justamente da pessoa que o agride. Em muitos casos, há medo e até receio de perder o único vínculo familiar que possui”, explica.
Segundo a pesquisadora, parte das denúncias é realizada por vizinhos ou terceiros, o que ajuda a explicar a quantidade de informações classificadas como “não declaradas” em algumas variáveis do estudo.
A professora esclarece que o enfrentamento do problema exige ações locais e integradas. “Estados e municípios precisam desenvolver estudos regionais para compreender melhor as especificidades de cada território e fortalecer as políticas públicas de proteção à pessoa idosa”, defende.
Como identificar sinais de violência
Alessandra Camacho alerta que hematomas sem explicação, fraturas frequentes, retraimento, mudanças bruscas de comportamento, medo excessivo na presença de determinados familiares, falta de higiene, perda de peso, ausência de medicação e isolamento social podem indicar situações de violência ou negligência.
Ela reforça que denúncias podem ser feitas de forma anônima pelo Disque 100, serviço nacional de atendimento a violações de direitos humanos que funciona 24 horas por dia. Em situações de risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190. O estudo também destaca a importância das delegacias especializadas, unidades de saúde, Defensoria Pública e Ministério Público na rede de proteção à pessoa idosa.
Às vésperas do Dia Mundial da Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho, a pesquisadora reforça que o combate à violência depende também da atenção de pessoas próximas ao idoso. “Muitas vezes são os vizinhos, profissionais de saúde ou pessoas próximas que percebem os primeiros sinais. A denúncia pode salvar vidas”, finaliza Alessandra Camacho.
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Alessandra Conceição Leite Funchal Camacho é enfermeira, doutora em Enfermagem pela UFRJ e pós-doutora pela UERJ. Professora associada da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense (UFF), atua na formação de mestres e doutores e coordena pesquisas voltadas ao envelhecimento, saúde da pessoa idosa e tecnologias educacionais em saúde. É líder do Núcleo de Estudos de Saúde do Adulto e do Idoso em Tecnologias Educacionais (NESAITed) e referência nacional em estudos sobre violência contra a pessoa idosa.
