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Vozes da SBPC: Microplásticos e nanoplásticos na saúde e doenças humanas

Conferência do evento recebe Vitor Francisco Ferreira, professor da UFF, para refletir sobre os perigos dos polímeros no ecossistema

Copos, pratos, talheres, sacolas de supermercado, inúmeros são os objetos consumidos que são produzidos majoritariamente por plásticos presentes no cotidiano. O uso abundante, o descarte irregular e os 450 anos de degradação fazem com que os descartáveis circulem pelas águas e oceanos se chocando e formando grandes ilhas plásticas. Com o tempo são corroídas e fragmentadas pelo sol e correntes marinhas, liberando milhares de microplásticos no meio ambiente. 

Na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sediada na Universidade Federal Fluminense (UFF), entre os dias 26 de julho e 1° de agosto, o professor do Departamento de Tecnologia Farmacêutica da UFF, Vitor Francisco Ferreira, comandará a conferência “Microplásticos e Nanoplásticos na Saúde e Doenças Humanas” para discutir os problemas dos micros polímeros no ecossistema.

O pesquisador será homenageado na abertura da reunião da SBPC por suas contribuições para o desenvolvimento da educação, ciência e tecnologia no país. Ferreira também está presente na lista dos oito pesquisadores da UFF mais influentes no planeta.

Como os microplásticos e nanoplásticos se tornaram uma grande questão para o desenvolvimento humano?

Vitor Francisco Ferreira: Não existe um olhar para o meio ambiente e para as pessoas quando uma tecnologia é criada.  O plástico foi inventado há mais de 100 anos e, na época, não foi pensado que ele poderia gerar pequenas partículas chamadas de nanoplástico ou microplástico – a diferença entre eles depende apenas do tamanho. Não pensaram que isso iria acontecer, mas o plástico tomou conta da nossa vida. Ele é derivado do petróleo e, conforme a produção do combustível fóssil foi aumentando, maior foi a quantidade de plástico que apareceu no nosso cotidiano. Hoje, não conseguimos pensar em viver sem plástico, usamos para embalagens e diversas outras coisas. Basta entrar no supermercado para ver a quantidade de plástico presente lá dentro.

Quando esse material foi feito, não inventaram o seu processo de mitigação, ou seja, processos de recuperação ou reaproveitamento. Isso acontece com pneus, plásticos e as substâncias perfluoradas e polifluoroalquiladas, os chamados PFAS. Estes últimos são ainda piores que os microplásticos. Existem mais de 4.700 dessas substâncias contaminando o mundo todo, e elas são eternas, sendo chamadas na literatura de “Forever Chemicals”. Desenvolvem-se tecnologias sem pensar no meio ambiente, e depois as pessoas têm que tentar mitigar os problemas.

Como o descarte de materiais plásticos se transforma no problema dos microplásticos e nanoplásticos? 

Vitor Francisco Ferreira: O problema do plástico se tornou imenso, a ponto de existirem ilhas de plástico. Os macroplásticos são aqueles de tamanho grande, como embalagens de shampoo e sacolas de supermercado, que vão para o meio ambiente e para os oceanos. Essas substâncias duram de 400 a 500 anos e, antes de sofrerem o processo de decomposição, passam por um processo de quebra promovido principalmente pela luz solar, como o pregador de roupa que fica ressecado e quebradiço no varal sob os raios ultravioleta. No mar, isso representa um grande problema. Existem ilhas de plástico, como a que tem o tamanho do estado do Texas e fica localizada entre a Califórnia e o Havaí. Os plásticos vão batendo uns nos outros e se quebrando em pedaços cada vez menores até chegar ao tamanho nano. Isso acaba entrando na cadeia alimentar por meio da água dos rios, dos peixes que você consome e dos animais que bebem água contaminada.

O ambiente inteiro está inundado de microplástico: no Alasca, nos polos Norte e Sul, na água potável e nos alimentos. Todos nós estamos contaminados com microplásticos. Estima-se que consumimos entre 39 mil e 52 mil microplásticos por ano. Os plásticos estão presentes em uma quantidade alarmante e provoca uma ameaça gigante à saúde do ecossistema e dos seres vivos.

Existem 5 grandes ilhas de plástico, localizadas nos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico Foto: The Ocean Cleanup/Reprodução

Qual é a dificuldade de enfrentar um problema que é invisível a olho nu?

Vitor Francisco Ferreira: É muito complexo. Por exemplo, purificar a água ao nível de retirar essas partículas a tornaria muito mais cara, pois seria necessário usar métodos térmicos, fototérmicos ou eletroanalíticos para destruir as partículas. A água encanada potável, como a que chega em nossas caixas d’águas, carrega microplásticos porque o processo de filtração atual não retém partículas que variam de 5 milímetros a 1 nanômetro. Eles filtram as impurezas maiores, semelhante a como fazemos com o pó de café, mas não tiram metais pesados, PFAS ou microplástico.

Essa diferença de partículas capturadas é muito grande e para identificar e isolar os nanoplásticos é necessário um equipamento especializado de alto custo. 

Os estudos apontam que os polímeros atuam como esponjas químicas, absorvendo poluentes orgânicos e metais pesados pelo ambiente. Quais são os perigos dessas toxinas serem transportadas diretamente para nossas células?

Vitor Francisco Ferreira: O nanoplástico é pior porque ele é menor do que os componentes celulares, conseguindo atravessar a membrana da célula. O polietileno é um dos polímeros mais perigosos e produzidos em abundância. Ele é formado apenas por uma cadeia de carbono e hidrogênio. A queima gera apenas calor, pois sua composição química é semelhante à do carvão e não tem outros elementos para contaminar o ambiente. Já o poliestireno, o nylon e outros plásticos possuem funções e compostos químicos que, quando queimados, geram produtos tóxicos que podem interagir com as biomoléculas do nosso organismo, como proteínas e enzimas.

O poliestireno possui um anel aromático benzênico, e vale lembrar que o benzeno é cancerígeno. Ele pode interagir com as células por empacotamento pela ligação chamada “pi-stacking”. Isso é semelhante ao funcionamento de medicamentos. Quando tomamos uma aspirina, que também possui anel aromático, esperamos que ela entre no organismo e interaja com enzimas e proteínas. O problema é que eliminamos milhares de toneladas de fármacos no meio ambiente pela urina e pelas fezes. Tomar um medicamento pode ser bom para a pessoa, mas o resíduo químico volta de forma prejudicial para os animais, plantas e para o próprio ser humano. Como exemplo recente, na Índia, milhares de urubus morreram após comerem carne de gado que estava contaminada com o anti-inflamatório diclofenaco, princípio ativo presente no Cataflam e no Voltaren.

Diversas pesquisas já identificaram a presença de nanoplásticos em tecidos humanos, incluindo a placenta. Existe alguma estimativa do impacto que isso pode causar na saúde e no desenvolvimento do feto e de recém-nascidos?

Vitor Francisco Ferreira: A primeira etapa das pesquisas mundiais focou na detecção de onde existe a presença do microplástico. Uma segunda etapa das pesquisas começou a detectar o material no pulmão, cérebro, artérias, urina, placenta e nas fezes. O grande problema é descobrir quais doenças isso pode gerar. 

É muito complicado associar uma determinada doença ao microplástico de imediato, pois é necessário um estudo de caso muito grande para confirmar a relação de causa e efeito, além disso é uma pesquisa muito cara de realizar. Seria necessário analisar um número enorme de pessoas, como agrupar 5.000 placentas, verificar o índice de contaminação em todas elas, observar se os fetos desenvolveram problemas de saúde ao longo do tempo e cruzar todas essas variáveis. 

O único grande estudo de que tenho conhecimento foi feito por mais de 500 médicos e pesquisadores, que analisaram coágulos da aorta e constataram que 60% deles continham microplásticos. No entanto, não se sabe ainda se foi o plástico que iniciou a formação do coágulo ou se ele foi apenas absorvido porque o sangue já continha o material.

Vitor Francisco Ferreira, ao centro, com equipe do Instituto de Química da UFF. Foto: Divulgação

Existem evidências comprovando que alternativas sustentáveis oferecem menos riscos a longo prazo quando se quebram?

Vitor Francisco Ferreira: Um ótimo exemplo de bioplástico é o Poliácido Láctico (PLA), que é muito utilizado em impressoras 3D, inclusive nos laboratórios. Ele deriva do ácido lático, o mesmo presente no iogurte e que é produzido pelo tecido muscular humano. Quando o PLA se degrada, ele volta a ser ácido lático, que é uma substância endógena e não tóxica. É um substituto muito eficiente, porém é incomparavelmente mais caro que o polietileno ou o poliestireno.

Existem alternativas, porém são mais caras, como o plástico biodegradável e polímeros derivados de amido. A implementação de subsídios governamentais poderia ajudar a baratear essas opções, porém a melhor saída seria a criação de políticas duras para reduzir o uso de plástico e penalizar o desperdício, para que nos tornemos uma sociedade menos dependente do plástico.

O que pode ser feito em termos de políticas públicas para diminuir os riscos, mesmo com grandes corporações tentando frear essas ações?

Vitor Francisco Ferreira: Se os grandes competidores do mercado não frearem, uma cidade sozinha, como Niterói, não conseguirá enfrentar o problema. É uma questão de governança mundial. Diminuir a quantidade de macroplástico consequentemente exige a diminuição da produção de petróleo. As companhias petrolíferas não querem debater a redução, como foi visto na COP 30, e o comitê internacional é extremamente vulnerável a pressões políticas. 

Em todas as 30 COPs, não houve sequer uma restrição firme à produção de combustíveis fósseis. Nós vivemos um paradoxo esquizofrênico: tentamos controlar e diminuir o uso de combustíveis fósseis, mas, ao mesmo tempo, os países procuram mais petróleo. O Brasil está procurando mais no Amapá, e os Estados Unidos demandam cada vez mais da commodity para manter sua economia carbonizada funcionando. 

Já sofremos com poluição severa pelo uso do carvão na Revolução Industrial, até o petróleo substituí-lo em grande escala. No fim, é uma questão de princípios. Eu não coloco combustível fóssil no meu carro, abasteço apenas com etanol, que é uma fonte renovável, pois não posso dar aula de sustentabilidade, defendendo o fim do combustível fóssil enquanto consumo derivados do petróleo.

O que podemos fazer coletivamente para frear o problema do microplástico? 

Vitor Francisco Ferreira: Eu uso apenas pratos de papel e garfos de madeira. Também levo minhas próprias sacolas para o supermercado. Existem opções mais biodegradáveis para objetos básicos do cotidiano que corriqueiramente consumimos na versão de plástico. No próximo churrasco, não usem pratos de plástico. É possível comprar pratos de papel na internet e eles funcionam muito bem e, em até três meses, estão totalmente decompostos, pois celulose é cem por cento biodegradável.

Qual a importância de utilizar encontros acadêmicos como a SBPC, que aproximam a ciência da sociedade, para debater sobre esse tema? Além disso, qual é o papel dos pesquisadores na hora de divulgar e contribuir com reflexões relacionadas às mudanças climáticas do planeta?

Vitor Francisco Ferreira: Utilizar encontros científicos como os promovidos SBPC para discutir os microplásticos é particularmente importante porque o tema reúne características que favorecem a desinformação: trata-se de um problema complexo, interdisciplinar, em rápida evolução científica e com impactos potenciais sobre a saúde humana, os ecossistemas, a economia e as políticas públicas. Em um cenário em que novas descobertas são divulgadas com frequência, é essencial que a sociedade tenha acesso a informações contextualizadas e baseadas em evidências.

O papel dos pesquisadores na divulgação e na promoção de reflexões sobre o aquecimento global é muito mais amplo do que apenas produzir artigos científicos. Em um contexto em que as mudanças climáticas afetam a saúde, a biodiversidade, a segurança alimentar, a economia e a estabilidade social, os cientistas têm uma responsabilidade ética e social de contribuir para que o conhecimento científico seja compreendido e utilizado pela sociedade e pelos tomadores de decisão.

Nesta reunião, o senhor participará de uma homenagem pela sua contribuição para o desenvolvimento da ciência brasileira. Qual o tamanho do significado de conquistar o reconhecimento pelos anos de trabalho prestados?

Vitor Francisco Ferreira: Receber uma homenagem na reunião da SBPC é uma honra que transcende o reconhecimento individual. Vejo essa distinção como um reconhecimento ao trabalho coletivo desenvolvido ao longo de muitos anos ao lado de estudantes, orientandos, colegas, técnicos e instituições que acreditam na ciência como instrumento de transformação da sociedade.

A entrada na Reunião Anual da SBPC é livre e gratuita para todas as atividades. Há cobrança apenas para inscrição em minicursos e webminicursos, aquisição opcional do material do evento e apresentação de trabalhos aprovados na Sessão de Pôsteres.

A programação preliminar, assim como informações sobre inscrições está disponível no site oficial da 78ª Reunião Anual da SBPC: https://ra.sbpcnet.org.br/78RA/.

Vitor Francisco Ferreira é Professor Titular Livre do Departamento de Tecnologia Farmacêutica da Universidade Federal Fluminense. É pesquisador do 1A do CNPq, Cientista do nosso Estado (desde sua primeira edição) e membro Titular da Academia Brasileira de Ciências. Possui graduação em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro-IQ (1976), Mestrado em Química de Produtos Naturais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro-NPPN (1980), doutorado em Química Orgânica – University of California San Diego (1984) e pós-doutorado pela University of Oklahoma (1997). Foi Professor Titular do Departamento de Química Orgânica da Universidade Federal Fluminense entre 1986-2017 e foi um dos criadores do programa de Pós Graduação em Química (1990). Foi incluído na lista de 2020 como um dos cientistas mais influentes do mundo pela revista Plos Biology. Foi incluído na lista dos cientistas mais influentes do mundo 2021 e 2022,organizada pela Stanford University. Incluído entre os 8 pesquisadores da UFF que são os mais influentes do planeta. Foi agraciado com o título de Professor Emérito, por indicação do Instituto de Química, pelo Conselho Universitário (CUV/UFF No 207 de 06/07/2023). Em setembro de 2024 recebeu “BMOS AWARD 2024” do 19th Brazilian Meeting in Organic Synthesis.

Por Guilherme Neves.
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