Ciberlegenda Número 7, 2002

 

A cultura sob a ótica de Canclini

.

      

CANCLINI, Néstor García. Cultura y Comunicación: entre lo global y lo local. La Plata: Ediciones de Periodismo y Comunicación, 1997.

Renata Maldonado da Silva Lyra.

rmslyra@uol.com.br

 

O livro Cultura e Comunicação de Nestor García Canclini consiste em importante contribuição na linha dos chamados estudos culturais. A obra teve o mérito de discuti-los a partir da realidade latino-americana. Criticou o chamado eurocentrismo daqueles que querem compreender a cultura local a partir dos padrões europeus, considerando-a por isso atrasada e não-civilizada.

O autor conceituou cultura como um processo em constante transformação, diferenciando-se da tradicional visão patrimonialista, adotando uma postura de mobilidade e ação.  Defendeu o polêmico conceito de relativismo cultural. Segundo ele, todas as culturas possuem formas próprias de organização e características que lhes são intrínsecas, embora possam nos parecer estranhas, devem ser respeitadas. Neste segundo sentido, sua postura naturaliza a cultura humana. 

Canclini considerou o consumo como uma das principais características da cultura contemporânea. Chamou a atenção, seguindo os passos de Jean Baudrillard, para a existência do valor dos signos e valor dos símbolos. Afirmou que, além dos tradicionais valores de uso e de troca, já analisados por Marx, os objetos também possuem valores relacionados com a sua significação. 

Na mesma obra, o autor criticou o fenômeno da globalização, considerado por muitos autores como um processo inevitável. Afirmou, ainda, que os aspectos culturais globais não perdem sua relação com o local. Devido à complexidade do mundo em que vivemos, segundo ele, viver-se-ia hoje a multiculturalidade ou a chamada “hibridização” cultural.  

As vinculações existentes entre comunicação e política foram tratadas na mesma obra. Para Canclini, uma das principais questões atuais é a de como promover interações culturais democráticas de longo prazo, considerando as últimas décadas da história latino-americana. Ele, no entanto, não abordou a história política dos países desta região nos últimos trinta anos, desconsiderando sua importância para os problemas que estudou. 

O autor chamou atenção para os papéis desempenhados pelas indústrias culturais e pelas cidades. Percebe-se que ele priorizou a cultura criada por estas últimas, desconsiderando a importância dos aspectos culturais do campo, por exemplo. Abordou, também, a importância do estudo da identidade, que é organizada pelos vários grupos sociais. Pensa-se, ao contrário do autor, que este conceito é uma construção, definido de acordo com os interesses vigentes. 

Discorda-se do autor, quando afirmou que o imperialismo acabou no mundo contemporâneo. Considera-se que os problemas latino-americanos não se devem exclusivamente a ele, mas que ainda se encontra presente em algumas manifestações culturais da atualidade. 

A obra deste antropólogo consiste em contribuição importante para se elaborar estudos transdisciplinares na área da comunicação. O autor tratou da importância do chamado “público”, apesar de não ter aprofundado a questão. Afirmou a importância deste no chamado processo comunicacional, enquanto sujeitos históricos atuantes neste contexto. 


Renata Maldonado da Silva Lyra é mestre em Comunicação Social pelo Mestrado em Comunicação, Imagem e Informação, no Instituto de Arte e Comunicação Social, da Universidade Federal Fluminense – IACS/UFF. 

Home page