O câncer de boca é uma realidade negligenciada e, muitas vezes, silenciosa. Como forma de conscientizar os brasileiros sobre a doença, foi instituído o Maio Vermelho. Ao longo do mês são desenvolvidas diversas ações que auxiliam a população a identificar os sintomas e orientam sobre o procedimento adequado em casos de suspeita de câncer de boca.
No Brasil, a doença é o quinto tipo de câncer mais comum entre os homens, e, segundo o relatório de estimativa de incidência de câncer no Brasil para o triênio 2026-2028, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), deve afetar mais de doze mil homens por ano no país. Apesar da possibilidade de autoexame, devido à fácil visualização da cavidade oral, a maioria dos casos diagnosticados da doença já se encontram em estágios avançados.
Entre os principais sinais de alerta estão: feridas que não cicatrizam em mais de 15 dias; manchas brancas ou vermelhas; sangramentos; dificuldade para mastigar ou falar; e caroços no pescoço.
Nesse cenário, o projeto de extensão “Conscientiza Câncer Oral”, do Instituto de Saúde de Nova Friburgo (ISNF/UFF), coordenado pela professora Renata Tucci, um projeto da Universidade Federal Fluminense (UFF) atua de forma contínua para promover a conscientização sobre o câncer oral e capacitar a comunidade acadêmica, população e profissionais de saúde no combate à doença.
A iniciativa integra a prestação de serviços à produção de conhecimento científico e conta com a participação das professoras do Departamento de Odontologia do ISNF-UFF, Rebeca de Souza Azevedo, Maria Carolina de Lima Jacy Monteiro Barki e Roberta Barcelos Pereira de Souza, do bolsista e graduando em Odontologia, Hugo Wermelinger Zavoli, além de alunos do mesmo curso.
Em atividade desde 2023, o projeto surgiu da inquietação da coordenadora, que escutava desde sua graduação que o câncer de boca possuía um diagnóstico muito tardio. “Há 30 anos eu escuto a mesma coisa, e então pensei: ’vamos trabalhar em cima disso’, porque boa parcela da população não sabe da existência do câncer de boca, e não sabe também que o dentista é o responsável por esse diagnóstico”, conta Tucci.
O projeto atua sob uma premissa fundamental: reforçar que o cirurgião-dentista é um dos profissionais capacitados para realizar o diagnóstico precoce de lesões orais, incorporando uma abordagem multidisciplinar muito além do cuidado restrito aos dentes.
O silêncio da doença e o perigo do diagnóstico tardio
O desconhecimento sobre a própria existência do câncer de boca é um dos obstáculos no combate à doença. Segundo dados do INCA, considerando o triênio 2026-2028, no Brasil são estimados dezessete mil casos anualmente no país. Em 2023, o país registrou 7 mil óbitos decorrentes de câncer oral.
Um dos fatores que contribuem para o avanço silencioso da doença é a ausência de dor em suas fases iniciais. Diferente de uma afta, o câncer de boca é inicialmente assintomático. Quando a dor surge significa que o tumor já está muito avançado, apresentando riscos para o paciente.
Entre os principais sinais de alerta estão: feridas que não cicatrizam em mais de 15 dias; manchas brancas ou vermelhas; sangramentos; dificuldade para mastigar ou falar; e caroços no pescoço.
Enquanto os casos de cânceres de lábio possuem relação com a exposição crônica ao sol, aqueles classificados como intra-oral estão comumente ligados ao tabagismo e ao consumo de álcool. O tipo mais comum de câncer intra-oral é o carcinoma de células escamosas, que costuma surgir no assoalho da boca e na borda lateral da língua.

Carcinoma de células escamosas em borda lateral de língua. Foto: Profª Maria Carolina Barki – ISNF/UFF
Além do tabagismo e do etilismo, a infecção pelo vírus Papilomavírus Humano (HPV) tem se mostrado um fator crescente para o câncer de orofaringe, reforçando a necessidade da vacinação, que deve ser recomendada pelo cirurgião-dentista. “As pessoas precisam saber que o dentista existe para diagnosticar essas lesões. Quando falamos de conscientizar as pessoas é na intenção de mostrar os sinais e sintomas da doença. Esse é o papel do dentista no processo”, acrescenta Tucci.
O papel do dentista no diagnóstico precoce
“O dentista também pode salvar vidas”. Segundo a coordenadora, um dos obstáculos para detectar de maneira precoce a doença é a falta de conhecimento sobre qual profissional buscar. “Muitos pacientes ficam perdidos e não sabem a quem recorrer. A população ainda associa pouco o diagnóstico dessas lesões ao dentista”, explica a professora.
O projeto busca justamente desconstruir a ideia de que a odontologia está restrita à estética ou aos dentes. Para o bolsista Hugo Wermelinger, o exame clínico completo da cavidade oral deveria fazer parte da rotina de qualquer atendimento odontológico. “Muitas vezes o profissional olha apenas para o dente que será tratado. Nossa luta é mostrar que a avaliação completa da boca pode salvar vidas”, afirma o estudante.
Tucci reforça que o objetivo não é transformar todos os dentistas em especialistas em lesões bucais, mas conscientizar sobre sua responsabilidade dentro da linha de cuidado. “O profissional pode não ter a obrigação de realizar uma biópsia ou fechar um diagnóstico, mas tem obrigação de não deixar o paciente sem encaminhamento. O diagnóstico precoce pode evitar tratamentos agressivos e mutiladores, além de aumentar significativamente as chances de sobrevida”, pontua.
Multiplicando o alcance a informação
Ao longo de 2025, o projeto “Conscientiza Câncer Oral” realizou 18 ações estratégicas, divididas em quatro eixos principais, com o objetivo de maximizar e ampliar o alcance das iniciativas. As atividades voltadas diretamente para a comunidade, levaram informação essencial a 310 pessoas por meio de atividades como a “Blitz da Saúde”, palestras em colégios para alunos do ensino médio e pré-vestibulandos, além de orientações em unidades básicas de saúde e ações no Dia Mundial Sem Tabaco.
Outro eixo importante é a capacitação de profissionais da atenção primária. Ao longo de 2025, 692 participantes, entre dentistas, agentes comunitários, auxiliares de saúde bucal, demais profissionais da saúde e gestores municipais, participaram das atividades promovidas pelo projeto, incluindo ações presenciais e online em parceria com a Coordenação de Saúde Bucal do Estado do Rio de Janeiro. “Precisamos capacitar justamente os profissionais que entram diariamente na casa das pessoas, como os agentes comunitários de saúde. A atenção primária é estratégica para o diagnóstico precoce”, afirma Tucci.
O terceiro eixo aconteceu no campus da universidade em Nova Friburgo, em um trabalho interdisciplinar entre os cursos de Odontologia e Fonoaudiologia. A ação promoveu o contato precoce a temas essenciais da prática clínica, com o objetivo de ampliar a compreensão ética e social da profissão, além de estimular o interesse pela extensão e pela pesquisa.
Como forma de consolidar a eficácia da comunicação digital em saúde, o quarto eixo de atuação focou nas redes sociais. O Instagram oficial do projeto cresceu rapidamente em 2025, saltando de 240 para mais de 700 seguidores e alcançando uma expressiva média de 18 mil visualizações mensais. Essa presença online não apenas disseminou conhecimento de forma acessível – como o folder informativo –, mas criou uma ponte direta com a população e as instituições da região serrana. Neste cenário, a professora Renata Tucci celebra a expansão virtual e seus reflexos: “No começo, éramos nós tentando chegar até a população. Agora, as pessoas estão entrando em contato pelo Instagram. É muito gratificante perceber esse resultado”.

Parte da equipe do projeto em campanha de conscientização no centro de Nova Friburgo. Foto: Divulgação
O papel da universidade e os próximos passos
Para Wermelinger, que está em seu terceiro ano como bolsista, o apoio da Pró-Reitoria de Extensão (Proex-UFF) é decisivo “tanto pelo reconhecimento do trabalho desenvolvido, quanto para auxiliar na permanência na universidade”.
As professoras Renata Tucci e Rebeca de Souza Azevedo também coordenam o laboratório de patologia oral da UFF em Nova Friburgo, hoje referência regional na emissão de laudos anatomopatológicos de lesões bucais. Além disso, o ISNF/UFF conta com ambulatório de Estomatologia apto para atendimento, diagnóstico e tratamento de pacientes com lesões de boca identificadas durante as ações do projeto. Casos de câncer são devidamente encaminhados para tratamento oncológico.
Ainda em 2026, um artigo de opinião intitulado “Diagnóstico Tardio do Câncer de Boca: Onde Estamos Errando?” será publicado na Revista Brasileira de Cancerologia, com relatos e experiências sobre o estudo, aprofundando reflexões sobre o tema.
Com o sucesso do projeto e a sua expansão para abrigar novos braços, ele passará a se chamar “Instituto de Saúde de Nova Friburgo na Linha de Cuidado do Câncer de Boca”. Em um cenário em que o diagnóstico tardio ainda predomina no país, o projeto do ISNF- UFF aposta na informação e na atuação integrada entre universidade, SUS e população para transformar conhecimento em diagnóstico precoce — e aumentar as chances de salvar vidas.
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Renata Tucci atualmente é Professora Associada do Instituto de Saúde de Nova Friburgo da Universidade Federal Fluminense – UFF, ministrando aulas de Patologia Oral, Patologia Geral e Estomatopatologia. Possui graduação em Odontologia pela FOA-UNESP,, Mestrado e Doutorado em Patologia Bucal pela FOUSP.
Hugo Wermelinger Zavoli é graduando do curso de Odontologia do ISNF-UFF e bolsista do projeto de extensão “Conscientiza Câncer Oral” em 2023, 2025 e 2026.
