Revista ContraCultura
Nº. 02 Abril de 2008 - ISSN 1982-9175
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Manifesto ContraCultura


Nos anos 1960, movimentos políticos contraculturais denunciavam o capitalismo não somente como estrutura macroeconômica perversa e injusta, mas também como um processo de fabricação de subjetividades alienadas. A luta anticapitalista, portanto, teria de ser travada em diversos fronts, procurando conquistar (e formar) corações e mentes para o inconformismo e para a tarefa da construção de um mundo baseado em valores humanos e não nos valores de mercado.

Passados mais de 40 anos, o neoliberalismo impôs, não sem encontrar resistências, a ditadura do mercado e do pensamento único. Ao mesmo tempo em que avança na mercantilização da vida humana e da natureza, estendendo uma onda de destruição sócio-ambiental inédita na história, a (des)ordem neoliberal também se expressa na monopolização da produção de bens simbólicos, de informação e conhecimentos. Hoje a mídia global está nas mãos de duas dezenas de conglomerados, com receitas entre 8 e 40 bilhões de dólares, a serviço da hegemonia do capital e da difusão da idéia de que não há alternativa possível ao estado de coisas em que vivemos.

Mais do que nunca, essa realidade nos impõe a tarefa de construirmos iniciativas contra-hegemônicas capazes de furar esse imenso bloqueio que busca conter as potencialidades criativas do gênero humano. E falar em construir contra-hegemonia é assumir que nesse combate nos colocamos ao lado da classe trabalhadora, a única capaz de realizar no devir histórico as aspirações à emancipação humana.

Se todo monumento de cultura é também um monumento de barbárie, pois carrega em si os despojos dos que foram vencidos na história, pensar uma contracultura é rememorar essas lutas e fazê-las viver no presente. Walter Benjamin, em suas teses “sobre o conceito de história”, nos lembra que “existe um encontro marcado entre as gerações precedentes e a nossa.” Há um legado de lutas que deve ser recuperado, ao qual devemos contas. Desse modo, entendemos a Revista ContraCultura como parte de um processo de lutas anticapitalistas que compreendem a cultura como inserida na dinâmica da produção e reprodução material da vida, portanto, arena estratégica da luta de classes.

A sociedade que construiremos com nossas próprias mãos, guiadas por nossos sonhos, é urgente e necessária. O que nos move é uma esperança ativa, entendida como ensaio de um futuro que está por vir.
Tornamos nossas as palavras do poeta Bertolt Brecht:

Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

 
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