Notícia

Pesquisa da UFF mostra como estruturas do tecido adiposo na obesidade alteram células de câncer de mama

Estudos identificam mudanças nas células tumorais que ajudam a investigar a relação entre obesidade e progressão do câncer

Experimentos de laboratório realizados por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) identificaram que pequenas estruturas liberadas pelo tecido adiposo de pessoas com obesidade podem aumentar a capacidade de células de câncer de mama se movimentarem e atravessarem barreiras que simulam componentes dos tecidos. Os estudos revelaram que houve  alterações no uso de energia pelas células envolvidas nesses efeitos. Os resultados ajudam a compreender como o tecido adiposo pode influenciar o comportamento das células tumorais.

À frente da linha de pesquisa “Obesidade, câncer e vesículas extracelulares: alvos moleculares no microambiente tumoral” está a professora Mariana Renovato Martins, do Instituto de Biologia e coordenadora do Laboratório de Inflamação e Metabolismo da UFF. O grupo reúne também pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

No mês do Outubro Rosa e do Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, a investigação chama atenção para uma dimensão dessa relação: o tecido adiposo participa de uma comunicação capaz de modificar o funcionamento de células tumorais. Compreender como isso acontece pode fornecer bases para futuras pesquisas sobre a doença.

Para além do armazenamento de gordura

O tecido adiposo é conhecido por armazenar gordura, mas também por produzir e liberar moléculas que atuam em diferentes partes do organismo. Na obesidade, alterações metabólicas e inflamatórias nesse tecido podem modificar o conteúdo das estruturas que ele libera.

Entre elas estão as vesículas extracelulares, pequenas estruturas envolvidas por uma membrana e capazes de transportar proteínas, gorduras e outras moléculas. As partículas funcionam como pequenos pacotes enviados pelas células, que ao interagir com outras, podem transmitir sinais e fornecer componentes que alteram seu funcionamento. “São estruturas que comunicam uma célula com outra no organismo”, resume Mariana.

A pergunta do grupo é o que acontece quando esses “pacotes”, liberados pelo tecido adiposo de pessoas com obesidade, entram em contato com células de câncer de mama. Para responder ao questionamento, os pesquisadores precisam observar tanto o comportamento celular  quanto os mecanismos que sustentam suas mudanças.

O  processo de investigação começa com pequenas amostras de tecido adiposo humano, coletadas durante cirurgias, com consentimento dos participantes e aprovação ética. Nos estudos publicados, foram comparados materiais de pessoas com e sem obesidade. 

“Os fragmentos são levados ao laboratório e mantidos em condições controladas, onde continuam liberando substâncias em um líquido de cultivo. Depois pegamos aquilo que ele secretou e isolamos as vesículas extracelulares, que são colocadas em contato com células tumorais cultivadas. A partir daí, a comparação permite investigar se a origem das vesículas altera seus efeitos e quais características das células são modificadas”, explica Mariana.

A equipe observa, então, se elas passam a se multiplicar, se movimentar mais ou atravessar uma barreira experimental com maior facilidade. Também analisa mudanças no metabolismo, isto é, nos processos pelos quais as células utilizam nutrientes e produzem energia.

Em um estudo publicado em 2020 pelo grupo de Mariana na revista Endocrine-Related Cancer, os pesquisadores examinaram duas linhagens de câncer de mama com características diferentes. As vesículas do tecido adiposo de pessoas com obesidade aumentaram o potencial de multiplicação das duas linhagens. Na mais agressiva, chamada MDA-MB-231, também ampliaram a migração e a invasão celular.

Essas duas últimas características são importantes porque participam do processo de disseminação do câncer. Nos testes, porém, o grupo observa etapas específicas: o deslocamento das células e sua capacidade de atravessar uma barreira experimental. “As células cultivadas ganham mais mobilidade e migram mais”, acrescenta a pesquisadora. Nesse teste, isso significa que elas se deslocam mais pela superfície de cultivo, avançando sobre uma faixa inicialmente sem células.

Como as células utilizam o que recebem?

Depois de observar as mudanças, a equipe procurou entender quais componentes das vesículas contribuíam para o aumento da multiplicação e da capacidade invasiva das células tumorais. Uma das pistas foi a leptina, hormônio produzido pelo tecido adiposo e identificado em maior quantidade nas vesículas de pessoas com obesidade analisadas no estudo de 2020.

A descoberta levou a outra pergunta: quanto dos efeitos observados dependia da quantidade desse hormônio? Em um trabalho publicado em 2025 na Frontiers in Oncology, o grupo utilizou uma substância que bloqueia o receptor da leptina, impedindo que seu sinal seja reconhecido pela célula. Nos testes realizados com uma linhagem específica, o bloqueio reverteu determinados efeitos das vesículas, incluindo o aumento da migração e da invasão nas condições examinadas.

Apresentação de estudo sobre o papel da leptina na comunicação entre tecido adiposo e células de câncer de mama. Foto: Mariana Renovato

O artigo também relacionou o aumento da migração ao uso de ácidos graxos, componentes das gorduras, como fonte de energia. A equipe identificou mudanças na organização das mitocôndrias, estruturas envolvidas na produção de energia celular, nas células tumorais expostas às vesículas do tecido adiposo de pessoas com obesidade.

“Quando recebem essas vesículas, as células tumorais adaptam seu metabolismo para aproveitar o conteúdo delas e produzir mais energia”, explica Mariana. Dessa forma, a investigação conecta o conteúdo transportado pelas vesículas à maneira como as células tumorais utilizam nutrientes e se movimentam.

A equipe também estudou os efeitos em um modelo menos agressivo de câncer de mama. A pesquisadora explica que as vesículas do tecido adiposo de pessoas com obesidade aumentaram a migração e a invasão das células tumorais desse modelo. “Os efeitos foram associados à sinalização de outra molécula, o TGF-β, e à utilização de gorduras para produzir energia”, relata Mariana.

Os trabalhos examinam mecanismos diferentes e reforçam a importância de comparar as respostas das células. A participação da leptina não explica, sozinha, toda a comunicação investigada pelo grupo.

“Observamos que não é uma via só que leva à migração. Caso uma seja inibida, esse tipo de câncer escolhe outra. Eu tenho vários alunos trabalhando com vias diferentes e vemos que a célula fica plástica, porque pega aquele conteúdo e usa a favor dela para migrar mais”, explica a professora.

Da descoberta no laboratório às próximas perguntas

Mariana ressalta que identificar mecanismos em células é uma etapa diferente de verificar sua utilidade no acompanhamento ou no tratamento de pacientes. Os resultados atuais fornecem bases para novas investigações, mas a passagem para aplicações clínicas exige outros estudos. “É muito cedo para falar em prognóstico, tratamento. Num primeiro momento, estamos descobrindo coisas”, destaca.

Uma etapa futura exigiria relacionar as características das vesículas à evolução da doença em pessoas, com acompanhamento clínico, grupos de comparação e novas parcerias com serviços de saúde. “Teríamos que pegar a vesícula, acompanhar o paciente e ver como está a evolução, caso a caso. Para isso, precisaríamos de, pelo menos, quatro grupos de pacientes: obesos com e sem câncer; não-obesos com e sem câncer”, explica. 

Para a pesquisadora, compreender o ambiente em torno das células tumorais pode ajudar a formular perguntas sobre suas diferentes respostas. É uma perspectiva de investigação que considera o metabolismo e a inflamação como partes da complexidade do câncer. “A mesma célula tumoral vai se comportar de forma diferente dependendo de cada indivíduo, pois cada um é um ambiente diferente”, conclui Mariana.

_________________________________________

Mariana Renovato Martins atua como professora adjunta na Universidade Federal Fluminense no Instituto de Biologia, chefe do Laboratório de Inflamação e Metabolismo. Bolsista do Programa Cientista do Nosso Estado FAPERJ e Bolsista de Produtividade em Pesquisa 2 do CNPq. Foi bolsista do Programa Jovem Cientista do Nosso Estado FAPERJ (2022-2025). Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2005), mestrado em Biologia (Biociências Nucleares) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2008) e doutorado em Biociências pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2012). Parte do doutorado foi realizado no Centre de Recherche des Cordeliers (CRC), Sorbonne Université, campus Pierre et Marie Curie (Paris 6). É Pesquisadora colaboradora no Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (UFRJ) e no laboratório de Farmacologia Celular e Molecular (UERJ). Tem experiência na área de Imunofarmacologia celular e molecular, sinalização celular, metabolismo e doping no esporte, atuando principalmente nos seguintes temas: Metabolismo energético, câncer, obesidade, inflamação do tecido adiposo e doping no esporte.

Acessar o conteúdo