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NO EVENTO, no dia 29/10.
A QUESTÃO (DA REFORMA) AGRÁRIA
NA AMÉRICA LATINA:
Balanço
e Perspectivas
Instituto de Geociências/UFF
Niterói – Brasil
29/10/2009 a 02/11/2009
Até a década de 1970, a problemática
agrária esteve no centro do debate teórico-político na
América Latina. Desde então, profundas transformações
sociogeográficas fizeram com que a região passasse por um
intenso processo de desruralização e sub-urbanização, além
da mobilidade da população entre países da região e do êxodo
para além das fronteiras regionais. Ao mesmo tempo, uma nova
fase do desenvolvimento das forças produtivas (Revolução
Verde, por exemplo) aprofundava a velha inserção na divisão
internacional do trabalho como região fornecedora de
matérias primas e alimentos. Em função dos evidentes índices
de aumento da produtividade acreditou-se que o "atraso"
havia sido superado e que a problemática agrária havia
deixado de ser um problema. O mundo acadêmico praticamente
abandonou o tema enquanto questão teórico-política, chegando
mesmo a sancionar uma expressão - agronegócio - que em si
mesma revela a dimensão a que a questão agrária ficou
reduzida, ainda que alguns intelectuais tenham insistido na
defesa da importância da questão agrária - entendida como o
agrário sendo posto em questão.
Ao mesmo tempo, a crise das políticas que capturaram os
estados para fins corporativos, conforme orientação do Banco
Mundial, do FMI e da OMC e seguida à risca, quando não
protagonizada, por governos até muito recentemente à testa
em todos os países da região (exceção à Cuba), vem ensejando
que novas experiências de governos venham se manifestando
onde a questão agrária volta a tomar força. Em alguns desses
países, como a Argentina e a Bolívia, sobretudo, o bloco de
poder oligárquico
latifundiário-financeiro-técnico-industrial-midiático vem
capitaneando a resistência contra os governos que, de um
modo mais ou menos intenso, vêm buscando novas políticas, se
mostrando como uma herança viva das políticas ensejadas pelo
chamado Consenso de Washington, conforme se pode ver em
Santa Cruz de la Sierra e nos sucessivos bloqueios de
estradas recentes na Argentina.
Enfim, a questão agrária não é mais aquela e se vê agora
imbricada com uma série de outras questões postas por novos
protagonistas, alguns diretamente ligados às contradições
internas do próprio padrão de acumulação do capital no mundo
agrário, como é o caso dos sem-terra. Novas formações
político-identitárias passam a fazer parte do léxico
político como populações remanescentes de quilombos (cimarrones,
cumbes, pallenques), como mulheres (campesinas, quebradeiras
de coco babaçu e outras identidades associadas a gênero),
como populações tradicionais, como indígenas, como povos
originários, ensejando novos conceitos teórico-políticos
como, por exemplo, campesíndio (Armando Bartra) que permite
recuperar a expressão indigenato cunhada por Darcy Ribeiro
para designar o camponês etnicamente diferenciado e, assim,
abrir possibilidades teóricas de entendermos os camponeses
culturalmente diferenciados que se apresentam como
seringueiros, geraizeiros, retireiros, catingueiros,
caiçaras, enfim, um sem-número de formações
político-identitárias que não só recolocam em debate o cerne
da questão (da reforma) agrária - a enorme concentração
fundiária (e de poder) ainda mais agravada com os
latifúndios monocultores de exportação - como também novos
desafios teórico-políticos como a questão ambiental e do
padrão (das relações sociais e de poder) tecnológico. Enfim,
a natureza e a cultura se politizam e, assim, dão
centralidade a novos conceitos e processos como
território-territorialidade-territorialização.
Tudo isso nos impele a uma análise crítica das experiências
(e das teorias) de reforma agrária na América Latina - do
México de ontem ao zapatismo de hoje. Mesmo Cuba que poderia
ser tomada como exemplo de uma reforma agrária radical viria
experimentar os dilemas e contradições do significado das
grandes monoculturas de exportação, sobretudo após a crise
dos regimes socialistas pós 1989, o que obrigou o país a
fechar metade de suas usinas de açúcar nos anos 1990 e abrir
um sério debate acerca da soberania alimentar.
O fato é que a questão vem adquirindo novos contornos e se
complexificando. O que é a questão (da reforma) agrária
hoje? Que perspectivas de reforma agrária se apresentam no
horizonte político concreto?
Enfim, queremos afirmar a importância da construção de um
debate sobre o campo que transcenda os limites da Geografia
Agrária enquanto um saber específico. Para isso, o IV
Simpósio Internacional de Geografia Agrária e o V Simpósio
Nacional de Geografia Agrária pretendem reunir os melhores
especialistas na questão de toda a América Latina assim como
convidar lideranças de movimentos sociais que vêm
protagonizando o debate político em torno dessa questão.
Neste evento daremos continuidade ao
caráter interinstitucional que tanto sucesso trouxe ao
último SINGA realizado em Londrina - PR, com uma parceria
entre dois cursos de Geografia (UFF e UERJ), Programa de
Pós-graduação em Geografia da UFF e o apoio de
outros programas de estudos e pesquisas no campo (como o CPDA-UFRRJ, NERA/UNESP e Laboratório de Geografia
Agrária/USP) todos vinculados à instituições
públicas. |