O Brasil registrou em 2025 o maior número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais da série histórica recente. De acordo com o Ministério da Previdência Social, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária, 15% a mais do que no ano anterior. Entre os diagnósticos que mais afastaram trabalhadores estavam os episódios depressivos, com 122.222 benefícios, e o transtorno depressivo recorrente, com mais 60.715.
Os números ajudam a dimensionar um fenômeno que ultrapassa a experiência individual. Se o trabalho ocupa uma parcela significativa da vida cotidiana, as condições em que ele é realizado também podem participar dos processos de sofrimento e adoecimento psíquico. É nesse ponto que entram os chamados riscos psicossociais do trabalho, relacionados a aspectos como organização das atividades, relações profissionais, jornadas, pressão, violência e assédio.
No Setembro Amarelo, o UFF Responde propõe ampliar essa reflexão: o que saúde mental tem a ver com trabalho? Para discutir a relação entre organização laboral , riscos psicossociais, sofrimento psíquico e prevenção, entrevistamos Bruno Chapadeiro Ribeiro, psicólogo e professor do Departamento de Planejamento em Saúde do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal Fluminense (UFF).
1. Em 2025, mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária foram concedidos pela Previdência Social em razão de transtornos mentais e comportamentais, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. O que um dado como este nos diz sobre a relação entre saúde mental e mundo do trabalho?
Os dados confirmam que problemas como ansiedade, depressão e estresse ocupacional têm gerado expressiva demanda previdenciária. Na série histórica, os afastamentos por saúde mental no trabalho mais do que dobraram, passando de 201 mil em 2022 para 472 mil em 2024.
Isso indica que o adoecimento psíquico está diretamente associado às condições laborais atuais. Em geral, cada benefício concedido representa uma vida impactada, mostrando a urgente necessidade de atenção à saúde mental no ambiente de trabalho.
2. O que são, afinal, os chamados riscos psicossociais do trabalho? E quais situações do cotidiano profissional podem ser compreendidas dessa forma?
Os riscos psicossociais são fatores do ambiente e da organização do trabalho capazes de afetar negativamente a saúde mental e física do trabalhador. Eles decorrem de deficiências na concepção, organização ou gestão do trabalho, bem como de um contexto social laboral problemático.
Entre as condições que podem gerar tais riscos estão a sobrecarga de trabalho, com carga excessiva de tarefas e pressão por resultados. Somam-se a isso demandas contraditórias e a falta de clareza nas atribuições, fatores que geram incerteza e conflito de papéis. Além disso, a limitação de autonomia e de participação impede o controle do trabalhador sobre a execução das tarefas e decisões importantes. Outros elementos críticos incluem a má gestão de mudanças organizacionais, a instabilidade e a precarização em vínculos inseguros, informais ou temporários. Por fim, destacam-se a comunicação ineficaz, a ausência de apoio social de chefias e colegas, além de situações de assédio moral, assédio sexual e violência psicológica.
3. Pressão por produtividade, excesso de trabalho, insegurança, falta de autonomia, assédio e violência psicológica são exemplos que costumam aparecer na discussão. Como essas experiências podem repercutir sobre a saúde mental de um trabalhador?
Essas situações podem desencadear graves consequências para o/a trabalhador(a). O esforço continuado sob demandas excessivas gera estresse crônico, que costuma evoluir para sintomas de esgotamento, ansiedade e depressão. Em casos extremos, pode chegar até a pensamentos suicidas.
De forma geral, as experiências negativas no trabalho, como assédio moral e violência psicológica estão diretamente ligadas ao adoecimento psíquico. Pesquisas mostram que o assédio moral no trabalho produz danos sérios à saúde mental, frequentemente manifestando-se em estresse intenso, depressão e burnout.
As condições laborais tóxicas, como sobrecarga, insegurança, falta de apoio e assédio, tornam-se fatores de risco para transtornos mentais,que reduzem o bem-estar e aumentam o sofrimento psicológico do/a trabalhador(a).
4. O mundo do trabalho mudou bastante nos últimos anos, com maior cobrança por desempenho, hiperconectividade e, em muitos casos, fronteiras cada vez mais difusas entre trabalho e vida pessoal. O que isso muda na relação das pessoas com o próprio trabalho?
O mundo do trabalho está mais demandante e conectado do que nunca, o que muda profundamente a relação das pessoas com seu trabalho. A hiperconectividade eleva o chamado “tecnostress”. Estudos apontam que o excesso de mensagens, reuniões digitais e o FOMO, sigla em inglês para o medo de ficar por fora, criam uma sensação permanente de sobrecarga.
Além disso, os modelos de trabalho pós-pandemia, como o home office e o trabalho híbrido, romperam ainda mais essas fronteiras. A exigência por resultados imediatos em qualquer horário, mantendo o trabalhador “sempre ligado”, faz com que muitos sintam dificuldade em se desligar do trabalho. Esse estado favorece a fadiga crônica, diminui o tempo de descanso e lazer e amplia o risco de esgotamento mental. Por fim, a demanda crescente por desempenho e a difusão da tecnologia no trabalho impõem aos profissionais um esforço cognitivo e emocional elevado, gerando maior estresse e ansiedade.

O Brasil registrou um aumento de 15% nos afastamentos por transtornos mentais em 2025, evidenciando o impacto das condições de trabalho na saúde psíquica. (Foto: Freepik)
5. Existe uma tendência de tratar ansiedade, depressão ou burnout como problemas que o indivíduo precisa aprender a administrar sozinho. O que se perde quando deixamos de olhar também para as condições em que esse sofrimento acontece?
Há uma tendência equivocada em tratar a ansiedade, a depressão ou o burnout como problemas puramente pessoais, a serem “gerenciados” pelo próprio trabalhador, por exemplo, com técnicas da chamada resiliência. No entanto, essa perspectiva esconde as causas organizacionais desses sofrimentos.
Quando focamos apenas na dimensão individual, perdemos a oportunidade de agir nas condições de trabalho que geram o adoecimento. Deixar de olhar para o ambiente laboral como fator contribuidor significa naturalizar ambientes tóxicos e responsabilizar o trabalhador pelo próprio adoecimento. Em vez disso, é necessário compreender que os transtornos mentais refletem a forma como o trabalho está organizado.
6. Quando falamos especificamente em suicídio, como o contexto de trabalho pode participar de uma trajetória de sofrimento sem que isso signifique atribuir ao trabalho uma causa única ou automática para a morte?
O suicídio é um fenômeno multifatorial, resultado da interação complexa entre fatores individuais, sociais e ambientais. O ambiente de trabalho pode atuar como gatilho ou agravante do sofrimento. Em casos de assédio severo, medo de perder o emprego ou sobrecarga excessiva, por exemplo, são situações que podem precipitar uma crise.
Nesse contexto, más condições laborais podem contribuir para trajetórias de sofrimento que levam ao comportamento suicida, mas sempre dentro de uma rede de causas interligadas.
7. Se a prevenção não pode depender apenas de ensinar o trabalhador a lidar melhor com situações adversas, o que empresas e instituições precisam mudar na própria organização do trabalho para reduzir os riscos psicossociais?
Elas precisam atuar no coração do problema: reorganizar o trabalho. Isso inclui revisar cargas e ritmos de trabalho, flexibilizar horários, garantir pausas adequadas e oferecer recursos e apoio social suficientes.
Ou seja, faz-se necessário implementar intervenções organizacionais, como ajustar metas, aumentar a autonomia e criar canais de escuta, em vez de sobrecarregar o indivíduo com treinamentos de resiliência.
8. Quando o Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção do suicídio, o que muda quando incluímos o trabalho e as condições em que as pessoas trabalham nessa conversa?
Incluir as condições de trabalho no Setembro Amarelo amplia a abordagem da prevenção para um caráter coletivo. A pauta deixa de ser somente “como o indivíduo lida com o sofrimento” para envolver também empregadores, sindicatos e políticas públicas na construção de ambientes saudáveis.
Isso significa discutir jornadas dignas, políticas de acolhimento, combate a riscos psicossociais e cultura organizacional de apoio, integrando a saúde mental no ambiente laboral. Em síntese, reconhece-se que transformar o trabalho e suas relações é parte da prevenção do suicídio.
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Bruno Chapadeiro Ribeiro é Professor adjunto do Instituto de Saúde Coletiva da UFF, com pós-doutorado pela EPM-Unifesp, doutorado pela Unicamp (com período na EHESS/Sorbonne) e mestrado e graduação em Psicologia pela UNESP. É diretor da ABERGO e da ADUFF, atuando com pesquisa e extensão em Psicologia Social do Trabalho, com foco em saúde mental relacionada ao trabalho, riscos psicossociais, assédio moral e perícias.
