Jogo do Cuidado. Foto: Beatriz Corbacho
Um tabuleiro que percorre a Central do Brasil, os bairros da Gamboa, Saúde e Santo Cristo, além de locais como a Praça Mauá, a Cidade do Samba e a favela da Providência. Dez personagens com histórias, idade, raça, orientação sexual e condições socioeconômicas distintas enfrentam situações relacionadas ao trabalho, à moradia e ao cuidado com outras pessoas. Essa é a base do “Jogo do Cuidado – um jogo sobre o direito à cidade das mulheres”, iniciativa criada por pesquisadoras da Escola de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). A proposta traduz para o ambiente escolar uma investigação que discute como o trabalho de cuidado atravessa a vida urbana e influencia a maneira como as cidades são produzidas.
A dinâmica do jogo, que teve seu site lançado nesta primeira semana de março, nasce de um debate mais amplo sobre como os estudos urbanos têm interpretado a cidade. A iniciativa é um desdobramento do projeto de pesquisa “Inversões Urbanas: cartografias da reprodução social dos territórios”, coordenado pela professora Rossana Brandão Tavares e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) por meio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE), entre 2022 e 2025.
O estudo propõe deslocar o olhar tradicional da arquitetura e do urbanismo. Segundo Rossana, a ideia de inversão busca questionar o modo como essas áreas historicamente estruturaram suas referências e prioridades. “Essa perspectiva diz respeito à ideia de colocar em foco a invisibilidade que existe em nosso campo de estudo sobre as concepções heteronormativas e patriarcais na forma como historicamente a produção do conhecimento é estruturada.”
Para a pesquisadora, ao não considerar as desigualdades de gênero como parte estruturante da análise urbana, os estudos acabam reproduzindo essa invisibilidade. Nesse contexto, a proposta do projeto é partir das experiências concretas das mulheres nas cidades. “Buscamos radicalizar nossa perspectiva de pesquisa priorizando nosso olhar a partir dos corpos e experiências das mulheres nas cidades, como modo de tensionar metodologicamente os estudos urbanos.”
Segundo a pesquisadora, o objetivo do jogo não se restringe ao uso didático. “A dinâmica foi pensada para apoiar atividades pedagógicas em sala de aula, mas o jogo é fruto de uma investigação sobre a vida cotidiana das mulheres na cidade, atravessada pelo trabalho do cuidado. Ele traduz as contradições da reprodução social no território.”
Como funciona?
O tabuleiro representa a área portuária do Rio de Janeiro e suas regiões são classificadas economicamente e também em relação à presença de estruturas de apoio ao cuidado. Essas classificações são fictícias, mas baseadas no conhecimento produzido pela pesquisa sobre os bairros da região. Na dinâmica do jogo, cada participante assume uma personagem. “Cada jogador sorteia uma personagem, que representa diferentes grupos existentes na sociedade. Cada grupo tem seus desafios no cotidiano, sejam econômicos, sociais ou de cuidado. Há mulheres, homens, heterossexuais e LGBTs. O tabuleiro representa a área portuária da cidade do Rio de Janeiro e suas regiões são classificadas economicamente e em relação ao cuidado”.
As condições iniciais de cada personagem são definidas pelas cartas. “São distribuídas as cédulas econômicas e de cuidado de acordo com a carta de cada personagem. Ao longo da partida, cartas compradas a cada rodada determinam as ações e os eventos enfrentados pelas personagens. As cartas de direitos, coringa, sorte e revés são embaralhadas e colocadas em uma única pilha. Elas ditam a dinâmica do jogo e são compradas rodada a rodada”, explica Rossana.
A pesquisadora explica que as cartas representam diferentes situações da vida urbana. As cartas de sorte indicam consequências positivas, enquanto as de revés trazem efeitos negativos. O impacto dessas situações, no entanto, não é igual para todas as personagens: ele varia conforme o grupo social representado por cada uma. “As coringas oferecem a oportunidade de as personagens se mudarem de região ou ajudarem outras personagens.”

Jogo do Cuidado. Foto: Eric Lobo
Entre as cartas, também aparecem equipamentos urbanos, ou seja, bens públicos ou privados de uso coletivo, essenciais para o funcionamento, serviços e qualidade de vida nas cidades. “Essas cartas são as de direitos e funcionam como apoio para as atividades de cuidado. Trazem benefícios coletivos e impactam todos os moradores da zona da jogadora ou jogador que comprou a carta”, explica a coordenadora. Além disso, a mudança de moradia pode fazer parte da estratégia do jogo. “Há também a possibilidade de se mudar como jogada. Também é possível ir para uma moradia que esteja em uma ocupação popular, caso a personagem esteja passando por dificuldades financeiras”, complementa. A partida termina quando todas as cartas são utilizadas.
O manual de instruções do jogo inclui perguntas e propostas de discussão que podem ser utilizadas por professores em sala de aula. A intenção é estimular reflexões sobre desigualdades sociais e o cotidiano urbano a partir da experiência interativa.
Inversões urbanas: analisando o Porto Maravilha a partir da reprodução social
Rossana explica que a pesquisa se apoia na teoria da reprodução social para analisar as dinâmicas urbanas. “A reprodução social é o processo amplo e estrutural de manutenção de toda a sociedade capitalista. Diz respeito ao trabalho do cuidado, mas também inclui aspectos que garantem a manutenção e reproduzem a força de trabalho necessária.”. A partir dessa perspectiva, “o cuidado deixa de ser entendido apenas como atividade doméstica ou privada, considerando que o olhar para a reprodução social tem nos dado suporte para as análises das contradições urbanas a partir do cotidiano das mulheres, sobre como sistemicamente se estruturam dinâmicas que garantem a produção social”, acrescenta a pesquisadora.
Foi partindo dessa premissa que a pesquisa foi desenvolvida na região portuária do Rio de Janeiro, área que passou por transformações urbanísticas nas últimas décadas com o projeto Porto Maravilha. Apesar das intervenções urbanas, a região ainda apresenta desigualdades sociais expressivas. “Observamos que a reestruturação urbana coexistiu com formas persistentes, e em alguns casos agravadas, de precariedade habitacional, insuficiência de equipamentos públicos e instabilidade das redes locais de assistência social.”
Nesse contexto, a pesquisa identificou relação direta entre precariedade urbana e sobrecarga de cuidado. A pesquisadora aponta que “mulheres, sobretudo negras e de baixa renda, seguem assumindo a maior parte do trabalho de cuidado em condições de infraestrutura deficitária, maior tempo de deslocamento e acesso precário à saúde, educação e assistência”.
O trabalho de campo incluiu observação participante e encontros semanais com mulheres moradoras de ocupações na região, em atividades realizadas em parceria com pesquisadoras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Esses encontros permitiram acompanhar relatos sobre moradia, trabalho, saúde e as dificuldades enfrentadas no período pós-pandemia.
Quando o cuidado entra no planejamento urbano
A pesquisa também discute como a incorporação do cuidado nas análises urbanas pode influenciar políticas públicas. “Quando o cuidado passa a ser tratado como uma questão urbanística de política pública, e não apenas privada ou familiar, o planejamento abre caminhos concretos para reorientar políticas urbanas e práticas de projeto urbano”, analisa a coordenadora.
Segundo a docente, a forma como a cidade é planejada muda quando o cuidado passa a ser considerado um elemento central. “Essa mudança implica rever, por exemplo, as políticas de moradia popular, que são comumente pensadas segundo o ideal de família heteronormativa”, pontua.
Assim, na análise de Rossana, o desafio agora é superar a separação entre produção econômica e reprodução da vida. “É uma questão epistemológica escapar da dicotomia entre produção e reprodução e construir um processo teórico-metodológico que evidencie as sobreposições e interseccionalidades presentes nos processos que geram as desigualdades, em especial de gênero e raça.”
Ao transformar resultados de pesquisa em uma ferramenta pedagógica, o projeto busca ampliar o debate para além da universidade. O jogo, nesse sentido, funciona como um ponto de partida para discutir com estudantes como desigualdades sociais se manifestam no espaço urbano e como diferentes grupos experimentam a cidade de maneiras distintas.
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Rossana Brandão Tavares é Professora Dra. Adjunta da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense, Professora Permanente PPGAU/UFF. Possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela EAU/UFF (2003), especialização e mestrado em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ (2004 e 2007) e doutorado em Urbanismo pelo PROURB/UFRJ (2015). Tem experiência profissional e docente nos temas de gênero, feminismos, habitação, saneamento ambiental, projeto e planejamento urbano. Trabalhou 8 anos na ONG FASE RJ – Programa Direito à Cidade, acumulando prática em educação e participação popular. Também realizou assessorias a órgãos internacionais e do poder legislativo. Atualmente coordena através do Urb.Anas/GPDU/UFF o Projeto de Pesquisa Inversões Urbanas: cartografias da reprodução social dos territórios, financiado pelo FAPERJ – bolsa Jovem Cientista do Nosso Estado. Vem desenvolvendo investigações sobre corpo, reprodução social, trabalho do cuidado, precariedade, assim como, perspectivas teórico-metodológicas na arquitetura e urbanismo a partir das teorias feministas e de gênero, com parcerias de pesquisa no Brasil, Argentina e Espanha.

