Uma pesquisa desenvolvida no Hospital Universitário Antônio Pedro da Universidade Federal Fluminense (HUAP-UFF) analisou registros de internações pediátricas realizadas entre 1965 e 2024 por doenças imunopreveníveis, como tétano, sarampo, difteria, meningite, coqueluche e poliomielite. A série histórica revela que mais de 86% das mortes infantis associadas a doenças preveníveis por vacina ocorreram entre 1965 e 1985. Nas décadas seguintes, os óbitos caíram progressivamente até praticamente desaparecerem para enfermidades como tétano neonatal, sarampo e difteria devido à consolidação do Plano Nacional de Imunizações (PNI).
O levantamento inédito foi construído a partir de seis décadas de prontuários, fichas clínicas e registros hospitalares do Serviço de Doenças Infectoparasitárias do Hospital Universitário Antônio Pedro (DIP-HUAP) e publicado na revista científica Acta Tropica por pesquisadores do hospital universitário e da Faculdade de Medicina da UFF, liderados pela infectologista Patrícia Yvonne Maciel Pinheiro, chefe do DIP-HUAP, e pelo professor Ezequias Batista Martins.
A metodologia combinou análise retrospectiva de prontuários e fichas clínicas preservadas pelo serviço e, parte desse material foi registrado manualmente nas décadas iniciais e posteriormente incorporado a um banco de dados informatizado mantido pela infectologia do hospital.
Segundo os pesquisadores, a preservação desse acervo permitiu documentar de forma concreta os efeitos da consolidação do PNI na rotina hospitalar pediátrica. “Os dados mostram isso de maneira incontestável. O programa começou a se fortalecer nos anos 1970 e, conforme a cobertura vacinal aumentou, as mortes despencaram”, afirma Martins.

Da esq. para dir.: Ezequias Batista, Renata Artimos e Patricia Yvonne
O estudo também reúne diferentes gerações de pesquisadores ligados ao Serviço de Doenças Infectoparasitárias do HUAP-UFF. Além de Pinheiro e Martins, o artigo conta com a participação da pediatra e professora da UFF Renata Artimos, filha da infectopediatra Solange Artimos, médica que acompanhou durante décadas crianças internadas por doenças infecciosas no hospital e ajudou a preservar os registros históricos que deram origem à pesquisa.
“A pesquisa também carrega a trajetória de profissionais que viveram diretamente essa realidade dentro do hospital. A professora Solange acompanhou as crianças ao longo de 50 anos e ajudou a construir um acervo histórico que hoje permite mostrar concretamente o impacto da vacinação”, relata Martins.
Às vésperas do Dia Nacional da Imunização, celebrado em 9 de junho, o estudo reforça o impacto direto das campanhas vacinais na redução da mortalidade infantil e ajuda a dimensionar historicamente transformações que, hoje, muitas vezes parecem distantes da realidade brasileira, mas que seguem sendo risco à medida que a desinformação avança.
Levantamento histórico mostra desaparecimento progressivo de doenças fatais na infância
O estudo analisou 3.968 internações de crianças entre 0 e 10 anos no Serviço de Doenças Infectoparasitárias do HUAP entre 1965 e 2024. Nesse período, foram registrados 779 óbitos relacionados a doenças imunopreveníveis. A taxa geral de mortalidade chegou a 19,63%.

Foto: Resumo gráfico do estudo. Tradução para o português feita pelos autores.
Os números revelam um impacto particularmente severo nos primeiros anos de vida. Entre crianças de até 1 ano, a mortalidade atingiu 28,89%. Entre 2 e 5 anos, o índice caiu para 13,39%. Na faixa de 6 a 10 anos, ficou em 11,89%. O levantamento também identificou predominância de casos no sexo masculino, responsável por 55,58% das internações e mortes registradas.
A distribuição temporal dos óbitos é um dos aspectos mais expressivos do trabalho. Mais de 86% das mortes ocorreram nas duas primeiras décadas analisadas, antes da consolidação das campanhas nacionais de vacinação. Na primeira década da série histórica, a taxa de mortalidade alcançava 29,21%. A partir da terceira década, o índice caiu mais de três vezes, chegando a 9,38%, até se aproximar de zero nos anos mais recentes.
O tétano e a meningoencefalite responderam por mais da metade das mortes registradas ao longo do período. Em ambos os casos, mais de 70% dos óbitos ocorreram em crianças menores de um ano. Difteria e sarampo apareceram em seguida entre as principais causas de morte infantil identificadas pelo estudo. A coqueluche, embora menos frequente em número absoluto de internações, também apresentou impacto importante na mortalidade do primeiro ano de vida.
Para os pesquisadores, os dados permitem visualizar de forma objetiva como a ampliação da cobertura vacinal alterou profundamente o perfil das internações pediátricas ao longo de seis décadas.
Pinheiro acompanhou parte dessa transformação dentro dos hospitais públicos do Rio de Janeiro. “Quando fiz residência, na década de 1980, era comum ver crianças internadas com tétano, sarampo, difteria e meningite. Havia leitos específicos para tétano infantil. Dez anos depois, praticamente não existiam mais casos dessas doenças”, relata.

Registros históricos preservados pelo DIP-HUAP documentam o desaparecimento progressivo de doenças como tétano, sarampo e difteria após a ampliação da vacinação no Brasil. Foto: Acervo UFF
Segundo ela, a vacinação modificou completamente a rotina hospitalar pediátrica. “Não existe coisa mais triste do que ver um bebê morrer de uma doença prevenível. A vacinação mudou profundamente essa realidade.”
Martins destaca que o diferencial do trabalho está justamente na capacidade de demonstrar historicamente esse processo com base em evidências acumuladas ao longo de 60 anos. “Todo mundo sabe que vacinas salvam vidas. O que o artigo faz é mostrar isso concretamente, década após década.”
Pesquisadores alertam para riscos da desinformação e defendem fortalecimento da imunização
Embora os pesquisadores não identifiquem, atualmente, um retorno expressivo dessas doenças no HUAP, o estudo também dialoga com um cenário contemporâneo marcado pela queda da cobertura vacinal e pelo avanço da desinformação sobre imunizantes.
A série histórica relembra que enfermidades, hoje consideradas controladas, fizeram parte da rotina hospitalar brasileira durante anos e podem voltar a representar ameaça caso a adesão às vacinas diminua. “O sarampo já voltou a preocupar em alguns lugares. Isso mostra que nenhuma conquista é definitiva”, afirma Martins.
Para Pinheiro, esse é um dos principais desafios para a saúde pública. “A desinformação tem um poder muito grande. Um exemplo disso é a resistência à imunização contra a Covid-19, que foi alarmante durante a pandemia. Basta a população deixar de se vacinar para colocar em risco uma proteção coletiva construída ao longo de décadas.”, alerta.
Ainda assim, os pesquisadores consideram o Programa Nacional de Imunizações uma das políticas públicas mais bem-sucedidas da história da saúde brasileira.

Campanhas de vacinação foram decisivas para reduzir mortes infantis por doenças infecciosas preveníveis no Brasil, aponta estudo da UFF. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil
Por fim, os pesquisadores ressaltam que o estudo não apenas traça a trajetória de doenças infecciosas dentro de um hospital universitário, mas registra parte da transformação histórica da saúde na infância brasileira e do Sistema Único de Saúde (SUS).
Para os autores, a vacinação não apenas reduziu estatísticas de mortalidade, mas alterou perspectivas de sobrevivência e desenvolvimento de gerações inteiras. “A vacina não apenas salva vidas. Ela permite que crianças cresçam e cheguem à vida adulta”, resume Martins. Pinheiro conclui: “Viva o SUS e viva a vacina”.
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Patricia Yvonne Maciel Pinheiro é Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1986). Mestrado em Ciências Médicas pela Universidade Federal Fluminense (2017). Título de Especialista em Infectologia pela Sociedade Brasileira de Infectologia em 2019. Título de Especialista em Infectologia Hospitalar pela Sociedade Brasileira de Infectologia em 2024. Especialização em Preceptoria em Saúde em 2021.Especialização MBA Gestão em Saúde e Controle de Infecção em 2021. Supervisora do Programa de Residência Médica em Infectologia e Infectologia Hospitalar do Hospital Universitário Antônio Pedro da Universidade Federal Fluminense. Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Doenças Infecciosas e Parasitárias e Controle de Infecção Hospitalar
Ezequias Batista Martins é Médico graduado pela Universidade Federal do Amazonas (2000), com Residência Médica em Infectologia pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro (2004). Mestre (2006) e Doutor (2023) em Medicina Tropical pelo Instituto Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Atualmente, é Professor Adjunto B2 da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da mesma instituição. Atua também como Pesquisador Assistente no Ambulatório de Doenças Febris Agudas do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/Fiocruz e integra o Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da UFF. Desenvolve atividades de ensino, pesquisa e assistência com ênfase no diagnóstico e tratamento de doenças febris agudas, doenças tropicais e infecções sexualmente transmissíveis.
