ISSN: 1808-799x
Ano 10, número 15 - 2012
EDITORIAL
A revista eletrônica Trabalho Necessário chega, com orgulho, ao seu décimo quinto número sem interrupções e sem mudanças em seus rumos editoriais e políticos. Sua existência deriva, integralmente, do trabalho de um conjunto de professores que, conscientes da importância da socialização do conhecimento e coerentes com sua postura político-acadêmica, destinam parte significativa de seu cada vez mais escasso “tempo livre” a empreender este trabalho necessário que oportuniza aos muitos leitores ter acesso a nosso periódico, semestralmente.
Ao longo do tempo, sobretudo mais recentemente, temos introduzido algumas mudanças e novas exigências para a apresentação de trabalhos, de modo a não nos distanciarmos em demasia das características das demais revistas que circulam na área. Não abdicamos, entretanto, de princípios coerentes com o que está explícito em nossas instruções aos autores, objetivando, tão somente, abrir espaço para a “produção acadêmica, na perspectiva do materialismo histórico”. Assim, os autores que nos procuram possuem, como horizonte, a partir de suas diferentes mediações, “a superação das relações sociais classistas, hoje, mascaradas pelo refinamento da lógica do capitalismo tardio, em sua mais forte manifestação ideológica: o neoliberalismo”.
Coerentes com esse pressuposto ético-político, explicitamos aqui, mais uma vez, o objetivo que confere sentido à nossa existência: propiciar à classe trabalhadora em geral e aos movimentos sociais, em particular, condições de acesso ao conhecimento e voz, se assim o desejarem, neste veículo acadêmico que apresenta como precípuo compromisso a luta coletiva pela transformação estrutural da realidade injusta que constitui a marca do modo de produção capitalista. Em decorrência, temos claro o fato de que, embora busquemos estar próximos das exigências formais que cada vez mais são feitas aos periódicos científicos, não abdicaremos das necessárias características que possibilitem o acesso de nossa revista pela classe trabalhadora na América Latina e no Brasil, em particular.
Não poderíamos neste momento de comemoração deixar de mencionar, destacadamente, nosso agradecimento aos colegas cujos nomes estão indicados na folha de rosto da revista, que partilham as tarefas inerentes à produção de um periódico: os atuais trinta e três membros do Comitê Científico, ainda em fase de expansão; os cinco membros do Conselho Editorial e, ainda, os seis integrantes da equipe editorial. Por todos nós é partilhada a certeza de que manter viva nossa revista, fiéis aos princípios e objetivos acima enunciados é, sem dúvida, um trabalho necessário e aberto a todos os que deles desejem participar.
Neste número comemorativo, contamos com sete artigos, dois ensaios e a já tradicional seção Memória e Documentos. O primeiro artigo, Currículo integrado na Educação de Jovens e Adultos: apontamentos a partir do mapeamento de uma rede de pesquisas, de autoria de Abelardo Bento Araújo e Maria Aparecida da Silva resulta de uma “investigação da produção acadêmica sobre Educação Profissional integrada à Educação de Jovens e Adultos com ênfase nos aspectos ligados ao currículo”. Buscando apresentar o estado da arte, “de caráter inventariante e descritivo”, sobre o tema, os autores indicam o fato de que “se verifica a centralidade do currículo nessa modalidade de educação”. No trabalho, também questionam a sucessão de programas de Educação Profissional no País, destinados à classe trabalhadora, que impede a formação de cultura escolar favorável à integração curricular.
A autora Carmen Cunha R. de Freitas, nos apresenta o artigo A função social do professor: concepções em conflito, no qual analisa o papel social do professor, ou seja sua função na sociedade. Defende, no artigo, a existência de “duas concepções em conflito, cada uma ligada a uma forma de organização do trabalho e da formação docentes: a que está presente nas políticas públicas educacionais, e aquela presente nos movimentos sociais de educação”. A análise empreendida lhe permite concluir que “nas políticas públicas prevalece a concepção de professor tarefeiro, sem autonomia que apenas cumpre procedimentos preestabelecidos” estando essa concepção subordinada a interesses mercadológicos. Em contraposição, encontra-se a concepção preponderante nos movimentos sociais, que vê o professor como “intelectual, que concebe seu próprio trabalho; concepção esta que está ligada a uma visão emancipadora da educação e do mundo”.
No terceiro artigo, Pedagogia do trabalho e inteligência operária: contribuições na perspectiva da produção associada, Geraldo Márcio Alves dos Santos nos apresenta “um debate sobre o principio educativo do trabalho na produção associada”. A centralidade da análise reside na experiência dos metalúrgicos da Metalcoop, cooperativa industrial localizada em São Paulo. O autor defende, em seu trabalho, a tese de que a “potência criativa dos trabalhadores na produção associada reforça e traz novos elementos sobre o estatuto epistemológico da experiência”. Sua argumentação apóia-se na “tradição marxista sobre o processo de trabalho e em seu inerente caráter educativo, no atual debate sobre a produção associada e na reflexão daqueles que interrogam o estatuto social da técnica, da ciência e da tecnologia.
Lia Tiriba e Bruna Sichi apresentam, em sequência, o artigo Cios da terra: saberes da experiência e saberes do trabalho associado, no qual refletem sobre as “dimensões histórico-ontológicas do trabalho” e sobre “as relações entre seres humanos e natureza”, detendo-se, particularmente, na vida no campo, a qual “requer muitos trabalhos, entre eles, aqueles que, sob a égide do capital, modificam as relações sociais no âmbito da comunidade, aviltando o direito de se viver plenamente a infância e a juventude”. Analisam, para tanto, a “experiência dos trabalhadores e trabalhadoras do assentamento Che Guevara” e consideram que, “sob os limites das mediações de segunda ordem, impostas pelo sistema capital, a unidade de produção associada pode ser entendida como unidade de produção associada de saberes”, da qual brotam novas práticas sociais.
A imperiosa “necessidade de um novo ponto de partida para as lutas em defesa da educação pública” no Brasil é defendida por Olinda Evangelista e Roberto Leher, no artigo Todos pela Educação e o episódio Costin no MEC: a pedagogia do capital em ação na política educacional brasileira. Os autores analisam como “os setores dominantes interferem nas políticas educacionais públicas por meio de uma coalizão de grupos econômicos organizados no Compromisso Todos pela Educação (TPE)”. O estudo toma como ponto de partida a “discussão do chamado episódio Costin no MEC, ocorrido em novembro de 2012, e examina as principais nervuras da política educacional pretendida pelo TPE que motivaram milhares de educadores a se manifestar contra a sua nomeação”.
Finalmente, apresentamos a colaboração de Soraya Franzoni Conde, que, no artigo Quando o trabalho infantil se torna uma generalidade social, reflete “sobre quando e como a exploração do trabalho infantil se torna um problema social”. A autora aborda a relação do tema “com a escola, a família e a educação da classe trabalhadora, de acordo com as transformações no modo de produção da existência, ocorridas com a instituição do trabalho coletivo e desenvolvimento da maquinaria na grande indústria do século XIX”. Ao desenvolver suas reflexões evidencia que a “escola, assim como a legislação fabril, é o meio pelo qual o capitalismo regula a exploração e, assim, afasta crianças da degeneração precoce sem abrir mão, totalmente, de explorá-las ou de prepará-las à expropriação da mais-valia no futuro”.
As reflexões anteriormente apresentadas por nossos autores são enriquecidas pelo ensaio de autoria de Adriane Cenci, intitulado O conceito de trabalho em Vygotski: apropriação e desenvolvimento das proposições de Marx e Engels. A autora considera ser o conceito de trabalho um ótimo exemplo para demonstrar a aproximação entre esses teóricos. Assim o ensaio “busca lançar algumas ideias sobre o conceito de trabalho na Teoria Histórico-Cultural’ pretendendo evidenciar pontos de encontro “nas proposições de Marx/Engels e de Vygotski”. Para Cenci, coerentemente com os autores que estuda, o “trabalho possibilitou ao homem tornar-se humano, mas a divisão social do trabalho na sociedade capitalista acaba alienando o homem nesse processo”.
O segundo ensaio, Un debate teórico desde México sobre la teoría del valor-trabajo y su articulación con el trabajo docente de la escuela primaria, de autoria de María Del Carmen Montero Tirado retoma a candente questão do trabalho docente. Para a autora, “O trabalho de ensino é um valor útil para satisfazer as necessidades da sociedade por meio de capital variável formação, e este trabalho contribui para o processo de acumulação de capital, enquanto força de trabalho treinada para aumentar a produtividade”. Segundo Montero, “Uma maneira de fazer isso é implementar programas de estímulo que estão sendo realizados em conjunto com avaliações sistemáticas de seus ensinamentos no esforço para melhorar a qualidade da educação e os professores fazem, "trabalhadores produtivos", de acordo com as exigências institucionais”. A autora defende, no ensaio que nos apresenta, que os professores geram “bens intangíveis (chamado de conhecimento, habilidade, capacidade, formação) utilizados para a produção de bens e de qualificação de trabalho”.
Finalizamos nossa revista com a seção Memória e Documentos, de autoria de Francisco José da Silveira Lobo Neto. Neste número, o autor nos oferece, com o objetivo de assinalar o centenário de morte de Carlos Leôncio da Silva Carvalho (1847 – 1912), “uma incursão nos documentos reveladores das políticas educacionais do período imperial, destacando o enfoque da relação entre trabalho e educação”. Ainda para o autor, a “importância da Reforma Leôncio de Carvalho está no fato de sinalizar para uma sistematização abrangente de todos os níveis da educação nacional. De certa forma seu Decreto explicita o que hoje denominamos diretrizes e bases da educação nacional”.
Congratulamo-nos, na figura de cada um dos autores deste número da revista Trabalho Necessário, com todos os autores que, desde o primeiro número participaram dessa trajetória exitosa. Não somos poucos os partícipes do coletivo que se identifica a partir do materialismo histórico dialético, embora nossas diferenças, por vezes, nos afastem. Como a realidade da classe trabalhadora nos impõe envidar esforços para reconstruirmos o sujeito coletivo transformador, pretendemos que nossa revista continue a constituir, modestamente, um espaço necessário de confluência e de partilha. Para tanto, esperamos continuar contando com o apoio de todos os que nos acompanharam até aqui, aos quais mais uma vez agradecemos, e também, com aqueles que se farão presentes nos números futuros. Boa leitura a todos.
Os Editores