No Brasil, o carnaval é muito mais do que uma festa popular: consolidou-se como uma das maiores manifestações culturais e de impacto econômico do país. Só em 2025, as estimativas apontaram a movimentação de cerca de R$ 12 bilhões na economia brasileira, com participação de mais de 53 milhões de pessoas nas celebrações em diferentes regiões, e grande impacto nos setores de bares, restaurantes, transporte e hospedagem, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e do Ministério do Turismo do Brasil.
No estado do Rio de Janeiro, um dos centros urbanos de maior movimentação turística da festa no país, as projeções reforçam essa dimensão econômica. De acordo com a Secretaria Estadual de Turismo, a edição 2025 do Carnaval rendeu ao setor de serviços do estado o melhor desempenho desde 2015, segundo balanço feito pelo governo fluminense, mobilizando cultura, comércio, turismo e uma ampla cadeia produtiva.
Nesta edição do UFF Responde, convidamos os professores Osiris Marques e Fábia Trentin, da Faculdade de Turismo, e Marina Frydberg, coordenadora da graduação em Produção cultural da Universidade Federal Fluminense (UFF). Os pesquisadores abordam uma perspectiva de articulação entre ciência, cultura, e turismo para compreender como o Carnaval e as manifestações culturais se estruturam entre festa, território, política pública e economia criativa.
Quais são os impactos econômicos e os desafios dos grandes eventos culturais?
Osiris Marques: O impacto econômico do Carnaval ocorre em camadas. O gasto inicial do turista ativa setores diretamente ligados ao turismo, como hospedagem, alimentação e transporte, mas também setores indiretos.
Há também efeitos indiretos e induzidos que se espalham por toda a cadeia produtiva. O processo vai além dos dias de festa e alcança atividades que, à primeira vista, parecem não ter relação direta com o turismo.
Fábia Trentin: Quanto aos desafios, sempre que há grande fluxo de pessoas, há pressão sobre a infraestrutura. Isso envolve saúde, saneamento, mobilidade, coleta de lixo e bem-estar. Em muitas cidades, o planejamento urbano já não dá conta das demandas cotidianas dos moradores.
Em cidades menores, como Paraty, por exemplo, eventos de grande porte já sobrecarregam o sistema de saúde e a limpeza urbana. Muitas vezes, o impacto financeiro é negativo para o município.
Além disso, há impactos invisibilizados, como as condições de trabalho na economia criativa. O que aparece é o produto final, mas quem produz o Carnaval ao longo do ano, geralmente, não aparece.
Qual é o papel das comunidades locais na valorização do turismo cultural?
Fábia Trentin: As comunidades precisam ser protagonistas. O turismo tem que partir do que elas são e desejam. Caso contrário, ficam apenas com os impactos negativos dos grandes fluxos. Isso é muito visível quando pensamos em comunidades tradicionais, que passam a receber visitantes sem que haja planejamento, escuta ou retorno adequado.
Osiris Marques: Diversas manifestações culturais não foram criadas para o turismo, mas passam a atrair visitantes justamente por sua autenticidade. É fundamental que existam políticas públicas de valorização cultural para que essas manifestações não sejam descaracterizadas.
Como as festas populares, como o Carnaval, contribuem para a construção de identidades territoriais?
Marina Frydberg: Pensando no Carnaval de rua, que é a minha linha de pesquisa, como uma manifestação cultural popular e de grande porte, é importante destacar que ele tem um impacto econômico grande, mas também um impacto social muito significativo. Nós vemos o nível de mobilização das pessoas em torno dessa festa, o desejo de vivenciar essa experiência, de passar o ano todo esperando pelo Carnaval.
Isso acontece porque faz sentido para as pessoas. O Carnaval mobiliza e tem um impacto identitário muito forte. Os foliões acordam muito cedo, se vestem, colocam fantasia, glitter, purpurina, e vão para a rua para viver essa experiência coletiva. Isso cria pertencimento, vínculo e reconhecimento entre quem participa.
Além disso, o Carnaval é altamente territorializado. No Rio de Janeiro, por exemplo, as escolas de samba têm uma relação direta com suas localidades de origem, e a maioria dos blocos também. Um que sai no Centro do Rio tem determinadas características; outro que sai em Santa Teresa tem uma relação diferente com o território, com a cidade e com os moradores. Quando esses blocos são deslocados, a relação territorial se perde.
Fábia Trentin: Quando falamos de cultura, pensamos, na maioria dos casos, apenas no patrimônio material, mas ela também está no modo de vida, no saber-fazer, na memória. Isso é muito visível nas comunidades tradicionais.
O território não é apenas o espaço físico onde a festa acontece. É o lugar onde as pessoas vivem, trabalham e constroem identidade. Quando as manifestações passam a ser pensadas apenas como eventos, existe o risco de romper a relação com o território e com quem detém esse saber cultural.
Existe um Carnaval único ou estamos diante de múltiplas manifestações?
Marina Frydberg: Não dá para falar em um Carnaval único, já que ele é muito diverso e precisa ser pensado nessa multiplicidade. A festividade é realizada por pessoas muito diferentes, que se relacionam com ela de formas distintas. Tem gente que vive o Carnaval o ano inteiro como espaço de trabalho e tem gente que vive o Carnaval principalmente como momento de brincar a festa.
Pensar um Carnaval no Centro ou na Zona Sul do Rio é pensar em determinadas estruturas, determinados públicos e demandas. Já para elaborar um Carnaval na periferia é necessário considerar outros sujeitos, necessidades e lógica de política pública. Ele também é diferente quando pensamos em Niterói, por exemplo, ou em outros municípios do estado. A diversidade é uma característica central dessa manifestação cultural.
Fábia Trentin: No turismo, existe uma tendência de construir uma identidade única para os destinos. Isso pode funcionar do ponto de vista do marketing turístico, mas nem sempre corresponde à memória histórica ou à diversidade cultural dos territórios.
Quando falamos de comunidades tradicionais, isso é ainda mais sensível. O turismo precisa considerar a realidade das comunidades e seus desejos, e não impor uma identidade de fora para dentro.
Quais são os principais desafios para preservar o Carnaval e outras festas populares diante da mercantilização?
Marina Frydberg: As manifestações culturais são fruto do tempo, do território e dos grupos sociais envolvidos na sua produção. Elas são vivas, mutantes. Trocas econômicas sempre existiram no Carnaval. O que precisamos pensar, enquanto sociedade e principalmente enquanto política pública de cultura, é como limitar as influências do mercado sobre as manifestações.
A partir do boom do Carnaval de rua nos anos 2000, o mercado passou a entendê-lo como uma grande possibilidade de negócio. O problema não é gerar renda ou criar trabalho, mas olhar para essas manifestações apenas como produtos descartáveis, esvaziados de seus sentidos e significados, sem vínculo com os sujeitos que produzem e vivenciam a festa. A patrimonialização pode ser uma estratégia importante, mas nem o patrimônio pode cristalizar a cultura, nem o mercado é totalmente ruim.

Desfile da Escola de Samba Unidos da Grande Rio em 2025, no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Fábia Trentin: Muitas vezes as comunidades de origem dessas manifestações são exploradas culturalmente, mas os benefícios não chegam a quem produz. As populações que detêm esse saber acabam ficando apenas com as externalidades negativas. Esse é um desafio central: como garantir que os benefícios econômicos retornem para quem sustenta essas manifestações ao longo do ano, e não apenas para quem se apropria delas no momento do evento.
Como as políticas culturais e de turismo podem atuar nesse equilíbrio entre preservação, economia criativa e grandes eventos?
Marina Frydberg: O papel do poder público, enquanto instância que cria, constrói e viabiliza políticas públicas de cultura, é garantir os direitos para que as manifestações culturais populares possam acontecer e continuem acontecendo. Para isso, é necessário que haja financiamento, bem como alguma forma de valorização e de preservação de sua permanência nos territórios. O Estado precisa assegurar também os direitos dos trabalhadores da cultura. Nesse sentido, elaborar políticas públicas, é pensar na possibilidade de quem faz cultura continuar vivendo as manifestações como o Carnaval. A partir desse direito, tanto da realização, como sua profissionalização, teremos, consequentemente, a inserção desses sujeitos em uma economia criativa, que precisa ser pensada, principalmente, como um espaço de realização, produção cultural e de garantia de direitos trabalhistas para quem faz cultura.
Fábia Trentin: Geralmente, priorizamos a dimensão econômica do turismo e ficamos apenas no discurso sobre cultura e pessoas, sem conseguir materializar isso na prática. É um desafio e também uma autocrítica.
Nós temos metodologias, planos de salvaguarda e um arcabouço legal robusto. O problema não é a falta de leis, mas a dificuldade de colocá-las em prática. É preciso apoiar quem não tem articulação, conhecimento técnico ou acesso às instituições.
É importante lembrar que o Carnaval não acontece apenas nos dias de festa. Ele é produzido o ano todo por pessoas que não aparecem. Cultura é feita por pessoas, e são elas que precisam estar no centro das políticas públicas.
Osiris Marques: Sem cultura viva, não existe turismo cultural. O fortalecimento da cultura local gera, de forma endógena, um movimento turístico mais consistente.
Quando o turismo se apoia em manifestações culturais que já existem e são significativas para os territórios, ele tende a gerar efeitos mais duradouros do que quando é criado artificialmente um produto apenas para atrair visitantes.
Qual é o papel da universidade pública na articulação entre cultura, território e políticas públicas?
Marina Frydberg: A universidade tem um papel fundamental para entender as manifestações e explicá-las para a sociedade e para o poder público. As pesquisas ajudam a mostrar como essas festas se organizam, quais são suas dinâmicas e o que é necessário para garantir sua permanência.
Fábia Trentin: A universidade também contribui com metodologias, produção de dados e apoio técnico, especialmente para grupos que não conseguem acessar os instrumentos institucionais sozinhos.
Osiris Marques: Toda política pública deveria ser construída e monitorada a partir de evidências, mas ainda existe uma lacuna entre o que a academia produz e o que chega à tomada de decisão.
________________________
Osiris Marques é Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal Fluminense (1999), mestre em Economia pela Universidade Federal Fluminense (2002), fez doutorado sanduíche na área de Economia Internacional na University of Leeds (2006) e doutorado na área de Macroeconomia Internacional pela Universidade Federal Do Rio de Janeiro (2007). Atualmente é professor associado do Departamento de Turismo e professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Turismo (PPGTUR-UFF) da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Coordenador do Observatório do Turismo, grupo de pesquisa ligado à Faculdade de Turismo e Hotelaria da UFF. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Economia do Turismo e Estatísticas e Indicadores do Turismo, atuando principalmente nos seguintes temas: Observatórios do Turismo, Economia do turismo, Indicadores e estatísticas do turismo e Economia Comportamental no Turismo.
Fábia Trentin é professora Associada do Departamento de Turismo da Universidade Federal Fluminense onde integra o corpo docente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Turismo (PPGTUR) e do Bacharelado em Turismo. Doutora em Turismo, Lazer e Cultura na Universidade de Coimbra (2015); Mestre em Hospitalidade, linha de Pesquisa – Planejamento e Gestão da Hospitalidade (UAM); Mestre em Turismo: Planejamento e Gestão Ambiental e Cultural (UNIBERO); MBA em Gestão Pública Municipal (UNIFESP); MBA em Turismo: Planejamento, Gestão e Marketing (UCB). Áreas de interesse: turismo; gestão pública do turismo; política e governança no turismo; sustentabilidade e turismo; planejamento do turismo.
Marina Frydberg é Professora do Departamento de Arte da Universidade Federal Fluminense, no curso de Produção Cultural e no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades. Bacharel e Licenciada em Ciências Sociais (2003), Especialista em Patrimônio Cultural em Centros Urbanos (2005), Mestre em Antropologia Social (2006) e Doutora em Antropologia Social (2011), toda formação realizada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Estuda a relação entre arte e antropologia, principalmente através da música e do carnaval e sua relação com identidade, práticas de sociabilidade, economia e política. Estuda também as relações entre economia, cultura e trabalho com ênfase nos processos de formação e profissionalização. Mãe de uma menina nascida em 2017.

