Ciberlegenda Número 6, 2001
|
|||
|
Tempo real e espaço virtual exigem uma nova teoria da comunicação |
|||
|
. |
Baiano
de São Gonçalo dos Campos, Muniz Sodré é professor titular e
coordenador do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, da qual já foi diretor. Com duas
dezenas de livros publicados no país e no exterior (traduções),
escreveu inúmeros artigos na imprensa e em periódicos especializados, além
de proferir conferências e cursos em universidades da Europa e da América
Latina. Um dos pioneiros no campo dos estudos comunicacionais, Muniz é,
sem dúvida, o mais respeitado professor e pesquisador da área no Brasil,
sendo a sua obra uma referência fundamental no acervo bibliográfico em língua
portuguesa. Tem sido responsável, como orientador de dissertações e
teses, pela formação de toda uma geração de novos pesquisadores.
Nesta entrevista, às vésperas de completar 60 anos, Muniz Sodré fala de seu percurso acadêmico e propõe uma revisão teórica da comunicação, em face de transformações decorrentes da aceleração tecnológica, da reconfiguração das noções de tempo e espaço e dos impactos provocados pela multiplicação de “tecno-interações” nas mídias. Ele anuncia também o lançamento daquele que considera o seu mais importante livro – Antropológica do espelho –, já no prelo, pela editora Vozes. Qual
a importância da teoria da comunicação na atualidade ? Veja
só, uma teoria é sempre uma hipótese provisória sobre um campo de
conhecimento. Não há portanto uma teoria, há teorias da comunicação.
São muitos olhares, muitas hipóteses sobre o que é o campo da comunicação.
O conjunto das teorias americanas, todas dentro do quadro da sociologia da
comunicação e que têm uma herança francesa por via de Gabriel Tarde,
de Durkheim, foi levado aos Estados Unidos por europeus. Gente que mora
nos Estados Unidos mas que vem da Europa e que fundou um campo de pesquisa
em comunicação de massa, The Mass
Communication Research. Todos esses trabalhos se dão no quadro da
sociologia e da psicologia, sociologia da comunicação, psicologia da
comunicação, escola americana, sociologia funcionalista. Ora para
atender a mercados, ora para atender a governos, saber sobre a composição
e o comportamento de multidões. As teorias francesas são mais
especulativas, teóricas, têm mais a ver com linguagem e com discurso,
filosofia. Eu sou mais francês nesse sentido, me formei na França, gosto
do material mais filosófico, mais antropológico, do que da coisa de
campo, sociológica. As
teorias sobre a comunicação, de modo geral, vão substituindo umas às
outras, e tudo conflui para
se chegar hoje à autonomia do campo comunicacional. Acho que o campo da
comunicação já tem uma autonomia de questionamento com relação à
sociologia, à antropologia, à psicologia. É isso, aliás, que estou
desenvolvendo no momento, na minha pesquisa do CNPq, nos meus cursos aqui.
O primeiro resultado de dois anos de trabalho é um livro que vai sair
pela Vozes, no início de 2002, que se chama Antropológica
do espelho. É uma teoria da mídia, tanto da mídia linear - rádio,
televisão, cinema - quanto da mídia reticular - da mídia de rede que é
a Internet. Estou preocupado com uma teoria particular, minha, da mídia,
que apresento nesse livro. Acho
que nós já podemos falar em ciência da comunicação, quer dizer, uma
ciência não no sentido positivista do termo — não é uma ciência
experimental, nem indutiva, nem mesmo dedutiva. Mas uma ciência no
sentido clássico, capaz de obter um consenso da comunidade de
investigadores, de pesquisadores. Acho importante os estudantes conhecerem
as muitas teorias da comunicação e refletirem sobre este campo, porque só
assim é que o estudante, principalmente de graduação, vai distinguir a
atividade comunicacional da atividade prático-profissional pura e
simples, que é diferente. O campo comunicacional fala de um conjunto que
já se constitui como um objeto teórico, enquanto a prática jornalística
ou publicitária é uma prática recortada, que nem sempre recobre ou dá
conta do que é efetivamente o objeto da ciência, do saber comunicacional.
Então, é muito importante conhecer teoria da comunicação. Qual
a teoria que mais se adequa ao trabalho que o senhor desenvolve? As
teorias francesas, no caso a semiologia? A
minha. A minha própria (risos). Eu estou realmente apresentando, no livro
Antropológica do espelho, uma
teoria da comunicação. Deixa eu ver se encontro uma boa síntese para
dizer. Primeiro, há uma enorme transformação social no âmbito do espaço
e do tempo. Quando você quer falar de mudança, de transformação
social, você tem que pensar essa mudança a partir dos pressupostos, das
categorias a priori em que a
experiência, os fenômenos vão emergir, que são o espaço e o tempo.
Tempo real e espaço virtual estão operando um redimensionamento do espaço
temporal clássico, da temporalidade clássica, o real e o virtual. Aí
está um ponto de poder que dá a especificidade do objeto da comunicação,
exigindo uma nova antropologia ético-política da comunicação ou uma
nova teoria da comunicação. Um desafio de redescrever o homem diante das
novas tecnologias: esta é a questão da antropologia ético-política da
comunicação. Redescrever como o homem, o indivíduo, o sujeito humano se
situa diante de uma sociedade que é por inteira, mesmo nas suas zonas de
pobreza, atravessada por tecnologias. Depois, levar em conta as transformações
da consciência, dos jovens que agora estão brincando o tempo inteiro com
computador, com videojogos, sob o influxo de uma ordem cultural que é de
ordem simulativa. Essa geração parece ter contato com o mundo das simulações. Ocorre um fenômeno novo, que nós poderíamos chamar de midiatização, diferente de uma interação qualquer. O que nós estamos observando agora é uma tecno-interação, uma interação por meio de tecnologia, que se processa desde o telefone até os meios de comunicação. Estamos assistindo a uma multiplicação, uma disseminação das tecno-interações na vida social. Pois bem, tudo isso que é midiatização é um processo abrangente, enorme na vida social; tudo isso diz respeito ao campo da mídia, dos meios de comunicação, mas a comunicação não se esgota aí. A comunicação diz respeito, na verdade, à vinculação, quer dizer, como e por que estamos socialmente juntos. Por que nós nos amamos, ou nos odiamos, nos respeitamos, por que nos matamos, ou por que morremos, às vezes, pelo grupo, numa guerra, para defender a família, sei lá... Significa, no fundo da questão da comunicação, a aproximação humana, e a questão da mídia é um dos aspectos dessa aproximação. A mídia diz respeito mais à relação do que a vinculação; o vínculo passa por músculo, passa por consciência, por carinho, afeto, passa por ódio. A relação é você botar identidades previamente estabelecidas em contato. E um terceiro aspecto é a cognição: como é que nós sabemos diluir isso, como refletimos sobre isso. O aspecto da cognição tem a ver com a ciência da comunicação, tem a ver com as teorias da comunicação. Você tem no campo comunicacional vários aspectos. Primeiro, o aspecto da vinculação, ou seja, até a relação amorosa, a relação entre pais e filhos é uma relação comunicacional, é um problema da comunicação também. Segundo, as relações coletivas, sociais, que envolvem mídia, é um problema de comunicação também, mais relação do que da vinculação. E, finalmente, a cognição que é a teoria da comunicação. Mas como foi que você tinha me perguntado no início? Qual
a teoria que mais se adequa ao seu trabalho. Nessa teoria, eu quero mostrar que a mídia é feita de moralidades, por mais obscena, pornográfica e imoral que ela possa ser eventualmente com relação a conteúdos. Na verdade, ela é uma forma de moralidade, uma nova forma de moralidade consentânea e homológica com relação ao consumo, a moral de consumo, moral de consumidor, uma moral mercantil. É essa moralidade que faz, digamos assim, o território, o mundo da mídia, e é por isso que nós aderimos à mídia. Não é que ela faça uma moral de natureza religiosa, intimidatória; é uma moral de adulação da consciência. Você se veste com uma roupa tal porque a atriz ou o ator se vestiu dessa maneira, ou porque você viu pessoas elegantes vestidas dessa maneira e acha que você fica bem assim. Da mesma forma, você vai ter um comportamento moderno porque a mídia diz que é. É esse território, essa moralidade de consumo, de modernização, que faz a especificidade da mídia. A minha é uma teoria eticista da mídia, na qual a ética, portanto a teoria da sociabilidade, desempenha o papel central. É uma teoria ética da comunicação, ético-política. O
senhor acha que a bibliografia disponível é suficiente para dar uma base
aos estudos de teorias de comunicação? Acho.
É uma bibliografia em construção. Você não está falando da
brasileira, está falando da internacional, em geral. Eu acho que sim, há
bons livros de introdução. Cito De Fleur, Mattelart, tem livros aqui no
Brasil da Lúcia Santaella, do Lucian Sfez, tem introduções bastante
abrangentes sobre teoria da comunicação, se quiser pegar diretamente
todo o material do funcionalismo americano sobre comunicação. Agora, a
bibliografia latino-americana, em língua espanhola, tem muita coisa,
autores importantes como, por exemplo, Jésus Martín-Barbero, Aníbal
Ford, Eliseo Verón. Aqui no Brasil, o campo se dispersa muito, mas tem um
trabalho em pesquisa bastante razoável, revistas de comunicação bem
feitas, bons trabalhos em análise do discurso, teoria da recepção, bons
ensaios, boas análises. O que eu acho problemático é o seguinte: em
geral os professores tendem mais a recorrer à bibliografia estrangeira do
que a nacional. Mas toda a área é um pouco assim, as pessoas tem um fascínio
muito grande pelo que vem de outra língua, não é só bibliografia. As
pessoas acham que o produto importado é melhor, e às vezes é. Entre um
perfume nacional e o francês ficaria com qual? Honestamente, o francês,
não é? Os franceses têm uma fama de perfume, em geral os melhores são
franceses. Às
vezes é melhor ler o original do que os comentários? É,
porque hoje os livros são muito comentários sobre comentários,
interpretação infinita das coisas. Comenta-se o comentador, que comentou
um outro comentador de um livro original. A questão da comunicação é
muito antiga. Não sei se você sabe qual é o autor mais citado no mundo
de livros de comunicação, é Platão. Fez-se uma pesquisa estatística e
o autor mais citado em comunicação no mundo não é nenhum autor da área
de comunicação, é Platão. Primeiro Platão, depois Aristóteles, mas
Platão é mais citado por quê? A questão fundamental da comunicação
é Platão, é uma questão antiga, é uma questão filosófica. A questão
da comunicação vai desde a amizade política até a retórica, que é
uma técnica política de linguagem. É a questão da mídia que está na
Grécia, já. Passa pelos romanos e, depois, ficou muito adormecida na
história do pensamento. É depois da guerra, já neste século, que isso
explode com a chegada dos meios de comunicação. Mas quando se vai pensar
radicalmente sobre o assunto, pensar profundamente sobre o assunto, você
encontra Platão. Na
sua opinião, existe algum perfil específico do professor na área de
teoria da comunicação? Um pesquisador, uma pessoa que seja pesquisadora
e lecione também? Eu
acho que a área da teoria da comunicação é a mais comprometida com a
academia, mais comprometida com o espírito antigo da universidade, também
mais comprometida com a pesquisa, a idéia de pesquisa de reflexão, da
elaboração. É mais para CDF, tem que ler mais filosofia, sociologia,
mais leitura teórica. Segundo, são pessoas um pouco mais pobres, pessoas
que optam pelo ganhar menos. Na prática, você pode trabalhar em jornal,
mas, em geral, o pessoal de teoria só faz aquilo. O que é um erro, pois
acho muito salutar, muito sadio, ser transversal, saber experimentar
coisas práticas, você conhece melhor. A comunicação é um tipo de
saber que exige isso, porque a prática pode ser reflexiva sobre si mesma
e é um tipo de comunicação que exige que o saber que se produz sobre
ela venha junto com a experiência na prática. Quer dizer que você
precisa trabalhar com redação de jornal para saber o que se passa ali.
Você tem pelo menos que tentar que a sua pesquisa entre nesta pratica de
algum modo. É muito difícil falar de jornal, saber de jornal, sem ter
tido o mínimo de experiência em jornal, ainda que seja a mesma coisa.
Com a televisão é a mesma coisa. Bourdieu escreveu um livro chamado A televisão. É incompetente o livro dele porque raciocina a
televisão como se fosse para jornal; ele fala da redação de jornalismo
da televisão e tem apenas a presença do jornal na televisão. Ele não
está falando de televisão, e sim do jornal dentro da televisão. É
preciso saber essas distinções às vezes de dentro. Portanto é um campo
difícil, mas que no meu entender já conquistou autonomia. Você
estava falando da relação professor-aluno, acho que esta relação não
mudou, o que é um erro. A expectativa era de que, com a autonomia do
campo da comunicação, houvesse uma
transformação da maneira do aluno se relacionar com o professor, ou uma
transformação na maneira de dar as aulas. Muitas vezes, as aulas
requerem mais prática, que exige mais atividade do aluno, mas são dadas
como fosse na escola de engenharia, ou seja o aluno sentado aprendendo cálculo.
Na engenharia tem sentido, aqui pode não ter sentido. A universidade é
muito pouco ágil para fazer essas diferenças. Às vezes, uma aula de
redação é mais importante, é muito mais importante que o aluno leia
determinado livro e produza experimentalmente o texto, ou que o professor
discuta com ele este texto, depois dele ter lido, do que o professor ficar
sentado em aula ditando a ele as regras de como fazer. Isso pode ser feito
durante a própria prática de elaboração do texto. Você tem que
remanejar a aula de outra maneira, com atividade de criação contínua
por parte do aluno. Um bom professor é aquele que sabe que às vezes pode ser derrubado pela criatividade de um aluno. E não querer, narcisicamente, que o sujeito apenas repita o que ele disse. O bom professor consegue ter alegria ao ver que o aluno soube encontrar um outro caminho, que ele soube partir dali para criar. Tenho, ao longo de minha história como professor, alunos que fizeram outra coisa, outro tipo de texto, mas sei que partiram de uma posição ali comigo. Tempos depois, você vai encontrar esse aluno e percebe que o cara soube disso, e é gratificante o respeito que ele tem por você. Às vezes, o aluno sabe durante o processo mesmo. O aluno bom estudante, ele vive como o filho na morte simbólica dos pais — o filho cresce matando simbolicamente os pais, tem o famoso conflito de filha com mãe, ou filho com o pai, faz parte. Com relação ao professor, é difícil mas necessário ao conhecimento, embora não seja a mesma coisa com relação a pai e mãe, mas tem uma transferência dessa ordem, é uma relação de amor e ódio, nesse sentido é onde a relação afetiva tem que se dar. A relação professor-aluno é extremamente importante, mas não se alterou muito nos cursos de comunicação, o que é uma pena. Existe
alguma bibliografia especifica que o senhor considere indispensável para
trabalhar sua matéria? Bibliografia
específica? Platão, Aristóteles, tem uma bibliografia de filosofia,
Baudrillard, Barthes, Eliseo Verón, além de livros sobre o Brasil,
porque dou muitos cursos sobre cultura brasileira, questão da identidade
nacional. Para mim, há livros fundamentais: Gilberto Freyre, Raimundo
Faoro, Octávio Ianni, sem falar em Lima Barreto e Machado de Assis. Tudo
isso eu incorporo à teoria, pois acredito que a teoria da comunicação
deve ser incorporadora da ficção. Vou
fazer três perguntas com relação a livros seus. Em seu livro O
monopólio da fala, o senhor atestava que a televisão suplantou, em
termos quantitativos, a imprensa, o rádio, cinema e teatro. Acredita que
isso vem ocorrendo com a Internet? Não,
Internet é mídia de mídia, estou repetindo um clichê, a televisão
também é mídia de mídia, incorporava rádio, jornalismo. A Internet
incorpora um pouquinho de cinema, telefone, correio, até relações
amorosas. Pode vir a incorporar e suplantar, mas ainda não suplantou,
porque o cinema na Internet é chato, devido aos problemas técnicos, da
mesma forma com o rádio. Eu diria que a Internet, até agora, ainda é um
balcão de negócios, não sei qual é o volume real de negócios da
Internet, mas é muita publicidade. É um meio de trocas de cartas e de
recuperação de dados, nisso acho que a Internet é imbatível. Mas não
creio que no entretenimento ela tenha suplantado a televisão. Em
determinado momento, a televisão parecia jurássica, mas, quando ela se
digitalizar e juntar-se com o computador, acho que será uma renovação.
Toda essa coisa do aparelho de DVD, ou a televisão digital que se
anuncia. Ou, digamos, se ao contrário a televisão sumir em função do
computador, o computador sumir em função da televisão, a net, a rede,
passará para a televisão que já existe. Acho que a televisão também
se renovou porque ela não é um bloco único, ela tem várias gerações
e nós estamos numa geração da TV fragmentada e digitalizada . No
seu livro A comunicação do
grotesco, foi ressaltado que a redução de custo de serviços
informativos para o consumidor ampliava o financiamento publicitário no
país, naquela época, e que isso era fundamental para a expansão da indústria
cultural. O senhor pensa que esse tipo de investimento agora, no caso das
televisões por assinatura no Brasil, é semelhante ou há diferença? Não, são investimentos diferentes. Esse investimento publicitário na televisão de massa é um primeiro modelo. O que é a televisão dependente de investimentos publicitários e ao mesmo tempo a televisão dirigida a um público amplo e disperso, que pressupõe uma audiência continuada da programação. A televisão a cabo é a televisão fragmentária, que pressupõe um tempo flexível da audiência, uma relação de custo direto, de negociação direta entre ela, por exemplo pay per view, você paga e recebe, é um outro tipo de financiamento. Nós não temos, portanto, o fordismo, a televisão em série, maciçamente vendendo e o capital se acumulando. Essa é a televisão mais correspondente ao capitalismo flexível, o chamado regime pós-fordista de produção. Ou seja, maior liberdade de uso para o consumidor. A televisão de hoje combina investimento publicitário com a venda direta. Tem outro tipo de relação. Em
relação a seu livro A máquina de
Narciso, o senhor ainda acredita em um individualismo caracterizado
pelo isolamento dos telespectadores, ou acha a televisão construtiva para
uma autocrítica da cultura? Dadas as diferenças culturais e sociais no
Brasil, o senhor acha que isso é possível? Do futuro eu não sei nada. Mas diria que se mantém, com relação a O monopólio da fala, a mesma hipótese de passividade do consumidor. Só que essa passividade aí não é entendida como passividade motora, não. Passividade com relação a iniciativas culturais. As pessoas de agora podem ser ativas manualmente, ficar o tempo inteiro zapeando a televisão. As crianças que lidam com videojogos derivados da televisão são muito ativas mentalmente, muito rápidas nos jogos, a atividade motora da criança é muito maior também. A diferença na escola entre essas crianças e as minhas filhas, que já são adultas, é enorme. As minhas filhas sempre foram brilhantes, falam línguas desde... Mas a minha neta, de dois anos, é melhor, é mais ativa do que elas verbalmente. Eu a vi anteontem cantando em inglês na escola bilíngüe Miraflores, em Laranjeiras. A pronúncia, para uma criança de dois anos, é impressionante. Eu fiquei olhando, assim, meu Deus, de onde é que vem isso? Eu vejo outras crianças que conseguem a mesma coisa, o mesmo resultado. É uma agilidade verbal, uma espécie de atenção que tem a ver com essas excitações da televisão, as múltiplas excitações que vêm do vídeo e também das atividades das pessoas em torno disso. Por via também de línguas estrangeiras, as crianças estão mais ativas. Não sei se vão ser mais criativas do que as outras, esse é outro problema, é preciso ter cautela. Tudo isso pode ser uma cultura de simulações e repetições, com uma excitação motora muito grande. Agora, se essa excitação corresponde a uma relação amorosa com a criatividade e com o mundo, eu não sei dizer. De certo modo, essa excitação à rapidez é a mesma excitação da droga. Têm drogados ou psicóticos depressivos conheço que, quando tomam o remédio que estabiliza a depressão, precisa ver a inteligência que demonstram. Têm amigos meus, adultos, velhos, que estão na beira do surto, você precisa ver a memória, a inteligência, a fala como vem. Qualquer criança de dez, doze anos que viva no computador me derrota facilmente naqueles jogos. Porque é outro tipo de atividade. Mas essa atividade se traduz numa produtividade cultural, numa iniciativa cultural? Eu não sei, acredito que não, porque ela está numa relação de responder cada vez mais rapidamente, inteligentemente, aos estímulos que vêm da mídia. Entre
os seus livros sobre comunicação, qual o senhor considera mais completo,
mais atual? Eu
gosto muito dos meus livros sobre cultura nacional: A
verdade seduzida, O terreiro e a cidade, que não lidam diretamente
com comunicação. Eu tenho um que combina as duas coisas, Claros
e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil, no qual falo da mídia
negra. Agora, especificamente sobre comunicação, acho que O
monopólio da fala e Reinventando a cultura têm mais atualidade. Entreguei outro livro
à editora, junto com a professora Raquel Paiva, que retoma a questão do
grotesco na televisão e nas artes em geral, que vai se chamar O império do grotesco, a sair também no próximo ano. Acabou de
sair um livrinho meu na Argentina, em espanhol, sobre violência, mídia e
sociedade. Eu acho que este livro que vai sair pela Vozes, Antropológica do espelho, talvez seja o meu melhor livro sobre
comunicação. ------- (*)Entrevista concedida a Rosane da Conceição Pereira e Christiane Rangel Sauerbronn dos Santos. Edição
final de Dênis de Moraes e Luís Carlos Lopes, professores do Programa de
Pós-Graduação em Comunicação, Imagem e Informação da Universidade
Federal Fluminense. ------- Notas: 1.
A transcrição e a edição do texto visaram manter, na medida do possível,
seu sabor de diálogo franco entre um intelectual experiente e duas jovens
entrevistadoras. 2. A entrevista faz parte dos esforços de pesquisa do projeto intitulado “Teorias da Comunicação: possibilidades e problemas”, sob a coordenação do professor Luís Carlos Lopes. |
||
|
.. |
|
||