Organização de catadores é beneficiada por projeto de inclusão da UFRJ
Coleta seletiva promove simultaneamente inclusão social e educação ambiental
Por Ana Letícia Ribeiro
“Meu sonho é fazer faculdade e ser ambientalista”. Assim, Dona Zilda, ex-líder comunitária do Morro do Itararé, no Complexo do Alemão, revelava o desejo de contribuir ainda mais para a vida do planeta. Fundadora e atual coordenadora da Cooperativa dos Catadores do Complexo do Alemão (Coopcal), Dona Zilda é uma das parceiras da Rede de Informação e Pesquisa em Resíduos (Riper), ligada ao Núcleo de Solidariedade Técnica (Soltec) da UFRJ.
No início, Dona Zilda sentia vergonha e nojo de catar materiais recicláveis na rua, mas fazia o trabalho por necessidade. Ela lembra que foi o filho seu maior incentivador. “Ele tinha cinco anos quando viu pela TV pessoas catando na rua e disse: ‘mãe, você tem que fazer isso, não é coisa de mendigo, é diferente’”.
Após 15 dias do começo do novo trabalho, em março de 2000, Dona Zilda alugou um local por R$ 120 para reciclar o material e juntou um grupo de 25 pessoas, que trabalham com ela até hoje. No grupo, está Eliane Pereira, 32 anos, que começou junto com a ex-líder comunitária porque estava desempregada. “Eu também sentia nojo, mas precisei catar para sobreviver”, lembra.
Dona Zilda, Eliane e a prensa de reciclagem. As duas estavam sem luva porque não era dia de trabalho.
A Riper auxilia a Coopcal com projetos de natureza técnica e educativa, como implantação de projetos de economia solidária e cursos de gerenciamento de resíduos sólidos. O coordenador e professor Antonio Vieira recorda a criação da iniciativa, em 2009: “Organizamos uma oficina sobre coleta seletiva durante o Festival de Tecnologias Sociais e Economia Solidária da UFRJ. Lá, apresentamos a proposta de articularmos uma rede de interessados em pensar e promover ações para enfrentar o desafio dos resíduos”.
Segundo Vieira, a Riper mantém relação estreita com órgãos financiadores, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e a Fundação Banco do Brasil (FBB) com o objetivo de captar recursos para articular os parceiros em rede. “Estamos ainda em fase de estruturação e não temos uma formalização de participação na rede, mas dialogamos com os projetos Recicla CT, da UFRJ, Vida no Campus, da UFF, Fórum de Lixo e Cidadania de Niterói e com a Uerj, Unirio e Uenf”, enfatiza.
Unindo diferentes áreas e níveis do conhecimento para pesquisas sobre resíduos, incluindo o eletrônico, a Riper está desenvolvendo metodologia de diagnóstico do lixo nos municípios, começando por Niterói e Rio de Janeiro. “A partir desse diagnóstico, os gestores públicos e a população podem ter um retrato da situação do lixo e definir políticas, que devem privilegiar a coleta seletiva com inclusão dos catadores, de forma que tenhamos cidades cada vez mais sustentáveis”, explica Vieira. O coordenador da Riper destaca ainda a vantagem da coleta seletiva em relação ao aterro e geração de energia, já que pode atender a aspectos ambientais, econômicos e sociais.
Caminhão traria novo gás à cooperativa
“A Soltec é um parceiro muito importante que temos. Agora, por exemplo, estamos com a demanda técnica do caminhão há dois anos e eles estão nos ajudando muito”, elogia Dona Zilda. O transporte na vida doscatadores se apresenta como grande aliado para a economia da cooperativa, pois aumenta de forma considerável o recolhimento mensal de materiais.
Segundo a ex-líder comunitária, sem um caminhão próprio da cooperativa, apenas com frete, são recolhidas 25 toneladas por mês e arrecadados cerca de R$ 250. No entanto, com o caminhão, os números aumentariam consideravelmente: seriam 120 toneladas mensais e um lucro entre R$ 800 e R$ 900. “O frete custa R$ 300 por dia e o caminhão, nada. Mas agora isso vai sair”, diz.
Além da questão do transporte, os catadores ainda enfrentam outros problemas. Mesmo trabalhando oito horas por dia, não há formalização de emprego e os trabalhadores recebem dinheiro por rateio, ou seja, por quilo de material recolhido. “O que mais vem para nós ainda é papel e papelão (cerca de R$ 0,20 / Kg), mais barato, mas o PET vale mais (entre R$ 0,70 e R$ 0,80 /Kg) e vem menos. Latinha, mais cara de todas, nós não reciclamos, vai mais para as indústrias. Queremos ser reconhecidos como trabalhadores de verdade”, desabafa Dona Zilda.
Para ela, o decreto 5.940, de 2006, é “muito bom no papel, mas ainda não foi posto em prática”. No entanto, a crença em mudanças positivas estimula o sonho de fazer faculdade. “Eu creio que antes de morrer ainda vou ter esse diploma na mão. Eu sei muito sobre o meio ambiente e peguei amor à causa quando me tornei catadora. Ainda acredito que as autoridades vão pensar de fato na nossa categoria”, finaliza.

