Hoje, 49% das assinaturas em pesquisas científicas no Brasil são femininas, segundo dados divulgados pela Elsevier-Bori. Lançado em 2024, o levantamento colocou o país em terceiro lugar no ranking mundial de mulheres pesquisadoras. Ainda assim, esse protagonismo não tem destaque no cotidiano de escolas e universidades, sobretudo na educação básica, onde o imaginário sobre quem faz a ciência começa a ser criado. É neste intervalo entre números e realidade que nasce o projeto Meninas e Mulheres na Ciência (MMC), do Colégio Universitário Geraldo Reis, vinculado à Universidade Federal Fluminense (Coluni-UFF).
A iniciativa se dedica a ampliar a participação feminina na área científica ao oferecer referências, novas experiências, autonomia e protagonismo desde os anos do ensino básico. E, em 11 de fevereiro, data mundial homônima ao projeto, a luta das mulheres é ainda mais enfatizada e valorizada.
“Enquanto perguntarmos a uma criança ou adolescente qual cientista eles conhecem e a resposta for ‘Albert Einstein’, ainda temos trabalho a fazer”, conta Gisele Miranda, coordenadora da ação e professora de Química no Coluni-UFF.

O grupo de bolsistas e voluntários no MMCColuniUFF conta com estudantes desde o ensino básico à graduação. Foto: Instagram/Reprodução
Desde a educação básica à graduação
Ainda em 2020, à frente de um Programa de Pré-Iniciação Científica Júnior da UFF (Pibiquinho), a professora Gisele notou a importância de incluir mais garotas na prática de fazer ciência, desde artigos a experimentos químicos. A partir desse desejo, foi criado o projeto Meninas e Mulheres na Ciência do Coluni-UFF, que se iniciou com três alunas da educação básica, dos Ensinos Fundamental e Médio, além do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), que contava também com alunos da graduação em Biologia e Química.
O processo envolvendo as alunas do Coluni-UFF trouxe o potencial para desenvolver outros trabalhos sobre o tema de protagonismo feminino e equidade na ciência. Em 2021, conta a professora, surgiu a primeira oportunidade de um edital da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), que incorporou as ações do MMCColuniUFF na escola junto à outra coordenadora, Ana Paula Pereira, professora de Matemática, também no Coluni-UFF e uma bolsista de graduação em química da UFF, Victoria Alves.
“O projeto surge da necessidade de criar um espaço em que as meninas pudessem se reconhecer como pertencentes ao universo das ciências. Quando a pessoa se sente insegura para determinada ação ou não se vê naquele lugar, é retirado dela o poder decisório e o que nós queremos com o MMCColuniUFF é devolver a possibilidade de escolha para as meninas”, ressalta Ana Paula.
No edital Faperj, a iniciativa recebeu uma bolsa de Iniciação Científica (graduação) e três bolsas jovens talentos (ensino básico), mas todos os 21 inscritos do Coluni-UFF entraram no projeto, como bolsistas ou voluntários. Para Gisele, a participação coletiva é a força que o projeto precisava para se aprofundar além das pesquisas inicialmente propostas. O objetivo era ampliar o conhecimento sobre mulheres cientistas que marcaram a história, porém pouco conhecidas. O MMCColuniUFF, no entanto, cresceu e passou de quatro para treze atividades simultâneas, além de contar com vários artigos escritos e publicados em revistas científicas e eventos acadêmicos.
“As ações estão diretamente relacionadas não só à popularização da ciência, mas ao empoderamento científico, que é aquilo que mais trabalhamos dentro do nosso projeto”, conta Gisele. “Há muitos grupos que discutem as questões gênero e ciência no ensino superior, mas as questões que nos tocam diretamente e impedem o desenvolvimento das meninas, começa desde cedo”, destaca. De acordo com a coordenadora, pesquisas mostram que meninas desde os seis anos de idade assumem um certo distanciamento de assuntos científicos.

Alunos do MMCColuniUFF – apresentando o projeto QuimiquinhaFlix no 35° Congresso Latino-Americano de Química (CLAQ 2022). Foto: Instagram/Reprodução
Mão na massa
As ações do projeto estão estruturadas em quatro pilares principais de atuação. Os pilares foram definidos com base nas práticas consolidadas do grupo, articulando objetivos pedagógicos, formativos e de divulgação científica. Eles sintetizam o propósito da iniciativa, que é o de promover o protagonismo feminino nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática (STEAM).
Assim, as atividades são baseadas em: Divulgação Científica, que engloba a criação de conteúdos em diferentes formatos para promover o protagonismo feminino na ciência e a popularização da ciência; Formação e Pesquisa, voltada ao aprofundamento teórico e metodológico sobre gênero e ciência; Vivências e Empoderamento Científico, que busca aproximar as estudantes de espaços e experiências científicas reais e estimular a participação ativa das alunas em olimpíadas e congressos; e Criação e Experimentação, que incentiva a criatividade e a autoria na produção de materiais didáticos e experimentais.
Todas as atividades do MMCColuniUFF articulam ensino, pesquisa, extensão, formação e divulgação científica. Com destaque para o Instagram do projeto, a rede social é usada para publicar conteúdos informativos, divulgar as atividades e valorizar o trabalho de mulheres na ciência, tanto as que entraram para a história, quanto para as garotas do Coluni.
“Isso exige um trabalho constante de orientação das alunas sobre como comunicar ciência. Existem mulheres cientistas, pesquisadoras, matemáticas, engenheiras, químicas, e essas trajetórias são possíveis”, conta Ana Paula. “Por isso trabalhamos com pesquisas biográficas de mulheres cientistas para que as meninas entendam que esse espaço também é delas”, explica Gisele.

O projeto conta com uma série de ações, como a apresentação de mulheres importantes para a ciência no mundo. Foto: Instagram/Reprodução
A iniciativa estimula a participação em olimpíadas em Química, Matemática, Raciocínio Lógico e Educação Financeira, que antes não faziam parte da cultura do colégio. As alunas participam da preparação, com seleção de provas, resolução de questões e vídeos explicativos publicados nas redes do projeto. Essa ação é desenvolvida com o título: Olimpíadas Científicas: Preparando Talentos, Expandindo Horizontes, em parceria com o professor Fábio Vinicius do Coluni-UFF. “No último ano, a escola participou de quatro olimpíadas externas, além de uma olimpíada interna de Química”, conta Gisele.
Nas primeiras análises dos dados coletados na pesquisa sobre o perfil dos estudantes do ColuniUFF acerca do tema “Gênero e Ciência na Educação Básica”, por meio de formulários aplicados aos estudantes, evidenciaram significativas diferenças comportamentais entre eles em função da ameaça pelo estereótipo de gênero. Identificou também o viés implícito, presente desde muito cedo na educação básica, que impacta diretamente sobre a performance e o aproveitamento acadêmico de meninas, reduzindo não só a participação durante as aulas, assim como a autoconfiança das participantes, especialmente nas disciplinas ciências da natureza e matemática.
O QuimiquinhaFlix – projeto de monitoria em formato diferenciado em que se organiza a produção de conteúdos de Química com atividades variadas (teórica e experimental) para que os estudantes acompanhem como uma série – também integra o conjunto de ações. O portfólio conta com conteúdos do primeiro e segundo ano do ensino médio. “Já apresentamos o trabalho em vários eventos e os alunos curtem muito a proposta”.
O MMCColuniUFF também desenvolve o projeto Práticas Inclusivas e Inclusão na Prática, que em 2025 , esteve voltado para estudantes do Coluni com altas habilidades e superdotação. Hoje, cinco estudantes fazem parte, desenvolvendo projetos direcionados às suas demandas individuais e áreas de interesse. Segundo a coordenadora, o projeto tem alunas que se interessam por diversas temáticas como jogos virtuais, vida marinha, animação e outras linguagens. “Nós fazemos pesquisas sobre os temas e buscamos a melhor estratégia para viabilizar um trabalho científico”.
Na área de divulgação científica, o quadro Ciência Descomplicada, disponível nas redes sociais do MMCColuniUFF, apresenta experimentos de ciências da natureza e matemática com o objetivo de contornar a desinformação. “Infelizmente, vemos experimentos na internet que não são reais ou não acompanham qualquer explicação. O nosso compromisso é apresentar tudo isso, de modo que o aluno faça a pesquisa, acompanhe o processo, grave e edite os vídeos”, resume Gisele.
Outro destaque é o canal de podcast Pod&Rosas, produzido com o apoio técnico e uso do estúdio da Plataforma Urbana Digital da Viradouro (PUD). Para o programa em áudio e vídeo, já foram entrevistadas pesquisadoras e ex-alunas do MMCColuniUFF .
Completam as ações do projeto, o Rolê Científico com Elas (RCE), uma série de vídeos em que as estudantes apresentam os espaços e exposições de ciências que visitam; o Festival Meninas e Mulheres na Ciência, que é realizado no Coluni-UFF anualmente no Dia Internacional do tema; e a Jornada Gênero e Ciência na Educação Básica.
O impacto para as meninas
Para as professoras, a vivência em projetos de pesquisa e extensão desde cedo é decisiva para a formação das alunas. Elas são as responsáveis por propor, executar e incentivar umas às outras ao longo dos processos e ações do MMCColuniUFF e a autonomia da experiência faz a diferença, porque prepara as estudantes e permite que elas se sintam pertencentes a espaços historicamente negados a elas. Aos poucos, as mudanças refletem na autoestima das garotas, que passam a se reconhecer como capazes e competentes.
“Elas criam uma firmeza e alimentam sonhos que podem ser realizados. Deixam de se sentir intimidadas diante de dinâmicas em sala de aula e assumem a liderança de outras atividades para além dos projetos de extensão”, afirma Gisele. Para Ana Paula, a mudança na postura, na autoconfiança e nas expectativas em relação ao futuro das garotas é perceptível, além do impacto na vida acadêmica. “Vemos várias bolsistas do projeto que conquistaram aprovações no vestibular e em cursos da área STEAM, que, antes de passar pelo MMCColuniUFF, sequer era uma possibilidade”.
As ações do projeto promovem a reflexão de toda a comunidade escolar, incentivam a equidade de gênero por meio de novas perspectivas comportamentais e criam espaços que favorecem o desenvolvimento das alunas. “Enquanto nós achávamos que muito do que acontecia em sala de aula tinha relação com a timidez, o que realmente precisávamos era de representatividade feminina. Esse é um processo que, estruturalmente, mudamos em conjunto”, aponta Gisele.

Produção do podcast Pod&Rosas, com contribuição técnica do PUD Viradouro. Foto: Instagram/Reprodução
Os estereótipos de gênero no ambiente escolar afetam diretamente as mulheres e meninas, ressalta a professora. Em situações cotidianas, como tirar dúvidas em sala ou realizar aulas práticas em laboratório, são os meninos que se colocam à frente, enquanto as garotas permanecem em silêncio. O comportamento recebe o nome de Ameaça pelo Estereótipo de Gênero: o medo constante de julgamentos. Elas não se afastam por acreditarem que os meninos não erram, mas porque sentem que não podem errar.
A percepção relatada pela professora foi confirmada em uma pesquisa realizada pelo MMCColuniUFF em 2023 no Coluni, com estudantes do Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio. Para questões como “Você tem vergonha de se colocar em sala de aula?” ou “Você tem medo de fazer perguntas?”, cerca de 70% dos 180 alunos responderam que sim. Destes, 63% eram mulheres. “Temos um número expressivo de meninas que, ao longo da sua jornada na educação básica, têm medo de se expressar e isso, sem dúvida, é um fator limitante no seu desenvolvimento”, aponta a professora.
Na etapa seguinte, os estudantes foram questionados a respeito de quem ou do que eles sentiam vergonha. Enquanto metade dos meninos afirmaram não ter vergonha de ninguém, por volta de 60% das meninas apontaram que tem vergonha dos meninos. “Eles vivem com a liberdade de ser quem são, enquanto as meninas convivem com a ameaça do estereótipo de gênero desde muito cedo”, resume Gisele.
Embora seja voltado para a participação feminina, garotos também participam do projeto, ainda que em menor número. “Eu acho extremamente saudável que meninos também discutam essa temática, porque não a resolveremos sozinhas”, celebra a professora.

Em 2025, o MMCColuniUFF promoveu a I Jornada GCEB – Gênero e Ciência na Educação Básica, no Coluni-UFF. Foto: Instagram/Reprodução
O projeto em números e em expansão
Em 2024, a ação MMCColuniUFF foi submetida ao edital Mais Ciência, formulado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para implementar nas escolas do país conhecimentos sobre letramento digital e educação científica nos ciclos básicos de instituições públicas. Em consórcio com mais três instituições, o Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), o Instituto Federal Fluminense (IFF) e a Fundação Cecierj, a UFF conquistou o primeiro lugar no programa e foi contemplada com fomento para implementar em 90 escolas no estado do RJ laboratórios maker, oferecer capacitação de bolsistas (docentes e estudantes da escolas) e orientar projetos de Educação STEAM e Cultura Maker. Neste projeto, as docentes coordenam as ações do Nó 3, que representa 30 escolas no estado fluminense, nas quais algumas das ações do MMCColuniUFF poderão ser replicadas.
Atualmente, a iniciativa conta com 23 bolsistas de educação básica, do ColuniUFF com recursos de diferentes fomentos, como CNPQ, FAPERJ, PIBIC e monitoria. Do total, 10 destes recebem bolsas do edital Mais Ciência na Escola e são do Ensino Fundamental 2. Para as outras 29 escolas, serão contemplados, em cada uma, mais 10 bolsistas da educação básica, majoritariamente do Ensino Fundamental 2, um professor orientador, que recebe acompanhamento da equipe do MMCColuniUFF, e mais quatro alunos de graduação que também receberão bolsas para contribuir com o projeto. “Estamos falando de um quantitativo de aproximadamente 300 alunos que recebem capacitação, desenvolvem projetos e podem se apresentar em feiras de ciência”, resume a coordenadora.
Essa metodologia abordada nas atividades do MMCColuniUFF é fundamental para o desenvolvimento das alunas, defende Ana Paula. “Historicamente, esses campos de conhecimento foram construídos para serem espaços masculinos”, afirma. “E isso, de certa maneira, faz com que muitas meninas deixem de sonhar ou de se sentir pertencentes a tais espaços. Elas deixam de escolher determinadas áreas, não por falta de capacidade, mas por medo, insegurança ou até mesmo por não se sentirem representadas naquele lugar.”
Agora, o Meninas e Mulheres na Ciência do Coluni-UFF, já cadastrado como projeto de extensão da universidade, está se consolidando e ampliando parcerias, o que permitirá ampliar o acesso às ações para o público externo. Para Gisele, a educação básica é fundamental, mas não suficiente para o desenvolvimento de crianças e jovens. “Meu desejo é que todos possam aproveitar as oportunidades como as que oferecemos no Coluni.”
Um reconhecimento importante do MMCColuniUFF foi sua inclusão no Catálogo de Tecnologias Sociais da UFF em 2025, um reconhecimento que reafirma a relevância social, educativa e transformadora das ações desenvolvidas ao longo dos anos.

Cerimônia de entrega do certificado de registro no Catálogo de Tecnologia Social da UFF. Foto: Instagram/Reprodução
Outra importante conquista de 2025 foi a obtenção de dois Selos ODS Educação, o primeiro com o Programa MMCColuniUFF e o segundo com o Projeto Práticas Inclusivas e Inclusão na Prática. As premiações demonstram como a iniciativa e a Universidade Federal Fluminense estão alinhadas com as ações com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.
Gisele dos Santos Miranda é doutora, mestre, especialista e graduada em Química pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É professora de Química em nível Fundamental, Médio e Superior, no Coluni-UFF e no PPECN-UFF e é coordenadora do projeto Meninas e Mulheres na Ciência-Coluni-UFF.
Ana Paula Cabral Couto Pereira é mestre, especialista e graduada em Licenciatura em Matemática pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutoranda pela Universidade Federal de Juiz de Fora. É professora de Matemática em nível de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico e é coordenadora do projeto Meninas e Mulheres na Ciência-Coluni-UFF.

