Ciberlegenda Número 9, 2002 |
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Recepção da comunicação no mundo do trabalho: uma crítica à ação comunicativa |
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Roseli Figaro figaro@uol.com.br Resumo Os
resultados da pesquisa de recepção intitulada: Comunicação e Trabalho -
Estudo de recepção: o mundo do trabalho como mediação da comunicação
levou-nos à reflexão teórica sobre a centralidade da categoria trabalho para
a compreensão do que se passa no campo da comunicação. Levou-nos também a
discutir a subjetividade a partir de uma perspectiva materialista dialética,
buscando compreender como as práticas culturais vivenciadas no mundo do
trabalho comportam a contradição: de uma lado, a alienação do sujeito,
imposta pelo capital e pela organização da produção, e, de outro, a resistência,
na maior parte das vezes, individual, deste sujeito pela manifestação de seu
ser genérico.Esta resistência resulta da mobilização dos saberes cotidianos,
das práticas profissionais do mundo do trabalho, da cultura particular do
grupo, da memória familiar e comunitária, da memória e da experiência das
lutas populares e sindicais – aspectos fundamentais para a construção da
contra-hegemonia. Além disso, a pesquisa propiciou ainda compreender melhor
como a ideologia do neoliberalismo solapou através do slogan do progresso
tecnológico e pela via da apologia ao individualismo consumista, o aspecto
coletivo, democrático, educador que a comunicação pressupõe para o exercício
da cidadania e emancipação do sujeito. Neste sentido, buscaremos avançar
teoricamente discutindo a relação entre comunicação/trabalho versus ação
comunicativa. Pretendemos com isto destacar que os estudos de recepção
contribuem para as teorias de comunicação na medida em que não se deixam
apanhar pelo culturalismo particularista que desvincula os grupos societários
das mediações que permeiam a todos de uma maneira ainda mais complexa na
sociedade globalizada e capitalista. Recepção
da comunicação no mundo do trabalho: uma crítica à ação
comunicativa Introdução Proponho-me a um desafio, ou melhor a uma aventura: discutir o mundo do trabalho como uma categoria central para se compreender as complexas mudanças da contemporaneidade, principalmente aquelas que se dão no campo comunicacional, visto que a partir de uma primeira pesquisa de recepção pude comprovar tal hipótese. É um desafio, porque proponho-me a discutir tal centralidade em detrimento da postura habermasiana de ação comunicativa. Esta discussão se coloca em pauta devido aos desafios que enfrentamos no sentido de darmos conta da complexa realidade que se nos apresenta. Penso que o campo científico da comunicação é um campo privilegiado para esta reflexão e análise devido exatamente a sua natureza multidisciplinar e à proeminência que os instrumentos ou tecnologias da comunicação desempenham no atual desenvolvimento das forças produtivas. Comunicação: campo privilegiado de observação da realidadeO estatuto de ciência ao campo da comunicação tem sido ainda motivo de acaloradas discussões acadêmicas. Aspectos norteadores dessas discussões têm demarcado basicamente duas tendências: uma primeira, que entende o campo da comunicação como das práticas e técnicas profissionais, no máximo como campo que possibilita o desenvolvimento de novas tecnologias e processos de transmissão da informação. Outra que se debate por ampliar a compreensão primeira no sentido amplo do que seja o processo de comunicação, envolvendo as interações humanas, as sociabilidades, as técnicas e práticas, as tecnologias e as novas sensibilidades, a comunicação como educação, como poder e desenvolvimento dos grupos sociais. Ou seja, o diapasão a que se propõe esta segunda maneira de perceber o estatuto científico do campo da comunicação é arrojadamente multi, trans e interdisciplinar. Não cabe aqui discorrer sobre as áreas das ciências aplicadas a que se afiliou o campo da comunicação para sua fundação. No entanto, é pertinente fazer uma reflexão, a qual também fui chamada a exercitar a partir de estudo anterior[1], sobre como o campo científico da comunicação tem se ampliado e se tornado mais complexo à medida que desejamos conhecer e compreender a realidade da sociedade contemporânea e suas formas de expressão. Pode-se ter idéia da envergadura e complexidade a que o campo da comunicação está chamado a explicar, devido à crescente relevância da comunicação como conceito chave para se compreender as transformações que ocorrem na contemporaneidade. As pistas que tenho encontrado a partir de minhas pesquisas e reflexões são desafiadoras, pois indicam a necessidade de o campo da comunicação assumir o desafio de responder ao que se coloca, ou seja, sua relevância conceitual. Em contrapartida, afirmo, como conclusão da pesquisa citada, que o mundo do trabalho é mediação fundamental na recepção dos meios de comunicação, afirmo que as relações que acontecem no mundo do trabalho formam o ponto de vista a partir do qual o receptor se relaciona com os sentidos e as representações do mundo. Afirmo como decorrência que a categoria trabalho permanece conceitualmente importante para que se compreenda a realidade. Por que então, poderia ser argüida, é a partir do campo da comunicação que busco compreender o que se passa no mundo do trabalho?, e por que é o campo da comunicação o “lugar” do qual reivindico estatuto científico para afirmar que a categoria trabalho é ainda fundamental? Estas duas singelas questões aparentemente desmerecem as conclusões obtidas pela pesquisa anterior, assim como aparentam debilitar qualquer nova pesquisa sobre os mesmo pressupostos. É exatamente para responder a essas perguntas que tenho estudado o binômio comunicação e trabalho, tendo como hipótese teórica que o mundo do trabalho é mediação fundamental na recepção da comunicação. Parto do desafio de comprovar tal hipótese teórica mobilizando os saberes de distintas áreas: da Sociologia do Trabalho, das Teorias de Comunicação, dos Estudos Culturais e da Análise do Discurso. Os pressupostos que orientam esta mobilização são os de que o campo da comunicação também mudou. Ou seja, o campo da comunicação não deve continuar sendo tomado como campo científico secundário, voltado para explicar as práticas e técnicas comunicacionais, a transmissão da informação etc., mas precisa ser abordado como campo que passa por transformações conforme tem inclusive sido alardeado por jargões tais como: a denominada queda de paradigmas, sociedade da comunicação e da informação, era do conhecimento etc. A hipótese que defendo precisa mobilizar a Sociologia do Trabalho para que se possa verificar como o mundo do trabalho, as forças produtivas dele oriundas, são transformadas com o advento das novas tecnologias da comunicação, ou melhor, das tecnologias para transmissão de informações, ou seja, como os computadores, máquinas inteligentes, têm transformado a relação com o trabalho e a produção, como as técnicas de gestão do processo produtivo têm transformado a planta das empresas, como a realidade da produção – máquinas, equipamentos, homens – tem sido reorganizada em função das novas maneiras de produzir e como os instrumentos de comunicação – máquinas, informações e processos – cada vez mais fazem parte do que se denominam forças produtivas e, portanto, como é neste território que as pesquisas de comunicação precisam debruçar-se para compreender o que está mudando na própria comunicação, nas sensibilidades, nas formas de ver, ouvir, falar, sentir: comunicar-se. Os Estudos Culturais são chamados porque mobilizam os conceitos de cultura e sujeito, assim possibilitando ver as transformações no mundo do trabalho de maneira mais rica, extrapolando a normatividade da economia política e dialogando com maior pertinência com o campo da comunicação. A gestão da comunicação nas empresas e nas organizações do mundo do trabalho tem se apropriado já há um bom tempo dos conhecimentos produzidos pelas Teorias de Comunicação. Agora, muito mais, tem se utilizado desses saberes para redimensionar o mundo do trabalho. No entanto, é o mundo do trabalho que orienta, escolhe e direciona tal apropriação. Claro, é um processo dinâmico e dialético. O mundo do trabalho, composto por distintos sujeitos da comunicação, com saberes e culturas, dá sentido, ou melhor, contextualiza os sentidos e construção da persuasão. Nesta complexidade, a Análise do Discurso é referencial teórico metodológico fundamental para os procedimentos metodológicos de coleta, análise e interpretação dos dados da pesquisa, pois a linguagem verbal, enquanto costura dos distintos campos semiológicos, e aspecto fundante da cultura, proporcionará os recursos necessários para a aproximação do pesquisador aos dados da realidade. A hipótese que começo a construir vai de encontro às afirmações de Habermas sobre o papel da ação comunicativa, a partir de uma dialética positiva, na construção do consenso e da razão. Quero discutir como Habermas compreende a linguagem – ancorada na teoria dos atos de fala – como estrutura que se dinamiza na busca do entendimento/consenso. Pensamento/linguagem/cultura - assim dispostos entre barras – consubstancializam o universo no qual se dá a comunicação – aqui tomada, como tornar comum, fazer-se entender, compreender – e no qual estão inscritas as relações sociais, as relações de produção inclusive, não há autonomia da linguagem: os atos de fala, as ações desencadeadas pela palavra estão inscritas naquele universo consubstanciado. A novidade de tomar o campo da comunicação enquanto campo avançado de observação da realidade em transformação, tendo como hipótese a relevância do mundo do trabalho, é só aparentemente paradoxal. É o campo da comunicação que tem sido requisitado para ajudar a pensar as transformações que se dão no mundo do trabalho, pois a comunicação faz parte dele, não apenas como instância de sociabilidade, mas como técnicas, instrumentos e procedimentos: como integrante das forças produtivas. Comunicação e mundo do trabalhoO termo sociedade do conhecimento quase sempre vem ligado à idéia, que se propagandeou, desde início da década de 90, de fim do trabalho. De que sociedade está se falando, de que tipo de conhecimento e qual trabalho diz se que acabou? Talvez estas sejam as questões a serem colocadas. Muito mais slogans para mídia e consumo do que conceitos científicos para compreensão da realidade, muito se confundiu com as máximas acima enunciadas. Tem sido esforço de um conjunto de intelectuais brasileiros pensar o que de fato acontece com o mundo do trabalho. Na Sociologia do Trabalho existem contribuições bastante significativas, que além de tomar as transformações objetivas que se dão na ordem da empresa enquanto base produtiva, realizam estudos no âmbito das culturas das organizações (leia-se empresas), no âmbito das subjetividades e da construção dos sentidos do trabalho[2]. A idéia é trazer para o campo da comunicação essas contribuições, tendo como pano de fundo a hipótese de que grande parte das mudanças que ocorrem no mundo do trabalho são devidas às importantes contribuições que as tecnologias da informação, as técnicas de comunicação e persuasão passaram a ter na base material da sociedade contemporânea. Os mecanismos, tecnologias, instrumentais, processos e procedimentos advindos do campo comunicacional reinventaram a sociedade do trabalho, trazendo maior complexidade para se compreender o que de fato ocorre. A diversidade, a fragmentação e a precarização da realidade do trabalho fazem emergir um fosso ainda maior entre as camadas sociais. O problema do acesso ao conhecimento socialmente produzido, aos bens de consumo e culturais, incluindo a educação formal continuada são questões que se colocam em um patamar ainda mais elevado como problemáticas a serem enfrentadas para que o sujeito social consiga manifestar-se como SER genérico. As empresas tornaram-se transacionais. Mais de 50% do PIB mundial está representado por grandes empresas que atuam globalmente. Octávio Ianni, neste sentido, contribui com a sua análise de globalismo (Ianni, 2000), como um momento diferenciado do capitalismo. Assim como passamos pelo colonialismo, pelo imperialismo, hoje vivemos a fase do globalismo. As características desse momento estão circunstanciadas pela importância do caráter volátil adquirido pelas trocas capitalistas, volatilizando capitais, conhecimentos, forças de produção etc. Outra contribuição do próprio Ianni é a metáfora do Príncipe eletrônico[3], construída para explicar a importância dos meios de comunicação e do sistema simbólico para persuasão, com forte presença na política, na organização social e na criação de novas formas de relacionamento social.
Nosso problema específico, é o de
entender como estas mudanças vêm se materializando concretamente no âmbito
das empresas, de sua organização material, tecnológica e das forças de
trabalho bem como a sociabilidade, que se dá no mundo do trabalho, conforma ou
atua como importante fator subjetivo no processo de recepção dos bens
culturais produzidos pelos meios de comunicação. Pois, certamente, atuam sobre
eles e vice-versa. Os sentidos do trabalho e os sentidos que se configuram a
partir do mundo do trabalho para a construção da persuasão e da hegemonia são
os fatores que nos interessam e, que para chegar a eles, não podemos desprezar
os desafios teóricos que se colocam ao se destacar o agir comunicativo como
construção de uma esfera de consenso e de razão comunicativos em detrimento
da compreensão da complexidade da sociedade de classes e de que os processos de
comunicação e construção dos sentidos devem levar em conta tal complexidade.
Para sair do âmbito da vontade e entrar no da compreensão científica da
realidade, iniciaremos uma discussão sobre os conceitos habermasianos de
linguagem e ação comunicativa. O mundo da vida, a ação comunicativa e a razão comunicativa para HabermasParto de uma síntese, portanto um exercício simplista, pois começo a delinear algumas idéias críticas sobre a teoria da ação comunicativa em Habermas. Alguns conceitos-chaves trabalhados por Habermas são: a teoria dos atos de fala, ação comunicativa, razão comunicativa e mundo da vida. O tema da verdade esta subjacente a toda essa discussão à medida que Habermas defende que os sujeitos de fala buscam o consenso sobre a verdade; e à medida que sua teoria da ação comunicativa busca compreender como se constrói a razão comunicativa, ou seja, a busca do consenso e o entendimento entre os sujeitos em interação. O próprio Habermas chama a atenção para o perigo de se reduzir a ação social às operações interpretativas dos sujeitos em interação, mas parece que é exatamente este o problema que acaba acontecendo com ele, devido ao objetivo anteriormente fixado de busca da razão através da ação pelo consenso. Vejamos o que diz Habermas ao defender a posição sobre como a linguagem entra na formulação de seu modelo comunicativo: “(...) el modelo comunicativo de acción, que define las tradiciones de ciencia social que partem del interaccionismo simbólico de Mead, del concepto de juegos de lenguaje de Wittgenstein, de la teoría de los actos de habla de Austin y de la hermenéutica de Gadamer, tiene en cuenta todas las funciones del lenguaje. Como se ve en los planteamientos etnometodológicos y en los planteamientos de la hermenéutica filosófica, el peligro radica aquí en que la acción social se vea reducida a las operaciones interpretativas de los participantes en la interacción, en que actuar se asimile a hablar e interección a conversación. En realidad, el entendimiento lingüístico es sólo el mecanismo de coordinación de la acción, que ajusta los planes de acción y las actividades teleológicas de los participantes para que puedan constituir una interacción.” (1988:138) A compreensão que Habermas tem da linguagem está consubstanciada no que ele chama de três mundos onde o ator/sujeito contrai relações com outros: “(...) el mundo objetivo (como conjunto de todas las entidades sobre las que son posibles enunciados verdaderos); el mundo social (como conjunto de todas las relaciones interpersonales legítimamente reguladas); y el mundo subjetivo (como totalidad de las vivencias del hablante, a las que éste tiene un acceso privilegiado).” (1988:144) Esta forma de buscar entender como atuam os sujeitos capazes de linguagem em interação social, tem origem nos ensinamentos de Piaget sobre as diferentes relações entre aprendizagem de estruturas e aprendizagem de conteúdos, problemática que abarca simultaneamente distintas dimensões da compreensão do mundo. Destas apreciações Habermas vai cunhar o conceito de mundo da vida. Para ele “ (...) Al actuar comunicativamente los sujetos se entienden siempre en el horizonte de un mundo de la vida. Su mundo de la vida esta formado de convicciones de fondo, más o menos difusas, pero siempre aproblemáticas. El mundo de la vida, en tanto que transfondo, es la fuente de donde se obtienen las definiciones de la situación que los implicados presuponen como aproblemáticas. En sus operaciones interpretativas los miembros de una comunidad de comunicación deslindan el mundo objetivo y el mundo social que intersubjetivamente comparten, frente a los mundos subjetivos de cada uno y frente a otros colectivos.” (1988:104) Mais adiante ele esclarece o que entende como ação comunicativa e o papel da linguagem neste contexto. Afirma Habermas: “Sólo el concepto de acción comunicativa presupone el lenguaje como un medio de entendimiento sin más abreviaturas, en que hablantes y oyentes se refieren, desde el horizonte preinterpretado que su mundo de la vida representa, simultáneamente a algo en el mundo objetivo, en el mundo social y en el mundo subjetivo, para negociar definiciones de la situación que puedan ser compartidas por todos. Esto concepto interpretativo de lenguaje es el que subyace a las distintas tentativas de pragmática formal.” (1988:137-138) Como se vê para Habermas a linguagem é um meio que possibilita o entendimento, pois os sujeitos que se utilizam dela compartem um mesmo mundo da vida, o qual abrange o que ele chama de mundo objetivo, mundo social e mundo subjetivo. Esse mundo da vida – que permite a compreensão entre os sujeitos de fala – precisa ser dimensionado mais claramente pois pode ser compreendido como o referente (na visão triádica de signo), ou como a cultura de um determinado grupo social, ou ainda aquilo que determinada comunidade entende por realidade. Como se vê a problemática central aqui estabelecida é a do sujeito em relação ao mundo, ou seja, como ser e objeto se relacionam, tornando o mundo compreensivo e possível de sociabilidades. A impressão que se tem é de que há uma inversão entre realidade e linguagem (representação). Dizendo de outra maneira: a questão que se apresenta é da relação entre natureza/cultura, linguagem/pensamento. Aquilo que torna o homem um ser de linguagem, com as características de abstração, planejamento e dimensão temporal (presente, passado e futuro), é sua capacidade de ação e transformação da natureza e de si próprio, ou seja, a práxis, ou como nos explica claramente Izidoro Blikstein: “o conjunto de atividades humanas que engendram não só as condições de produção, mas, de um modo geral, as condições de existência de uma sociedade” (1990:54). Adam Schaff ajuda a pensar sobre esta questão ao afirmar que: “ a linguagem foi socialmente modelada a partir de uma determinada práxis social” (1976). Ou seja, a práxis social faz do sujeito um ser de ação comunicativa. É um processo que se retroalimenta, numa dinâmica que se explica na ontogênese e na filogênese humana. Dessa discussão, temos para Schaff a relação linguagem/pensamento/conhecimento, e aqui conhecimento como processo de apropriação conceptual da realidade. E temos para Habermas o consenso e o entendimento como a busca do sujeito pela verdade. Essa posição de Habermas, leva-nos a retomar o que tem sido o problema fucral da Filosofia: a verdade. Esse problema da Filosofia balizou-se pelo confronto entre buscar a verdade pela razão ou pela fé. Fé versus razão tem sido uma dualidade bastante frutífera. De Kant à Marx, de Adorno à Habermas a questão de fundo acima expressa permaneceu. A razão, em última instância, foi colocada em um altar. E, ao paradoxo a que me refiro, tornou-se a razão um ato de fé. Habermas ao tratar da razão comunicativa coloca-a como resultado das estruturas lingüísticas básicas que tornam possível a compreensão no mundo da vida, como nascedouro das condições para se chegar à razão. Mas, ao tomar o mundo da vida como o horizonte no qual os sujeitos se entendem, não é possível subtrair deste mundo da vida as condições materiais a ele pertinentes, ou seja, a cultura, a realidade socioeconômica, as tradições, o desenvolvimento das forças produtivas, a política etc. Falar em mundo objetivo, mundo social e mundo subjetivo separadamente, induz à percepção de que é possível haver um mundo social desvinculado e descontaminado de um mundo objetivo e de um mundo subjetivo. Estas formas estanques, estruturadas tão linearmente impedem compreender a dinâmica indissociável que faz da realidade uma infindável fonte de possibilidades de conhecimento, pois em processo. Habermas extrai da linguagem sua característica de arena social (Bakhtin), pois como mediadora, representação e possibilidade de conhecer a realidade ela é lugar de embate ideológico, de pontos de vista, sobre a vida a razão e a fé. Ou seja, a própria linguagem e suas estruturas lógicas não estão imunes aos conflitos e à dinâmica do conhecimento da realidade. Ao contrário, é expressão deles. Desta forma, a base do processo de hominização está na ação que o homem realiza sobre o continum real que o envolve, tornando este continum compreensivo e realidade para ele, como também ação sobre si mesmo; que o transforma e o faz compreender e revelar o que é real. Na gênese dessa práxis está o trabalho social. E é exatamente aqui que fazemos um corte nesta discussão inicial e ainda em estado incipiente, para fazermos algumas ponderações sobre a questão do sujeito e da subjetividade.
Sujeito, Subjetividade e trabalho Em meu livro Comunicação e trabalho (2001), enuncio uma concepção sobre o sujeito que ajuda a discutir e compreender o papel da linguagem no processo de conhecimento. Entendo “o sujeito social como um indivíduo singular, único, que se constitui inserido numa determinada época, num determinado espaço, num determinado conjunto de relações sociais, numa determinada época histórica, num determinado universo cultural. Ele é plural na medida em que se constitui da polifonia dos discursos que circulam na sociedade. E age polifonicamente. É um Ser ativo que produz sentido em relação ao mundo por ele vivido na filogênese e na ontogênese, ou seja, enquanto Ser resultado do processo histórico humano e enquanto processo de seu próprio tempo de vida. O sujeito não é um EU autônomo e autômato, livre no sentido de estar desligado do conjunto do que é a sociedade. O sujeito não é o EU fonte absoluta de significação, capaz de tirar e criar de si mesmo todos os sentidos”.(Paulino, 2000: ) Adam Schaff, analisando a concepção marxista de indivíduo, comenta a constituição do sujeito social: ´O indivíduo é, em certo sentido especial, uma função das condições sociais. Surge, assim, como um produto da sociedade, na forma concreta em que existe a sociedade. Se as condições sociais são condições de classes, o que está condicionado pela forma de produção, então será o indivíduo um produto das citadas condições, condicionado pela classe a que pertence. Mas o problema não se restringe às grandes classes sociais: inclui, também, camadas, grupos profissionais e semelhantes, conforme a estrutura da sociedade e do papel que determinado grupo desempenha em determinado período, sob determinadas condições. A concepção do indivíduo humano recebe, em conseqüência, uma forma sempre mais concreta, ligada com maior firmeza à sociedade, em suas diversas partes, dividida por determinadas condições´ (1967:74). Esse indivíduo social concreto objetiva-se e constitui sua própria subjetividade por possuir a característica de agir, de atuar sobre as condições dadas, transformando-as e transformando a si próprio. Sobre esse aspecto Schaff vai destacar o conceito de trabalho em Marx e como tal conceito relaciona-se com o de indivíduo. ‘O trabalho é a forma fundamental [da] atividade transformadora porque o homem cria, em oposição às forças míticas, algo de algo, e não do nada. O trabalho humano transforma a realidade objetiva e faz dela, assim, a realidade humana, isto é, o resultado do trabalho humano. Enquanto o homem transforma a realidade objetiva – sociedade e natureza – cria as suas condições de existência e se transforma a si próprio como espécie, na conseqüência. O processo da criação, do ponto de vista do homem, é, pois, um processo de autocriação. Por conseguinte, graças ao trabalho, nasceu a espécie Homo sapiens, que transforma e se altera graças a ele’(1967:76).” Essa compreensão de trabalho social como auto-criação é mais rica para nos fazer compreender como a linguagem também faz parte desse processo e não é apenas uma estrutura que padroniza os modos de conhecer o mundo, como meio de interação humana. A ação comunicativa, em função da razão comunicativa, limita a dimensão da comunicação, não entendendo-a como parte deste trabalho social que objetiva a vida genérica do homem. Trabalho e alienação do sujeitoMas se o trabalho é processo de autocriação, quando, no entanto, ele passa a ser regido por uma lógica que independe do sujeito que o realiza, este trabalho passa, no entender de Marx, a ser um meio de alienação do sujeito. É nos Manuscritos econômicos-filosóficos que Marx discute como o trabalho alienado do homem (trabalhador) que o produz resulta no produto privado pertencente ao capitalista. Para explicar como o trabalho alienado subtrai o sujeito de si mesmo, Marx afirma que: “É precisamente na ação sobre o mundo objetivo que o homem se manifesta como verdadeiro ser genérico. Tal produção é a sua vida genérica ativa. Através dela, a natureza surge como a sua obra e a sua realidade. Por conseguinte, o objeto do trabalho é a objetivação da vida genérica do homem: ao não se reproduzir apenas intelectualmente, como na consciência, mas ativamente, ele duplica-se de modo real e intui o seu próprio reflexo num mundo por ele criado. Pelo que na medida em que o trabalho alienado subtrai ao homem o objeto da sua produção, furta-lhe igualmente a sua vida genérica, a sua objetividade real como ser genérico, e transforma em desvantagem a sua vantagem sobre o animal, porquanto lhe é arrebatada a natureza, o seu corpo orgânico.” Mais adiante Marx continua: “A consciência que o homem tem da própria espécie muda-se através da alienação, de maneira que a vida genérica se transforma para ele em meio.”(Marx, 1993:165-166) Se o trabalho alienado resulta da relação que o sujeito tem com o objeto que produz para o capitalismo e se o trabalho alienado o afasta de si mesmo, enquanto ser genérico, intelectual e humano, reduzindo-o a um ser físico, voltado apenas à atividade vital de manter a existência física, então a vida, como afirma Marx, revela-se simplesmente como meio de vida e não como finalidade. Ora, se o sujeito subtrai-se a si mesmo na relação com o produto do trabalho alienado, ele próprio enquanto SER HUMANO vai procurar evadir-se dessa relação para reencontrar-se enquanto ser integral, genérico – caso contrário ele deixa de existir enquanto capacidade saudável para a própria reprodução. Ao buscar a evasão, este sujeito encontra na sociedade capitalista uma série de produtos que lhes são oferecidos como possibilidade de realização de seu ser genérico. No entanto, a maior parte destes bens culturais que lhes são disponíveis pertence à mesma lógica. São produtos que resultam igualmente de processos de alienação do trabalho. Este círculo que aparentemente parece vicioso só é rompido quando o sujeito retorna ao mundo do trabalho e busca, no contexto da própria lógica da expropriação capitalista, reapropriar-se de seu saber, de seu SER trabalhador. Este momento de “reencontro” consigo mesmo, com seu ser genérico dá-se no próprio mundo do trabalho, mas dá-se não em totalidade, e sim como processo de conscientização. Dá-se como busca e luta pela sua integralização. Este SER trabalhador reencontra-se ao buscar controlar seu próprio trabalho, desenvolvendo uma profunda relação com aquilo que faz, tentando contrapor-se ao controle que lhe vem de fora, dos processos e mecanismos de organização do trabalho ditados pelo capital. É na esfera das micro-relações que o sujeito busca manifestar sua totalidade de ser genérico. É exatamente neste interstício em que se mobilizam forças humanas com fins de organização e resistência à lógica do capital que se constroem as possibilidades de uma maneira particular e diferenciada de se relacionar com as coisas e os bens culturais da sociedade capitalista. Mobilizam-se os saberes cotidianos, a cultura particular, a memória familiar e comunitária para se proceder as “leituras do mundo” a partir do reconhecimento do mundo do trabalho como parte de seu SER trabalhador. Quando se fala, a partir da óptica do capital, na reorganização e na reestruturação dos processos de trabalho isto significa, sem dúvida, transtorno para o sujeito, na medida em que ele sofrerá para apreender, nesta nova ordem, quais as estratégias que tem de desenvolver para retomar o espaço de manifestação de seu ser genérico. Ou seja, ele também terá que alterar as maneiras de realização do trabalho, fazendo-o a partir de sua óptica, buscando as pequenas brechas, as fendas de onde ele buscará retirar fôlego para manifestar-se, expressar-se enquanto SER trabalhador. Esse processo de busca é constante e pode se dar de maneira mais ou menos competente na medida em que o próprio Ser trabalhador mobilize suas experiências e conhecimentos adquiridos ao longo de sua história de vida em prol da manifestação de sua subjetividade. Portanto, há um jogo de forças desproporcional, é verdade, que atua no sentido da alienação do Ser e no sentido de sua realização enquanto Ser genérico. Estudos de Recepção e práticas culturaisé neste quadro de jogo de forças e de mudanças sociais, relativas principalmente ao mundo do trabalho, que ganham proeminência os Estudos de Recepção, pois eles podem ajudar a compreensão do que se passa no processo comunicacional e como essa comunicação adquire sentido, valor, ao tornar-se conhecimento para o sujeito receptor. Os meios de comunicação e as novas tecnologias, ao criarem maior facilidade para o trânsito das informações, para o conhecimento e a transmissão da herança cultural de uma geração para outra, colocam à mostra os diferentes sentidos e as diferentes formas das expressões culturais que circulam na sociedade. É a compreensão profunda das relações que se estabelecem entre cultura, linguagem verbal e cotidiano que nos permitem ver os produtos culturais veiculados pelos meios de comunicação não como documento frio, sem pontes e nexos com as tradições, costumes, modos de vida, aspirações daqueles que o produziram. Mas, como discursos que possivelmente revelarão os pontos de vistas dos enunciadores/enunciatários sobre os sentidos do trabalho na atualidade. Bibliografia: ALVES,
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Notas [1] Trata-se do estudo de recepção, de minha autoria, publicado em Comunicação e Trabalho. Estudo de recepção: o mundo do trabalho como mediação da comunicação. São Paulo: Fapesp/Anita, 2001. 230p [2] Sobre esta questão são inúmras as contribuições qu já temos no Brasil. Algumas podem ser citadas aqui: ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? 3.ed. São Paulo/Campinas: Cortez/Unicamp, 1995. _______. O sentidos do trabalho. Boitempo, .....FLEURY, Afonso, FLEURY, Maria Tereza L. Aprendizagem e inovação organizacional. São Paulo: fudnação Vanzolini/ Atlas, 1997. MOTTA, Fernando C. Prestes, CALDAS, Miguel P. Cultura organizacional e cultura brasileira. São Paulo: Atals, 1997. ALVES, Edgar L. G., SOARES, Fábio V. Ocupação e escolaridade: modernização produtiva na Região Metropolitana de São Paulo. Perspectiva. São Paulo: Fundação Seade, v.11, n.1, jan./mar. 1997. p.54-63.BRESCIANI, Luís Paulo. Flexibilidade e reestruturação: o trabalho na encruzilhada. Perspectiva. São Paulo, Fundação Seade, v. 11, n. 1, jan./mar. 1997. p. 88-97. CASTRO, Nadya Araújo de. (org.) A máquina e o equilibrista. Inovações na indústria automobilística brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.______. Reestruturação produtiva, novas institucionalidades e negociação da flexibilidade. Perspectiva. São Paulo, Fundação Seade, v.11, n. 1, jan./mar. 1997. p.3-8. ______. Qualificação, desemprego e empregabilidade. Perspectiva. São Paulo: Fundação Seade, v. 11, n.1, jan./mar. 1997. p. 64-69.NOVOS ESTUDOS CEBRAP. Dossiê visões da globalização. São Paulo: CEBRAP, n. 49, nov. 1997.ROSA, Maria Inês. Trabalho, subjetividade e poder. São Paulo: Edusp, 1994.RUAS, R., ANTUNES, E. Gestão do trabalho, qualidade total e comprometimento no cenário de reestruturação. Perspectiva. São Paulo, Fundação Seade, v. 11, n.1, jan./mar. 1997. 42-53. entre outros. [3] IANNI, O. Figuras da modernidade-mundo... e também publicado como capítulo do livro: BACCEGA, Maria A. (org.) Gestão de processos comunicacionais. São Paulo: Atlas, 2002. p. 49-68.
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