Ciberlegenda Número 5, 2001
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GREGORY BATESON:
RUMO A UMA EPISTEMOLOGIA DA COMUNICAÇÃO |
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ETIENNE
SAMAIN
RESUMO Como se constrói nosso “saber”? Como nascem nossos “conhecimentos” ou, melhor dizendo, as “idéias” que nós fazemos das coisas deste mundo? A partir de que imperativos epistemológicos podemos pensar fundar uma ciência do conhecimento? Ao longo de milênios, esses conhecimentos se multiplicaram e se diversificaram. Com eles, emergiram centenas de epistemologias locais que, no entanto, cruzam-se no horizonte de suas indispensáveis inter-relações. Como e até onde uma “Epistemologia da Comunicação” (uma epistemologia, muitas vezes ainda, por demais local) participará, no futuro, desta teia de relações e saberá fomentar o que se poderia chamar uma “ecologia do espírito”? Para tanto, procura-se delinear, nesta comunicação, alguns parâmetros iniciais de elaboração de uma “Epistemologia da Comunicação”, tirando proveito da gigantesca e complexa obra de Gregory Bateson (1904-1980), um penetrante pensador da questão, que foi, ao mesmo tempo, um biólogo, um antropólogo, um psiquiatra e um amante da comunicação humana. Palavras Chave: Epistemologia da comunicação; Gregory Bateson. Introdução
Na
medida que o GT “Epistemologia da Comunicação” se propõe a discutir,
entre outras abordagens, “as relações da Comunicação com outras
disciplinas”, gostaria, nesta intervenção, de poder iniciar uma reflexão
em torno deste assunto. Para tanto, escolherei um autor que muito prezo e
que, a meu ver, será um dos mais importantes inspiradores de uma
“Ecologia do Espírito”1
nos próximos dois decênios deste novo século. Chama-se Gregory Bateson
(1904-1980). Direi, logo e brevemente, quem foi este inigualável observador das coisas deste mundo e procurarei delinear alguns parâmetros
de elaboração de uma epistemologia da comunicação, tirando proveito da
gigantesca e complexa obra deste pensador, que foi, ao mesmo tempo, um biólogo,
um antropólogo, um psiquiatra e um amante da comunicação humana. Antes de
chegar lá, parece-me indispensável traçar duas considerações
preliminares importantes. Da
Epistemologia em geral... Sabemos,
todos, que a palavra “epistemologia” logo seduz tanto quanto provoca
estranhamento pelo simples fato que não sabemos exatamente o que ela
designa e, sobretudo, ao que nos remete. Pessoas “cultas” dirão que a
etimologia da palavra é grega e significa um “estudo, um “discurso”
(um “logos”)
sobre a “epistémé”,
isto é, sobre o “conhecimento” ou, melhor dizendo, sobre o “saber”.
Eis, então, nossa palavra-chave: a Epistemologia (com um “E” maiúsculo)
é a “Ciência do saber”, de todo tipo de conhecimento. Reconhecemos
que essa definição nos diz um pouco de tudo e muito de nada. Para ser mais
concreto, diria, desta maneira, que todos nós adquirimos, ao longo das
nossas existências, uma série de “conhecimentos”: conhecimentos dos
mais variados tipos (sobre a vida, a morte, o sofrimento, o amor, o
trabalho; conhecimentos referentes ao fato de que falamos, de que nos
comunicamos, de que vivemos em
sociedades regidas por sistemas econômicos, educacionais, ecológicos, em
sociedades onde existem o direito, a medicina, a religião etc...). Devemos
até convir e acrescentar que todos os nossos conhecimentos adquiridos,
muitas vezes, são ou incompletos ou simplesmente errados. Eis o que explica
o fato de que, por falta de bons hábitos epistemológicos, arriscamos-nos a
ter problemas na vida e, é claro, cada um tem. A
palavra “Epistemologia”, assim situada, pode começar a se tornar um
pouco mais concreta e clara. Falar de “Epistemologia” significa levantar
essas questões: “O que implica
o ato de conhecer as coisas
deste mundo?” mas, sobretudo, “como
poder chegar a conhecer as coisas deste mundo?”, “quais os imperativos,
as exigências e os caminhos de uma ciência do conhecimento, de qualquer
tipo de conhecimento (não apenas da “comunicação humana”)?” ...
às epistemologias “locais” Se
falei, até agora, da “Epistemologia” com um “E” maiúsculo
[enquanto “Ciência geral do
Conhecimento”, de todo e qualquer conhecimento], há de se convir que
existem centenas de epistemologias (com um “e” minúsculo):
epistemologias estas que, sem nenhum desdém nem julgamento prévio de
valores, chamarei de “epistemologias locais”.
Essa multiplicidade até despertou minha curiosidade. Fui procurar em dois sites de grandes bibliotecas virtuais (um francês: http://www.alapage.com
e um americano: http://www.amazon.com)
informações referentes a publicações (livros) elencadas sob os verbetes
“epistémologie” e “epistemology”. Melhor que a livraria francesa,
que oferecia 152 indicações de livros sobre o assunto, a colega americana
brindava seu consultor com 1447 entradas de livros sobre o mesmo assunto.
Claro que não tive a paciência nem o tempo de percorrer essa imensa vitrine
do conhecimento humano. Passei o tempo suficiente, todavia, para observar três
coisas que resumo:
-
As
epistemologias locais são, hoje, múltiplas
e de toda
ordem: “Epistemologia genética”; “Epistemologia da
Identidade”; “Epistemologia do Tempo”; Epistemologia Jurídica”;
“Epistemologia do Direito”; “Epistemologia da Linguagem”;
“Epistemologia da Ação moral”; “Epistemologia do Conhecimento
musical”; “Epistemologia da Ciências Sociais”; “Epistemologia da
Sociologia”; “Epistemologia das Matemáticas”; “Epistemologia da
Biologia”; “Epistemologia da Medicina”; “Epistemologia da
Geografia”; “Epistemologia da Religião”; “Epistemologia do
Sagrado”; “Epistemologia das Ciências da Natureza”; “Epistemologia
da Economia”, mas, também, “Epistemologia da Estratégia em
Economia”; “Epistemologia das Atividades físicas e esportivas”...
“Epistemologia das Ciências da Informação”; “Epistemologia da
pesquisa informatizada” e - claro
- a
“Epistemologia da Comunicação”. -
As epistemologias locais
atuais têm, por vezes, um sexo.
Obras publicadas nos Estados Unidos tratam de “Epistemologias femininas e
masculinas” e um recente best-seller,
que estuda as questões da homossexualidade e da heterossexualidade,
intitula-se “Epistemology of Closet”. -
As epistemologias locais –
e a própria Epistemologia – participam, também, do tempo.
As epistemologias são, felizmente, viajantes ou, melhor dizendo, perpassam
o tempo humano e procuram desvendá-lo nas suas múltiplas representações
e esforços de compreensão. Olhando para os sites
aos quais me referi, vocês encontrarão, evidentemente, referências às
obras dos grandes filósofos gregos, de pensadores chamados modernos, indo
de Emmanuel Kant a Michel Foucault, como vocês descobrirão, também, obras
que reivindicam a urgência da eclosão de uma “Epistemologia construtiva
Pós-Moderna”. O
que queremos, desta maneira, quando buscamos definir uma epistemologia da comunicação?
Como concebê-la (hoje, isto é,
no tempo)? Como concebê-la na
teia de relações que entretém com tantas outras áreas do conhecimento (a
multiplicidade das epistemologias locais)?
Como concebê-la na complementaridade necessária de seus discursos
(masculino/feminino; clássico/moderno e pós-moderno)? Somente poderemos
pretender chegar, possivelmente, a tal empreendimento olhando para uma
paisagem e não para um quadro... tanto mais que sem comunicação
não existiria conhecimento
nenhum. É
tempo de apresentar, embora muito brevemente, Gregory Bateson.
Gregory
Bateson Margaret
Mead (1901-1978) e Gregory Bateson (1904-1980) acabavam de se casar quando,
de março de 1936 até 1939, empreendiam uma famosa pesquisa junto aos
nativos da ilha de Bali, da qual resultaria Balinese
Character. Separaram-se, em 1951, guardando, todavia, uma recíproca
admiração e cumplicidade intelectual até suas mortes, ambas de câncer.
Nos
anos de 1940, época da publicação de Balinese
Character. A Photographic Analysis2,
não se discutia verdadeiramente as questões epistemológicas e heurísticas
que os diversos suportes comunicacionais (a fala, a escrita, as
visualidades) poderiam explorar, juntamente, respeitando os termos de suas
singularidades e de suas complementaridades, enunciativas, representativas e
interpretativas. Passaram-se exatos sessenta anos. Balinese
Character andava à frente de seu tempo e, por essa razão, tornou-se mítico Hoje
em dia, a obra de Bateson e Mead poderá ser julgada como tendo sido um
empreendimento arriscado, parcialmente convincente. Poderá ser encarada,
também, como um monumento de questionamentos heurísticos. Não cabe aqui
julgar a obra a partir desse ou daquele ponto de vista. Importa
contextualizar as idéias que deram origem à obra e entendê-las melhor. O
livro é, com efeito, uma
tentativa de explorar, verbal e
visualmente, de que maneira uma criança nascida em Bali torna-se uma
criança balinesa. Por meio de que comportamentos sociais adquiridos durante
sua infância, de que condutas ensinadas pelo seu meio cultural,
distinguir-se-á, para sempre, de uma criança nascida, por exemplo em
Manaus, situada nos antípodas da pequena ilha vulcânica de Bali? Em outros
termos: qual é o “caráter”, o “estilo” de ser e de viver dos
nativos deste pedaço de terra de uns 5000 quilômetros quadrados, situado
no Oceano Índico que, hoje, pertence à Indonésia? Balinese Character
representa, desse modo, um marco na história da antropologia, da
antropologia visual em especial, mas, também uma marco na maneira com que
se pode repensar a comunicação
humana e as inter-relações heurísticas existentes entre seus diversos
suportes. Na época, uma idéia
bastante nova (a questão do ethos)3
e um duplo desafio: conjugar o
texto e a imagem. Dois gigantes: Margaret Mead e Gregory Bateson. Uma data:
1942. Uma interrogação, enfim: como entender que, logo após a Segunda
Guerra Mundial, Gregory Bateson, biólogo
e antropólogo de formação,
afastou-se dos seus 25.000 negativos Leica e dos sete quilômetros de filme
que tinha rodado com Mead, durante os
três anos de sua permanência na ilha de Bali? Pouco
antes dos anos 50, com efeito, Bateson, filho do famoso genetecista inglês
William Bateson, parte para outros horizontes vivenciais e, sobretudo,
comunicacionais: observa e filma
as lontras e os seus jogos relacionais em São Francisco; observa
e estuda,em 1962, a comunicação
oral dos delfins nas Ilhas Virgens. No intervalo, congrega em torno de
si psiquiatras (Jurgen Ruesch, Don D. Jackson, Paul Watzlawick, Albert E.
Scheflen), antropólogos (Erving Goffman, Edward T. Hall, Ray Birdwhistell),
na chamada “Escola de Palo Alto”. Todos buscavam repensar, numa
perspectiva “orquestral” (inspirada pelos trabalhos de Norbert Wiener4) e não meramente “telegráfica”(como
fazia, na época, Claude Shannon5),
as questões relativas à comunicação
humana. O que Bateson buscava nos anos 50 e o que deveria efetivamente desenvolver até sua morte em 1980? Procurava equacionar melhor a vasta interrogação sobre a comunicação humana nos termos de uma estrutura6 que pudesse ligar os “seres vivos” entre si – a natureza e o pensamento, a comunicação e a antropologia. Sem
nunca ter abjurado suas origens intelectuais e acadêmicas, Bateson
tornar-se-á, durante mais de trinta anos, o visionário lúcido e o
fundador crítico de uma nova maneira de encarar as relações entre
comunicação e antropologia. Balinese
Character foi, para ele, o terreno fecundo da emergência de uma nova
problematização e de um repensar
da comunicação humana. De
Bateson pode-se afirmar, vinte anos após a sua morte, duas coisas: ao lado
de seus colegas psiquiatras e antropólogos, ele não somente delineou os
parâmetros de uma “Nova Comunicação”, mas soube plantar os alicerces
de uma “Antropologia da Comunicação” e de uma “Epistemologia da
Comunicação”. Em outras palavras: o que significa pensar
antropologicamente a comunicação humana? Ou, ainda, o que significa, na
perspectiva aberta por Bateson, investigar etnograficamente os
comportamentos, as situações, os objetos que, numa comunidade, são
percebidos como portadores de um valor comunicativo? A
obra de Gregory Bateson, mereceu, até hoje, pouca consideração por parte
dos círculos editoriais brasileiros. Bateson não causa medo nem assombra
ninguém: é um pensador discreto que sempre soube inovar e a quem
dispensaremos, por certo, particular atenção no alvorecer deste novo século.
Por que motivo? Bateson é, antes de mais nada, um “olhar”, um observador
que deixa a sua observação repercutir e questionar seu pensamento.
Diferentemente de Margaret Mead, ele não procura entender o mundo a partir
de suas idéias. Procura, sim, a interpelação constante do mundo sobre
suas possíveis e potenciais idéias. Bateson deixa ao mundo dos seres vivos
a tarefa e a responsabilidade de trabalhar e de despertar o seu pensamento. Praticamente
toda a obra (antropológica, epistemológica mas, também, comunicacional)
de Bateson (e de seus colegas aos quais me referi anteriormente) permanece
insuficientemente explorada, penso, nos meios universitários brasileiros.
Sem dúvida, evoca-se o nome do pensador e alguns de seus conceitos-chave.
Entretanto, fora uma antologia de textos sobre a comunicação, apenas um
dos importantes livros de Gregory Bateson foi, até hoje, traduzido em língua
portuguesa6a.
A
situação teria sido semelhante na Europa não fosse um acaso: um
pesquisador belga, Yves Winkin, realizou seu doutorado na University of
Pennsylvania, Annenberg School for Communication, focalizando precisamente a
chamada Escola de Palo Alto e, praticamente, entrevistando, na época
(1976-1979), todos os seus membros (Bateson, Birdwhistell, Goffman, Hall,
Jackson, Scheflen, Sigman, Watzlawick). Resultou disto um livro publicado na
França em 1981, intitulado La
nouvelle communication7que,
na Europa, tornou-se, desde então, um best-seller. Rumo à Epistemologia
batesoniana ou “O que todo aluno sabe”8 Cinco
pontos focais (ou direcionamentos): Bateson parte desta questão que todo aluno levanta: “Como podemos ‘conhecer’?”, “Como advém nosso conhecimento? Quais são os condicionantes da emergência do saber, de qualquer natureza que seja: biológico, físico, lingüístico, matemático, pedagógico, antropológico, comunicacional?” 1.
A primeira resposta de Bateson é a seguinte: “No decorrer da minha
existência – escreve – coloquei as descrições de tijolos e de jarras,
de bolas de sinuca e de galáxias numa caixinha... e deixei-as repousar em
paz. Numa outra caixa, coloquei coisas vivas: os caranguejos do mar, os
homens, os problemas de beleza e as questões de diferença. É o conteúdo
da segunda caixa...[que, a mim, interessa]”9.
Bateson não pode ser mais claro: o universo é, para ele, um imenso
organismo em constante ação e interação. O que nele interessa é o que vive.
Sua Epistemologia será antes de mais nada uma Epistemologia que se constrói
a partir dos seres vivos. 2.
Muitas vezes - acrescentará Bateson - concebemos a Epistemologia
como sendo um ramo da filosofia, conseqüentemente algo de eminentemente
abstrato de que cuidariam os filósofos, fora do campo da investigação empírica.
Visão distorcida evidentemente que, todavia, permite a Bateson firmar algo
fundamental. Para ele, nunca
poderemos pensar construir uma ciência do conhecimento fora
do campo da investigação empírica. Com outras palavras, a
Epistemologia batesoniana pertence à ordem do concreto, do palpável, do
sensível e não pode se construir no campo da abstração, na esfera da razão
pura, fora da concretude de uma realidade empírica. 3. A maneira através da qual, desta vez, adquirimos “conhecimentos ou informações” origina-se, sempre, insistirá Bateson, da “observação e da experimentação” (ou de uma experiência). O ser humano somente pode adquirir conhecimentos através dos seus órgãos sensoriais ou através de seus próprios experimentos. De tal modo que não se pode falar de uma Epistemologia que não seja, por necessidade, vinculada e atrelada a um constante e prévio trabalho de observação. 4.
Outro ponto focal da Epistemologia Batesoniana que deve merecer toda
a nossa atenção, pois é aqui que Bateson mais inova e pode nos inspirar.
Eis o que diz substancialmente: “Nunca poderemos pretender conhecer as
‘coisas’ deste mundo, isoladamente. Todo conhecimento se insere num contexto”.
Isto, aliás, se entende se é verdade que o universo no qual vivemos é um
imenso organismo em constante ação e interação. A Epistemologia não é,
desta maneira, uma ciência de que devemos esperar “definições”
isoladas e pontuais das coisas que povoam nosso universo e, sim, uma ciência
capaz de nos revelar com profundidade o que essas mesmas coisas hão de
dizer delas mesmas em função das interações que entretêm umas com
outras. Assim encarada, a Epistemologia deve ser, antes de mais nada, um
“processo de aquisição e de estocagem da informação”, a partir do
qual poderão se construir as “idéias” (e apenas “idéias”) que nós
fazemos das coisas. É
tempo de exemplificar essas considerações. Bateson não procura entender o
que é a “tromba” de um elefante ou o “nariz” de um ser humano. Não
procura definir o que é um “homem”, o que é uma “mulher”. A
Epistemologia de Bateson busca sempre entender como se
constróem as “idéias que nós fazemos das coisas”:
da “tromba” do elefante, do “nariz” humano; do “homem”, da
“mulher”. A Epistemologia batesoniana procura responder à seguinte
pergunta: como passamos (“processo”) de uma coisa observada
(por exemplo, a “tromba” de um elefante, situada entre “dois olhos”
e o “nariz” humano, também situado entre dois olhos) à
idéia de “mamífero”; ou, ainda, como passamos da observação da
morfologia genital do homem e da mulher à
idéia de “sexualidade”; ou, ainda, por quê e como chegamos a
relacionar “tromba/nariz” entre um par de “olhos”, com a posição
de um “verbo” que, numa frase, fica inserido entre um “sujeito” e um
“complemento”, geralmente necessários. Eis
a Epistemologia que reivindica Bateson. Ela deve ser
- dirá ele - “indutiva
e experimental e, como toda verdadeira ciência, dedutiva e, sobretudo, adutiva [...], isto é, deverá sempre procurar colocar lado a lado
fragmentos de fenômenos similares”10. 5.
Chegamos, deste modo, a um último determinante da Epistemologia
batesoniana. A “observação e a experimentação” [a partir das quais a
Epistemologia se torna possível e pode
ser processada, construindo as idéias
que nos nós fazemos de uma realidade em interação contínua com uma
outra]... são sempre constituídas, dirá Bateson, de “informações
de diferenças”. O sapo é incapaz de ver uma mosca a não ser quando
ela se movimenta. O olho humano, ele, é capaz de distinguir uma mosca imóvel
e uma mosca em movimento. São essas informações de uma diferença que
tornam possíveis a eclosão de idéias
e, acrescento, os processos de suas representações,
de suas enunciações, de suas conceitualizações
e de suas (inevitáveis) interpretações. Não
poderíamos chegar à idéia de
“mamífero” sem ter previamente observado a “tromba” do elefante e o
“nariz” do ser humano, ambos situados entre um par de olhos, ambos nos
proporcionando uma “informação de diferenças”. Não chegaríamos à idéia
de “sexualidade” sem, previamente, ter observado a complementaridade
morfológica dos sexos masculino e feminino, cada um deles nos
proporcionando uma “informação de diferenças”. Ouso arriscar-me,
acrescentando: não chegaríamos à idéia
de “suportes imagéticos” sem ter, previamente, observado a natureza e a
singularidade de cada um deles (pintura, fotografia, cinema, vídeo,
infografia), cada um desses meios e suportes comunicacionais oferecendo-nos
uma “informação de diferenças”. O
que vimos até agora? 1. Uma “epistemologia da comunicação” não pode se conceber corretamente sem que se tenha consciência da existência de outras epistemologias “locais”, com as quais se relaciona em graus variáveis. 2. Todas as chamadas epistemologias “locais” (inclusive a epistemologia da comunicação), fundamentam-se num trabalho prévio de observação da realidade concreta e sensível. Não chegarão a ser consistentes fora do campo de uma investigação empírica. 3. Esta observação empírica não tem como finalidade conhecer as coisas em si, uma tarefa tanto impossível como infrutífera. Deve, sim, permitir-nos estocar informações de diferenças existentes entre essas realidades observadas. Será a partir dessas informações de diferenças que se construirão e nascerão nossas idéias.
Duas
outras paisagens em direção a uma epistemologia da comunicação. Ter-se-ia
notado que, na perspectiva de Bateson, a comunicação
encontra-se no coração da elaboração de toda e de qualquer
epistemologia. A ciência do saber apoia-se e somente pode se desenvolver
com base numa observação e a
partir de uma estocagem de informações. Gostaria, desta maneira, de esboçar – para terminar – duas paisagens heurísticas que nos permitiriam avançar em direção a uma epistemologia da comunicação: algumas perguntas em torno da “observação”, de um lado; alguns outros questionamentos referentes “à estrutura que liga” (the pattern which connects) todas as criaturas vivas, de outro. Da
observação Como
antropólogo (pois todos sabem que a observação é a base do ofício de
todo antropólogo), continuo me questionando. Pergunto-me: O que significa
observar? O que observar? Como observar?... Mas, também, será que uma imagem, por exemplo, não
nos permitiria eventualmente observar o que nosso olho não é capaz de
perceber e por que razão? Eis uma primeira série de questões
aparentemente banais e, por esse motivo, muitas vezes relegadas ou
simplesmente ignoradas. Uma epistemologia da comunicação deveria lhes dar,
penso, uma prioridade. Levanto,
no entanto, algumas outras interrogações. Sabemos que não existiria
observação possível sem a existência de nossos órgãos sensoriais (a
visão sem dúvida, mas, também, a audição, o olfato, o paladar, o tato,
o gestual, etc.). Eis um dado óbvio. Mas o que sabemos realmente desses
canais fundadores da comunicação humana? Como cada um deles funciona? Como
esses canais se relacionam e se inter-relacionam? Quais seriam as lógicas
de funcionamento de cada desses órgãos
sensoriais, embutidas num único cérebro? Ainda mais: quais seriam as relações
existentes entre as funções e performances
cognitivas (perceber, decidir, inferir, estimar, corrigir, memorizar)
cravadas, ou na nossa visualidade, ou na nossa audição, ou no nosso
olfato... Essas questões, evidentemente, pertencem diretamente ao campo da
neurologia cerebral e das neurociências cognitivas. Mas será que, numa
perspectiva batesoniana, não deveriam interessar a todos os comunicólogos?
Será que o especialista da comunicação, o antropólogo, o biólogo, o
matemático podem, de antemão, ignorar a complexidade e a importância
dessas questões em nome da especificidade de “sua ciência”? Tratando
das “imagens” que - sabemos - são de natureza tão diversa (imagem fotográfica,
cinematográfica, videográfica, infográfica...), será que não valeria a
pena chegar a entender melhor como,
a partir de simples sinais luminosos, construem-se essas diversas imagens
dentro do cérebro, ao passar pelo impressionante laboratório fotoquímico
e pela rede ótica das células retinianas, que transformariam, segundo
Changeux11,
esses sinais em “objetos mentais”, gênese de todo pensamento? Nesta
linha de reflexão, valeria lembrar, também, a idéia de “pensamento
sensorial”, um conceito que já desenvolvia, nos anos 30 do século XX, o
cineasta russo Eisenstein (que conhecia os trabalhos do filósofo francês
Lucien Lévy-Bruhl, recentemente revisitados por Claude Lévi-Strauss e Jack
Goody sob os vocábulos respectivos de “Pensamento selvagem” e de
“Domesticação do pensamento selvagem”). Será que todas essas questões
permaneceriam alheias à elaboração de uma epistemologia da comunicação
ou de uma Epistemologia tout-court? “A
estrutura que liga” (the pattern which connects) os seres vivos. Toda a obra batesoniana fica perpassada por uma determinação e uma busca: “Procuro a estrutura que liga os seres vivos”. Bateson dirá: “Qual a estrutura que liga o caranguejo do mar à lagosta e a orquídea à prímula? E o que os liga, eles quatro, a mim? E o que me liga a vocês? E nós seis à ameba, por uma lado, ao esquizofrênico que internamos, por outro lado? Poderíamos acrescentar: o que liga um professor universitário a uma pessoa esquizofrênica ou a um vampiro? E o que liga o cego e o cachorro que o guia? Qual a estrutura que “liga”, “coliga” o “espírito à natureza”, o mundo dos “vivos” ao mundo dos “mortos”? O que “liga” - diria Bateson, agnóstico por ser profundamente religioso - os homens aos anjos? E por que esses últimos, até, têm receio de se aproximar de Deus? Eis
uma extraordinária visão da natureza da comunicação entre os seres
vivos; uma profunda interrogação, também, na perspectiva de elaboração
de uma antropologia da comunicação mas, sobretudo, de uma epistemologia da
comunicação. Termino, apresentando duas pequenas outras breves considerações. -
Qual a “estrutura que liga” a escrita à palavra, a palavra à
imagem, à imagem à escrita? E o que as liga, as três, a mim? E o que me
liga (e as liga) a vocês? E como, nós cinco, estamos conectados às últimas
tecnologias comunicacionais? É nesta perspectiva relacional existente entre
os meios de comunicação (perspectiva que não abjura ou, melhor dizendo,
nunca deverá abjurar a questão das singularidades próprias de cada desses
suportes) que chegaremos a relativizar as “virtudes” da escrita com relação
ao mundo das imagens e que não cairemos, também, na tentação de pensar,
hoje, que a informática e as suas primeiras minúsculas descobertas tecnológicas
serão o futuro de uma epistemologia da comunicação. Participarão dela?
Sem dúvida alguma. Mas pensar poder desvincular essa recente maquinaria
informática das ferramentas comunicacionais que a antecederam seria tão
absurdo como falar de uma “comunicação verbal” distinta de uma
“comunicação não verbal”. -
Gregory Bateson, vejam, propõe-nos e procura despertar dentro de nós
um novo “estado do olhar” sobre uma leitura comunicacional do mundo
social (dos seres vivos). Uma comunicação encarada não mais e apenas como
ato individual, e sim como um fato cultural, uma instituição
e um sistema social. Uma
comunicação refletida não mais e apenas como uma telegrafia relacional,
mas, sim como uma orquestração ritual, eminentemente sensível e sensual. Pessoalmente,
penso, que neste universo humano, vivemos não apenas no meio de postes, de
quilômetros de fios elétricos, no tear de uma multidão de fibras óticas
ou nos interstícios de uma legião de satélites. Vivemos, sim, nos balcões
dessa complexa teia comunicacional ou, melhor dizendo, nos palcos dessa rede planetária e somos sempre –de maneira solidária,
institucional e orquestral – os atores necessários de nossas apresentações
e de nossas representações, de nossas idéias e de nossas contra-idéias,
sem as quais não existiriam sociedades e muito menos dinâmicas sociais. Sabemos,
talvez, “o que todo aluno sabe”... Bibliografia
de suporte: -
Bateson,
Gregory e Ruesch, Jurgen. Communication.
The Social Matrix of Psychiatry, New York, W.W. Norton & Company,
1951 (com reedições em 1968 e 1987. Versão
francesa: Communication et Société,
Paris, Seuil, 1988. -
Bateson,
Gregory. Steps to an Ecology of Mind, São Francisco, Chandler, 1972. Versão
francesa: Vers un écologie de l’
esprit, Paris, Seuil, Tomo 1: 1977; Tomo 2: 1980. -
Bateson, Gregory. Mind and Nature. A necessary Unity, New York, Dulton. Versão
portuguesa: A natureza e o espírito.
Uma unidade necessária, Lisboa, Quixote, 1987 e Rio de Janeiro,
Francisco Alves, 1993. Versão
francesa: La nature et la pensée,
Paris, Seuil, 1984. -
Bateson, Gregory. A Sacred Unity. Further Steps
to an Ecology of Mind. Donaldson,
Rodney, E (org.). New
York, Harper Collins, 1991. Versão
francesa: Une unité sacrée. Quelques
pas de plus vers une écologie de l’esprit,
Paris, Seuil, 1996. -
Bateson,
Gregory e Bateson Mary Catherine. Angels
Fear. Toward an Epistemology of the Sacred, New York, Macmillan
Publishing Company, 1987. Versão
francesa: La peur des anges,
Paris, Seuil, 1989. Além dessas obras, convém acrescentar: -
Bateson Mary Catherine. With a Daughter’s Eye, New York, William Morrow and Company, 1984.
Versão francesa: Regard sur mes
parents. Une évocation de Margaret Mead et de Gregory Bateson, Paris,
Seuil, 1989. -
(Coletivo) Bateson: Premier État
d’un Héritage. Colloque de Cerisy sous la direction d’Yves Winkin,
Paris, Seuil, 1988. -
Lipset, David. Gregory Bateson. The Legacy of a Scientist, Boston, Beacon Press,
1982. -
Winkin, Yves. A nova comunicação.
Da teoria ao trabalho de campo, Campinas, Papirus Editora, 1998. Campinas,
junho de 2001
Notas 1
Bateson, Gregory. Steps to an Ecology of Mind, Chandler, 1972. 2 Bateson, Gregory e Mead, Margaret. Balinese Character. A Photographic Analysis, New York, The New York Academy of Sciences, 1942. Reimpressão: 1962. [3] Um conceito (ethos)
que deve muito ao de “configuração” e de “modelo cultural” [pattern]
elaborados por Ruth Benedict: Patterns
of Culture (1934) e que Bateson
já definirá e explorará na sua primeira monografia antropológica:
Naven. A Survey of the
Problems suggested by a Composite Picture of the Culture of a New
Guineia Tribe drawn from Three Points of View (1936). 4
Wiener, Norbert. Cybernetics, or Control and Communication in Animal and the Machine,
Paris, Hermann, 1948. 5
Shannon, Claude e Weaver, Warren. The
Mathematical Theory of Communication, Urbana-Champaign (III),
University of Illinois Press, 1949. 6 O conceito batesoniano de “estrutura” ligando, em termos comunicacionais, “seres vivos” entre si, é fundamental na obra do antropólogo e pensador que pretendemos estudar. Situa-se nos antípodas do conceito (eminentemente abstrato) de “estrutura” elaborado por Claude Lévi-Strauss. 6a Mind and Nature. A Necessary Unity, New York, Dulton, 1979, o último livro publicado por Bateson antes de sua morte (1980). Versão portuguesa A Natureza e o Espírito. Uma unidade necessária, Lisboa, Quixote, 1987 e brasileira (Francisco Alves), 1993. 7 Bateson, Birdwhistell, Goffman, Hall, Jackson, Scheflen, Sigman, Watzlawick. La nouvelle communication. Textes recueillis et présentés par Yves Winkin, Paris, Seuil, 1981 (com várias reedições desde então). O livro, na primeira parte, faz uma apresentação geral e histórica da eclosão da “Escola de Palo Alto”, descreve os seus componentes e faz um síntese de seus principais empreendimentos. Na segunda parte do livro, Yves Winkin oferece, para cada dos integrantes do “Colégio Invisível”, um texto particularmente significativo e representativo do pensamento de cada um dos autores, seguido de uma entrevista com os próprios. 8 “0 que todo aluno sabe” é o título do segundo capítulo de Mind and Nature. A Necessary Unity, New York, Dulton, 1979. Além das idéias desenvolvidas neste capítulo, que Bateson qualifica, não sem humor ou ponta de ironia, de “idéias muito elementares sobre a epistemologia”, remeto a um dos seus últimos artigos (de duas densas páginas), escrito e publicado em 1979: “The Science of Knowing”, in The Esalen Catalog, 17, nº2 (abril-junho), p. 6-7. 9
Id. Mind and Nature. A Necessary
Unity . p.15. 10
Id. “The Science of Knowing”, p.7. 11 Changeux, Jean-Pierre. L’homme neuronal, Paris, Fayard (Col. “Pluriel”), 1983. *** ETIENNE SAMAIN é professor do Programa de Pós-Graduação em Multimeios da UNICAMP- Brasil |
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