Resumo:
Dois
movimentos concomitantes caracterizam a imprensa do Rio de Janeiro na década de
1920: o aparecimento de um jornalismo eminentemente sensacional e o surgimento
dos primeiros conglomerados de imprensa, representados pelos Diários
Associados. Espelhando de certa forma o chamado
pensamento conservador, os jornais da cidade adquirem características
peculiares. Para uns o sensacional é a grande arma de conquista do público.
Para outros, a ação política seria fundamental.
Em
meio a esses dois movimentos, o grupo dos Diários Associados lançam aquela que
seria a principal revista ilustrada brasileira do século XX : O
Cruzeiro.
Este
texto - parte de uma ampla pesquisa, financiada pelo CNPq, que reconta a história
da imprensa no Rio de Janeiro a partir dos indícios deixados pela múltiplas
falas do público - faz uma breve reflexão sobre a história inicial desse periódico
de um ponto de vista particular : o olhar do leitor. Num primeiro momento,
reproduz as estratégias editoriais e mercadológicas quando do lançamento da
publicação em novembro de 1928. Como segundo movimento, descreve as práticas
jornalísticas adotadas na década seguinte, que pode ser considerado o momento
de consolidação da revista no cenário nacional brasileiro.
Até
o momento, remontamos a história da imprensa do Rio de Janeiro durante os
cinquenta primeiros anos do século XX, estando agora exatamente na metade. A
partir dessa análise inicial escrevemos o livro “Desvendando a face do público:
50 anos de imprensa do Rio pelo olhar do leitor”, que está sendo editado com
financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (FAPERJ).
Indícios
e Vestígios
Que
indícios e vestígios o leitor de O Cruzeiro, de 1928, deixou impregnado nas páginas
daquela que seria uma das mais importantes publicações brasileiras do século
XX? Recuperar a história de um veículo de comunicação pela ótica das
leituras plurais do seu público é, sem dúvida, um exercício metodológico
que enfatiza alguns pressupostos.
Em
primeiro lugar, considera que o passado é sempre objeto de uma interpretação,
sob a ótica da leitura do pesquisador do presente. Assim, o que de fato se deu
está irremediavelmente emoldurado pelas ações do passado. São as pegadas, os
indícios e os vestígios que esses passos deixaram, que o pesquisador procura
enxergar, mas sempre sob a ótica da interpretação.
Assim,
este estudo procura remontar, ou melhor, reinterpertar a história daquela que
foi uma das mais importantes publicações brasileira do século XX a partir de
uma ótica extremamente particular: o leitor.
São
os indícios de apreensões de sentido e de apropriações deixados no texto que
nos permite aventurar na recuperação de uma dada leitura do passado. É essa
leitura que vai montando a história do periódico e não o contrário. O leitor
é que reconta aquela história, a partir de um movimento interpretativo
operacionalizado em duas direções: o do leitor do passado e o do leitor do
presente, no caso o pesquisador.
Baseados
no pressuposto de que a ação de ler é antes de tudo uma atitude ativa e que
uma obra só se constrói pela interação texto e leitor (RICOUER: 1997),
procuramos nesta pesquisa – da qual apresentamos apenas uma pequena parte –,
dar voz ao gesto interpretativo do público.
Para
Ricouer existe uma espécie de mundo do leitor, só ganhando a obra significação
através da mediação exercida pela leitura. O leitor se acrescenta ao texto
como uma espécie de complemento.
Sedimentando
essas suas afirmações na estética da recepção e do efeito, proposta
sobretudo por Jauss e Iser, Ricouer estabelece alguns pressupostos essenciais
para a construção de uma estética da leitura. Da mesma forma que existe um
autor implicado, para ele também o leitor está implicado no texto.
Esse
leitor deixa espécies de espaços em branco, lugares de indeterminação, que só
são construídas no ato de leitura. Para Ricoeur o texto é “como uma
partitura musical, sucetível de execuções diferentes” (1997:287).
Assim,
caberia ao pesquisador do presente remontar esses ritmos, harmonias, enfim essa
notação do leitor, através também de uma leitura. A obra que foi executada
pelo leitor e pelas leituras do passado é também submetida ao mesmo movimento
pelo leitor-pesquisador do presente. A ela são sobrepostas características que
definem o seu lugar no mundo dos textos.
Uma
leitura feita de imagens
“Nada mais fugaz nem tão
leve que o interesse do leitor de notícias. Um rápido passar de olhos sobre
o título e, às vezes, a graça de uma leitura apressada do texto compensam,
muitas, muitas vezes, dias, semanas, meses de esforços, riscos, ansiedade,
toda a vigília de um repórter. Este é o seu prêmio. O comentário. Uma
frase de elogio. O telefonema de um amigo. Na manhã seguinte, ele troca Peron
por um mestre de gafieira e vai gastando a sua lama, as suas emoções, a sua
sensibilidade, o seu fígado, a sua alegria, vai-se desidratando, vai secando
o seu estilo, vai depenando a imaginação, vai cortando as asas de veludo de
sua fantasia, para ser apenas um relator de fatos, um contador de histórias
que acontecem. O repórter é um anatomista. A notícia é o cadáver…”
(Moraes: 1965)
No
final dos anos 1920 surge na cena carioca uma revista aberta a novas
possibilidades de leitura para este fugaz leitor de notícias. A leitura da
imagem ganha destaque na cena do jornalismo, com a criação deste
novo periódico: Cruzeiro.
As
estratégias de publicação moldam práticas de leitura. Cria-se, em conseqüência,
novos gêneros de textos e novas fórmulas de publicação. Ao diversificar a
forma e o conteúdo dessa imprensa diária ou semanal alarga-se, a rigor, esse
auditório fugaz e nem sempre visível. Cada nova publicação cria novas formas
de organização e de transmissão dos textos, consolidando uma certa cultura
escrita.
Dentro
do território textual disponível, como acentua Chartier (1999: 31), os
leitores assumem o comando, dão significado às obras e as investem de suas próprias
expectativas. Os recursos técnicos visíveis nessas novas publicações não
possuem uma significação unívoca, como também não possuem o conteúdo que
salta dos periódicos. A técnica e o conteúdo são aquilo que os produtores e
os usuários fazem deles.
No
texto memorialístico sobressai as formas de leitura. A pressa com que o
receptor toma conhecimento da informação, o fato de um título chamar a sua
atenção. A leitura se faz de forma entrecortada, tal a profusão de informação
que inunda as páginas desses periódicos.
Uma
dessas apropriações realizada pelo leitor se traduz no comentário, também
explicitado no texto memorialístico de Mário de Moraes. “Este é o seu prêmio.
O comentário. Uma frase de elogio. O telefonema de um amigo”.
Mas
o que é o comentário? O que indica sobre a leitura? O que informa sobre o
processo de recepção?
Foucault
(1996) considera o comentário como um dos procedimentos internos de controle do
discurso. O comentário seria um dispositivo discursivo para dominar o próprio
discurso, reduzindo o que este tem de acontecimento e acaso. Toda sociedade,
escreve Foucault, separa alguns discursos para conservá-los, dando lugar a
novos discursos. São pois infinitamente repetidos, comentados e transformados.
O
dispositivo do comentário supõe um princípio de seleção dos textos e um
conjunto de regras que estabelecem as formas legítimas de relação com esses
textos, isto é, as leituras. Assim, cada texto está inscrito em pré-figurações
lingüísticas anteriores que pressupõem formas e modos de leituras. Pressupõem
também disparidades de apropriações, de controle, de interpretações.
Permite,
enfim, a construção de um novo texto a partir do original. A presunção dessa
afirmativa faz com que cada leitor dos periódicos ao comentar o texto, ao
reelaborá-lo, ao tomar posição crítica, ao passar os olhos rapidamente sobre
as manchetes e relegá-las a segundo plano seja, também, autor.
Bakhtin
(1990), ao considerar o caráter dialógico do texto, destaca também a questão
do comentário, mas sobretudo a transfiguração dos textos, ao serem
transpostos para um outro regime de literalidade. “Embora não saibamos da
mesma (palavra) tudo o que pode nos dizer, a introduzimos em novos contextos, a
aplicamos a um novo material, a colocamos em uma nova situação para obter dela
novas respostas, novas facetas quanto a seu sentido e novas palavras próprias
(porque a palavra alheia produtiva gera em resposta, de maneira dialógica,
nossa nova palavra)”.
Haveria,
pois, duas ordens de texto: um certo texto acabado, morto em sua literalidade e
um texto aberto a construções múltiplas, sendo, portanto, inacabado, dinâmico
e vivo em cada uma de suas traduções. E é possibilidade de ser traduzido
sempre pela leitura que dá ao texto seu caráter polissêmico e sua pluralidade
a múltiplas interpretações/criações.
Mas
é preciso considerar que o ato de ler é, sobretudo, provisório, já que a
leitura é sempre substituída por uma outra leitura indefinidamente.
Assim,
qualquer análise é antes de tudo uma leitura e uma interpretação. A análise
que se faz hoje das leituras múltiplas realizadas pelo público dos periódicos
de outrora nada mais são do que interpretações de um mundo múltiplo e
plural. Interpretações de uma cultura do impresso que existia somente naquele
mundo.
Um
mundo que vê surgir em 10 de novembro de 1928 uma nova publicação. Cinco dias
antes, 4 milhões de folhetos –
um número três vezes maior do que o de habitantes da cidade – são atirados
do alto dos prédios na cabeça de quem passa na então Avenida Central. Os
volantes anunciam o aparecimento de uma revista “contemporânea dos arranha-céus”,
uma revista semanal colorida que “tudo sabe, tudo vê”. Os panfletos trazem
no verso anúncios que serão veiculados pela nova publicação.
Que
tipo de sensação causara na cidade estas estratégias? Teriam elas levado o
leitor de 1928 a comprar cinco dias mais tarde a nova publicação que trazia
numa capa inundada de cores a figura desenhada de forma hiper-realista de uma
mulher?
Além
da profusão de cores, a capa do número um chama a atenção para o caráter do
desenho do rosto de mulher que a ilustra: a figura de uma melindrosa. Unhas
cintilantes, sombra nos olhos e boca pintada. Completando a atmosfera,
sobre o rosto da melindrosa as cinco estrelas de prata do Cruzeiro do Sul
que haviam inspirado o nome da revista. Abaixo do título a complementação: Cruzeiro
é uma Revista Semanal Ilustrada.
Com
a redação, administração e oficinas funcionando na Rua Buenos Aires, 152, Cruzeiro é dirigida por Carlos Malheiro Dias. Possui agentes em
todas as cidades do Brasil e correpondentes em Lisboa, Paris, Roma, Madrid,
Londres, Berlim e Nova York. O número avulso custa 1$000 e a assinatura anual
em todo o território nacional é de 45$000. No exterior o preço aumenta
consideravelmente: 60$000. Ainda neste primeiro número anunciam a tiragem do
novo periódico: 50 mil exemplares. (Cruzeiro,
n. 1. 10/11/1928)
Quase
a metade das 64 páginas da revista está repleta de anúncios. Além de páginas
inteiras a cores oferecendo os automóveis Lincoln, as novas vitrolas da GE e
filmes da Metro Goldwyn Mayer, há também uma profusão de pequenos anúncios:
de produtos de higiene à casas de tecidos, de hotéis à cabelereiros; de fogões
a gasolina à restaurantes. Profissionais liberais, como médicos e advogados
também anunciam em suas páginas. Remédios e elixires os mais diversos
completam a extensa lista.
Lado
a lado com os anúncios na primeira e na segunda páginas, explicam para o
leitor – que poderia ser também um anunciante em potencial - a importância
da propaganda:
“Um grande anúncio mal
apresentado e mal redigido vale menos do que um pequeno anúncio atraente. Nem
sempre o objeto do anúncio suporta uma larga despesa de publicidade. Um
pequeno anúncio insistente produz mais do que um grande anúncio isolado.
Criando a seção de pequenos anúncios “Cruzeiro’ oferece ao anunciante o
meio de obter com o mínimo dispêndio o máximo da eficiência publicitária”.
Tudo
isso por apenas 5$000 por centímetro, o preço com que compra cinco revistas. E
complementam:
“A propaganda passa a ser
um poderoso instrumento também no Brasil e o telefone a principal arma para
dinamizar as vendas”. (Cruzeiro,10/11/1928)
O texto de apresentação do primeiro número traça inicialmente um
paralelo entre o nome da publicação e a história do próprio país. Assim Cruzeiro é, ao mesmo tempo, “fonte de inspiração para os
primeiros nomes do país”, “a constelação que guia os navegantes”, “o
nome da nova moeda brasileira” e o “símbolo da bandeira”. Dessa forma é,
ao mesmo tempo, símbolo cristão e símbolo-síntese da nacionalidade. Por tudo
isso“Cruzeiro é um título que inclui nas suas três sílabas
um programa de patriotismo”.
O
mesmo texto particulariza para o leitor as diferenças básicas, na concepção
da época, entre revista e jornal.
“Um jornal pode ser o órgão
de um partido, de uma facção, de uma doutrina (…) A cooperação da
gravura e do texto concede à revista o privilégio de poder tornar-se obra de
arte. A política partidária seria tão incongruente numa revista do modelo
de Cruzeiro como num tratado de geometria (…) Uma revista deverá ser, antes
de tudo, uma escola de bom gosto”.
Materializando
o que definem como ideal, divulgam nas páginas internas reportagens, contos e
crônicas, nos quais a ilustração tem sempre destaque. O cunho nacionalista
domina o discurso. “A evolução da moeda no Brasil”, “A grafia de
Brasil” ao lado de charges encabeçadas pelo título “Progresso” ou
copiadas de revistas estrangeiras. O tema feminino também está por toda a
parte, indicando um público potencial que pretende conquistar.
No
primeiro número, indicam, ao lado de cada texto, o tempo médio de leitura.
Assim, para ler a entrevista com o presidente de Portugal, Oscar Carmona, o
leitor iria precisar de treze minutos e vinte segundos. O conto “Salva pelo
amor” demandaria um tempo maior: 26 minutos e vinte segundos. A reportagem
sobre a realização do filme Helena de Tróia, da Metro Goldwyn Mayer, dez
minutos exatos. O texto no qual o leitor levaria mais tempo é uma entrevista
com o pioneiro na produção de desenhos animados no Brasil: Luiz Seel. Para
percorrê-lo seriam necessários, segundo a revista, exatos 38 minutos e
dezessete segundos.
Presumindo,
pois, as pausas, as interferências, os momentos mesmo de leitura, a indicação
da temporalidade evidencia também uma certa presunção igualitária existente
na maneira de ler daquela sociedade. Indica a existência de uma cultura da
leitura dominante, ainda que não unívoca.
É
a leitura feita nos ambientes fechados, em voz baixa, com toda a atenção
voltada para o texto. O leitor de Cruzeiro,
devia, pois, inicialmente folhear a revista, passar os olhos sobre a profusão
de ilustrações e fotos existentes em todas as páginas e só depois se deter
nos temas que mais lhe chamam a atenção. Ai, sim, começa o que a revista
considera a leitura.
A
indicação do tempo real para ler cada um daqueles textos pode evidenciar também
a necessidade de direcionar o leitor para um veículo considerado completamente
diferente do que ele estava habituado. Cruzeiro não é uma revista ilustrada
como qualquer outra. É, como eles mesmo afirmam, uma espécie de “obra de
arte”. Pode indicar também que se deseja capturar leitores até então não
habituados a este tipo de veículo: a revista ilustrada.
Mas
pode significar muito mais: o tempo de leitura expresso no próprio veículo tem
uma função também de natureza informativa e ideológica. Particulariza
claramente quanto o leitor gastará do seu tempo livre na tarefa de ler Cruzeiro.
Há
uma espécie de obsessão do tempo. Numa sociedade que ainda está dominando o
tempo, dividindo-o sob a égide da lógica econômica capitalista, no tempo do
trabalho e no tempo do lazer, claramente distintos, onde um não pode interferir
sob o outro, o tempo da leitura também deve ser aprisionado.
“Olho o relógio. Nove
horas! Lucia está se preparando para ir ao cinema, ou para ir ao theatro, ou
para ir a casa de uma amiguinha, de onde volta à meia-noite, à uma hora, às
duas horas, pálida debaixo do rouge e sem sono” (O Cruzeiro, n.2,
17/11/1929)
Uma
outra prática editorial comum à época – a interrupção das matérias que têm
sua continuidade depois de várias páginas subseqüentes – também não deve
ser vista como resultado tão somente dos modelos editoriais existentes.
Esse
tipo de edição tanto das revistas como dos diários indica uma prática de
leitura particular: o leitor lê de forma entrecortada. Não há a mesma noção
de linearidade que já existe nas décadas seguintes. O texto é feito para ser
seccionado. O texto é feito para ser, em certo aspecto, memorizado…
Ao
folhear a revista, a continuidade do texto páginas e páginas adiante induz a
pensar que o leitor não se desvia pelo caminho, memoriza a última frase e
continua o texto, formando uma apreensão de sentido.
Não
seria justo pensar que este leitor capaz de percorrer um caminho sinuoso para a
leitura teria também uma leitura sinuosa?
Pouco
meses depois de seu lançamento, Cruzeiro
torna-se a grande revista nacional. As estratégias adotadas para conquistar
leitores são inúmeras: propõe manter contato direto com o público recebendo
cartas em várias seções, como a jurídica, a médica a de “arquitetura doméstica”.
Além disso, abusam das ilustrações, que dão o tom mesmo da revista. Distribuem
prêmios variados. Instituem concursos os mais diversos para a participação do
público.
O
primeiro deles é lançado ainda no número 1: um concurso de fotografia.
“Cruzeiro institui um prêmio
de 500$000 destinado ao fotógrafo profissional ou amador que lhe trouxer o
instantâneo inédito de um acontecimento que possa ser considerado
sensacional pelo assunto e pela técnica de execução” (Cruzeiro,
10/11/1928)
Meses
depois lançam um outro concurso que causa ainda mais sensação: de contos e
novelas. Os dez primeiros classificados teriam seus trabalhos publicados na
revista. O concurso desperta tal interesse que poucas semanas depois são
obrigados a suspender o recebimento de originais. Em curto espaço de tempo,
mais de quatrocentos textos tinham chegado à redação, “surgidos tanto dos
grandes centros de cultura como dos mais apagados recantos da província”
(MORAIS, 1994:194).
Um
público claramente buscado pela revista é o feminino. Para ele dedicam
numerosas páginas e seções. Uma delas – Dona
– mostra que é a mulher de melhor poder aquisitivo a leitora da publicação.
Além
dessa, dedica também ao público feminino a seção Carta
de Mulher, onde publicam correspondências das leitoras. Cinelândia, com as novidades sobre o cinema americano e fofocas das
estrelas de Hollywood, Estádio, com
notas sobre esportes variados, e Consultório
Médico completam as principais seções da publicação. Nesta última, um
médico responde às dúvidas dos leitores sobre os mais diversos problemas de
saúde.
Há
também nesse Cruzeiro dos primeiros tempos seções de curiosidades, culinária,
coluna social, moda e charges internacionais. Crônicas e contos de autores como
Malba Tahan, Eça de Queiróz, entre outros, compõem o restante do conteúdo.
Em
todos os textos, fotos materializam o clima do artigo ou da reportagem e são
poucas as páginas que não contém pelo menos um anúncio, distribuído –
segundo a revista – “de modo a atrair a atenção do leitor”.
As
indicações que transpõem as páginas e o próprio tempo mostram que este
leitor está por toda a parte. Podiam ser jovens que dedicam parte do tempo
livre ao acampamento, podia ser um sargento do exército, uma noiva interessada
no preço do enxoval, uma outra com a atenção voltada para os últimos
desfiles dos modistas. Podia também estar nas cidades do interior.
Na
edição de aniversário (n. 52, 2/11/1929) publicam a seção “Fotografias de
nossos leitores”. São seis fotos: “A futura capital do Brasil”, feita por
um leitor baiano; “ Carteiro”, de autoria de um morador de São Lourenço;
“A amiguinha de O Cruzeiro”, mostrando uma menina segurando exemplares da
revista, enviada por um leitor de Taubaté. Ao lado dessas, “Burros”, de um
leitor de Pedro do Rio, no interior do estado do Rio, “Cultura física”,
mandada do Espírito Santo e “Queda de um coqueiro” enviada por um leitor de
Maceió.
A
fidelidade à publicação é motivo para premiação. Um acordo com as casas
lotéricas – naturalmente também anunciantes – faz com que estas se
comprometam a fornecer um bilhete para os assinantes da revista em cada extração.
As
estratégias publicitárias adotadas pelos novos periódicos do futuro império
de Chateaubriand deram certo. Os lucros obtidos pelas empresas lideradas por O Jornal, em 1928, foram da ordem de 4500 contos.
“No ano passado essas três
fontes – publicidade, assinaturas e venda avulva nos deram quase 4500 contos
de lucro líquido. Se 1929 terminar como está começando para nós, o grupo
de empresas liderado por O Jornal terá uma receita líquida de 12 mil contos
de réis”. (O Jornal, 12/1/1929, apud MORAIS: 191)
Uma
revista invade corações e mentes
Mas
O Cruzeiro só se consolidaria no mercado editorial brasileiro na década
seguinte.
Gradativamente
o periódico, que apresenta fotografias acompanhando todos os artigos,
reportagens, crônicas e seções variadas, vai conquistando leitores e
leituras. Editada com 47 páginas, além de acrescentar o artigo o ao seu título original, começa a caminhada em direção
à expansão que seria recorrente nas décadas seguintes.
Na
edição de 25 de outubro de 1930 anuncia um programa de remodelação geral,
com a importação da Alemanha de uma nova rotativa capaz de produzir
rotogravuras a cores.
“O Cruzeiro que inaugurou
a rotogravura na imprensa ilustrada nacional e que serviu de campo
experimental para a rotogravura a cores, para o que tem já montada nas suas
novas oficinas a gigante rotativa de cinco unidades, adquirida na Alemanha”
.
O
programa de remodelação – como a própria revista nomeou como novidades –
inclui também o aumento do número de páginas.
“Essas reformas
representam em seu conjunto um dos mais arrojados empreendimentos editoriais
até hoje realizados no Brasil, e compreendem a execução semanal de 64 páginas
em rotogravura e cromo-rotogravura e uma vasta colaboração literária e artística,
confiada aos nossos mais notáveis escritores e ilustradores”.
A seguir, no mesmo texto dirigido expressamente aos seus leitores,
anunciam a futura alteração do preço do exemplar. Antes, porém,
materializariam para o público as inovações editando uma vez por mês um número
especial da revista. Assim, o leitor teria
“a demonstração prévia
da importância que vai assumir essa remodelação de modo a que nossos
leitores possam verificá-la, acompanhando-a nas suas fases progressivas, e
reconhecer devidamente a sua importância”.
O
número especial tem um sentido determinado: “facultar ao leitor a apreciação
das reformas por que vai passar esta revista até ultimar sua completa reformulação”
(“O Cruzeiro a seus leitores”. In: O
Cruzeiro, 25/10/1930).
Ao
mesmo tempo em que experimentam novos processos ainda desconhecidos, o que
trazia riscos à edição, promove a adaptação dos leitores a elementos
introduzidos no suporte impresso até então ausentes da imprensa nacional.
Manter o leitor fiel é o objetivo buscando, como também o é habituá-lo a
nova leitura que introduz a profusão de cromos a cores, num universo até então
dominado pelo realismo em preto e branco.
A
primeira edição de novembro de 1930 tem um só destaque: a deposição de
Washington Luís. A capa da revista reproduz uma foto do general Menna Barreto,
acompanhado por outros militares, em frente ao Palácio Guanabara no dia da
deposição do presidente. A matéria dá a senha para a tônica da revista
durante o período do chamado Estado Novo: o apoio incondicional à Getúlio e
à Revolução de 1930.
O
editorial deste número é ilustrado pela imagem do presidente deposto sendo
conduzido de carro até o forte de Copacabana, onde seria preso. Para a revista
a reprodução fotográfica servia de verdadeiro documento-monumento dos
acontecimentos. Construíam assim no presente uma história futura.
“A fotografia desta pagina
fixa o acontecimento máximo do movimento revolucionário de 24 de outubro,
quando o Sr. Washington Luís, deposto das suas supremas funções de Chefe do
estado pelas forças armadas constituídas em Junta Pacificadora; e tendo-se
inflexivelmente negado a abdicar, foi conduzido como prisioneiro à fortaleza
de Copacabana em seu automóvel, acompanhado por sua Eminência o Sr. Cardeal
D. Sebastião Leme e pelo Sr. General Tasso Fragoso, presidente do triunvirato
militar que assumiu o poder sob a designação da Junta Governativa Provisória,
como mandatário da revolução triunfante”.
A
seguir, explicam, detalhadamente, as razões da prisão do presidente deposto,
exagerando nas tintas descritivas para deixar claro que a ação extrema fora
decorrência da própria incompreensão de Washington Luís.
“Foi somente ao anoitecer
do dia 24, pela relutância invencível do Sr. Washington Luís em aceitar a
formula da resignação tão avessa à sua rígida tempera, e que, com patética
altivez declarara ser a vida naquele momento, o bem que menos prezava, que os
chefes do Exército deliberaram constitui-lo prisioneiro, cercando-o de todas
as garantias e transportando-o ao forte de Copacabana, quando já a adesão de
São Paulo pusera termo às últimas e débeis resistências apostas à
sublevação nacional” (O Cruzeiro, 1/11/1930).
Na
mesma edição publicam cinco páginas com 27 fotografias mostrando a vitória
da revolução. São imagens da população comemorando nas ruas, uma delas,
inclusive, tirada em frente ao Diário da
Noite; do empastelamento de jornais governistas pela multidão, como O
Paiz e das tropas em combate em frente ao Palácio Guanabara, entre outras.
Na
edição da semana seguinte, Getúlio Vargas é o tema e a capa da publicação.
Começa, ai, também em O Cruzeiro, a
construção da mítica em torno da imagem personalista de Getúlio que se
intensificará com a ação das instituições responsáveis pela consolidação
do chamado discurso estadonovista.
Na
mesma edição, o editorial é substituído pela reprodução a Ordem do Dia n°
1, do Comando Geral das Forças Nacionais. Diversas páginas ostentam fotos dos
comandantes da Revolução e editam ainda imagem de página inteira de um Getúlio
Vargas austero e nomeado como “chefe supremo da revolução”.
Essa
é a tônica do número. Há incontáveis matérias falando das ações
revolucionárias pelos quatro cantos do país e seus diversos participantes. A
seção “Fatos da Semana” é substituída por “Figuras e Fatos da Revolução”.
Até
o final de 1930, as mudanças editoriais são esporádicas e sem grande impacto.
Os contos agora são publicados a moda dos folhetins, com a continuação da
história nos números seguintes. Com isso, ao mesmo tempo em que trazem para o
público um tipo de texto e de edição familiar, criam a fidelidade do leitor
que deseja acompanhar o desfecho da trama. Ao invés da profusão de pequenas
fotos registradas nos anos anteriores, publica páginas gráficas, ocupadas
inteiramente por fotografias, como ocorre com a edição de 30 de novembro de
1935. Neste número, além da publicação de uma nova coluna – Novidades
da RKO-Rádio, onde noticia as tendências da moda das estrelas
norte-americanas – o Dia da
Bandeira é lembrado através de duas páginas com fotografias das comemorações.
Continuam destinando grande parte de seu conteúdo às mulheres, seja através
de colunas já existentes – como Dona -
ou de outras criadas posteriormente como Mãe
e Filho, na qual um pediatra dá conselhos médicos e educacionais. A questão
da saúde está sempre presente. Uma nova seção destinada a oferecer conselhos
sobre o físico – reproduzindo inclusive exercícios que as mulheres devem
praticar – ganha destaque: Graça, saúde
e beleza.
Mas
os temas políticos continuam sendo editados, algumas vezes com grande destaque.
Tal
como outros veículos pertencentes à Chateaubriand, também O
Cruzeiro apóia incondicionalmente o governo durante os acontecimentos de
outubro de 1935. Assim, na edição de 7 de novembro daquele ano, em duas páginas,
a revista noticia o desfecho do levante da Praia Vermelha.
“Aos primeiros momentos da
sedição, madrugada ainda, o Sr. Getúlio Vargas dirigiu-se de automóvel
para a Escola Militar, onde permaneceu ao lado dos oficiais que ficaram fiéis
ao Governo, levando o incentivo de sua presença aos soldados que combatiam os
amotinados”(O Cruzeiro, 7/11/1935).
Na
matéria são editadas sete fotos dos oficiais comemorando a vitória.
Diversas
promoções continuam sendo a tônica da revista como meio de conquistar
leitores. Muitas vezes divulgam concursos realizados por outras empresas jornalísticas,
como por exemplo o que é lançado pela Rádio Tupi, pouco tempo depois de sua
inauguração, em 1935, em que promove um “Concurso de Música Popular
Brasileira” para o ano seguinte. Concorriam sambas e marchas, através de votação
popular e os prêmios alcançam 2:000$000
reis (O Cruzeiro, 6/11/1935).
Em
1938, a revista muda de endereço: do moderno prédio da Avenida 13 de maio,
onde funciona todos os veículos pertencentes à Chateaubriand, para uma sede própria
na rua do Livramento, um arranha-céu, projeto de Oscar Niemeyer.
A
grande mudança, mas de natureza editorial, só viria dois anos depois: o novo
estilo de reportagem. Inaugurando a grande reportagem de caráter investigativo,
a revista possui ao alvorecer da década 1940 agências em todo o país e
correspondentes nas principais capitais do exterior. A II Guerra Mundial é o
grande tema dos anos 1940.
O
primeiro número da década, de 27 de janeiro, tem como matéria principal uma
reportagem fotográfica sobre o conflito, mostrando os confrontos entre russos e
finlandeses e uma vila alemã tomada pelos franceses. Entremeando esse clima
belicoso, notícias sobre estrelas de Hollywood, contos falando de amor, traição
ou enfocando histórias fantásticas. Em julho de 1940, o assunto principal é o
Armistício França-Itália-Alemanha. Sete fotos mostram a “paz de Copenhague
e Munique”. São imagens da assinatura do armistício, de De Gaule na
Inglaterra e de Hitler e Mussoline sendo “ovacionados pelo povo”.
Nas
datas nacionais, os olhares voltam-se para a política interna e para a difusão
da ideologia estadonovista. Exemplo disso é a edição de 7 de setembro de
1940, quando publicam fotos e texto sobre o “Desfile da Juventude
Brasileira”.
“Pela primeira vez, já arregimentanda, a Juventude
Brasileira desfilou Quarta-feira última, graciosa e marcial, perante milhares
de cariocas que quiseram testemunhar com a sua presença a gratidão legítima
pelos grandes esforços despendidos pelos organizadores do estado Novo, em
prol de uma raça sadia e forte e um revigoramento da população nacional”(O
Cruzeiro, 7/09/1940).
Mas
os temas políticos não afastam a intimidade das estrelas de Holywood, seus
vestidos suntuosos, suas casas luxuosas, nem os contos que causam sensação.
Realidade
e fantasia fazem parte do conteúdo da publicação, buscando com isso atingir
um leitor variado e cada vez mais expressivo. O Cruzeiro transforma-se na
publicação de maior circulação no país.
Cinco
anos depois, a revista introduz mais novidades. A primeira página não é mais
dedicada aos pequenos anúncios. Em seu lugar entra o índice, ao lado de um
artigo. Em maio daquele ano apresenta: artigos, reportagens, poesia, contos,
entrevistas, cinema, humorismo, assuntos femininos e figurinos e modelos. Além
desses, há as seguintes seções: Escreve o Leitor, Sete Dias, Back-ground, No
Mundo dos Livros, Foto-teste, Música, Sport-light e Mundanismo.
A
dupla David Nasser e Jean Manzon é reponsável pelas grandes reportagens desde
1943. O ex-fotógrafo da revista francesa Paris
Match, que chegara ao Brasil, em 1942, tendo trabalhado inicialmente no DIP,
introduz na revista fotos dinâmicas, bem distintas das imagens posadas e sem
impacto reproduzidas por O Cruzeiro até
então. A primeira reportagem da dupla é sobre “Os loucos”. Em 1944,
publicam a reportagem sensação “Enfrentando os Xavantes”, editada em 18 páginas,
com fotos de selvagens atacando a flechadas e golpes de borduna, a poucos metros
de distância, um avião (MORAIS, 1994: 419-420). A reportagem é reproduzida em
60 países. A revista esgota nas bancas. Nasce a marca da revista e que a
acompanha pelo resto da existência – a grande reportagem. Para milhares de
leitores surge ali um dístico ao qual se habituariam e que duraria quinze anos:
“Texto de David Nasser, fotos de Jean Manzon”.
Nas
páginas da própria revista é possível encontrar esse signo de admiração ao
trabalho que cai no gosto do público.
“Leitor assíduo de O
Cruzeiro e admirador do sensacionalismo da dupla Manzon-Nasser, formulo esta,
lembrando à guisa de sugestão, uma reportagem sobe uma usina da morte, de
onde saem cadáveres esquartejados para o repasto da baste humana. Sim, tudo
num frigorífico, deve ser sinistro: sangue, dor, crueldade e... lucros
extraordinários!”
O
leitor, que se nomeia assíduo, pede, a rigor, uma tipologia de texto comum no
jornalismo brasileiro desde os anos 1910: o fait-divers
violento. A excepcionalidade é a marca registrada das reportagens da dupla que
faz sensação junto ao público. Os temas induzem mais uma vez à polêmica,
mostram o desconhecido, o perigo eminente, tornando os próprios produtores da
notícia verdadeiros heróis. Heróis do jornalismo que serão lidos por pessoas
comuns que encontram naqueles relatos uma mistura de realidade e sonho. A mítica
do desafio induz o leitor a um mundo também de imaginação.
Como
resposta, a revista diz que a sugestão foi encaminhada a Jean Manzon e David
Nasser. E acrescentam:
“Mas como eles constituem
uma dupla autônoma, sobretudo na escolha de seus assuntos, nada podemos
adiantar se a sugestão foi aceita ou não. De qualquer maneira, foi recebida
com satisfação pelo O Cruzeiro, como índice do espírito de colaboração
que o público tão entusiásticamente nos dispensa” (O Cruzeiro,
05/06/1945).
O
leitor pode escrever a revista para expressar sua admiração pelo seu conteúdo,
para “aplaudir de pé e de todo coração”, para pedir sugestões sobre
leituras, para enviar textos literários escritos por eles mesmos. Os leitores
podem também expressar o desejo de se tornar participantes ativos daquele cenário
através da produção textual. Afinal, a leitura é indutora do desejo da
escrita.
Ao
lado das grandes reportagens ilustradas com profusão de fotografias, as páginas
humorísticas ganham cada vez mais destaque. Além de Pif-Paf de autoria de Milôr Fernandes, a popularíssima charge Amigo
da Onça reproduz sempre um tema do quotidiano. Na edição de 28 de junho
de 1945 o assunto é a situação de Getúlio no pós-guerra. Num comício
popular, no qual se vê placas com os dizeres “anistia”, “Viva a Rússia”,
“abaixo a ditadura”, “leite, carne e pão”, viva a democracia, o Amigo
puxa alguém a seu lado e instrui: “Grita, queremos Getúlio...”.
A
deposição de Vargas é noticiada com destaque por O
Cruzeiro. Jean Manzon, valendo-se das relações estabelecidas durante o período
em que trabalhou no DIP, fotografa os últimos momentos de Getúlio no
Catete.
“Manzon
depara com Getúlio, já ex-presidente, sentado à sua mesa, com os cotovelos
abertos e o tronco inclinado para frente. Segundo palavras do fotógrafo,
‘Vargas tem o jeito de um homem cansado, mas atrás de seus óculos de metal
seu olhar ainda está muito vivo e frio – ele parece um animal prestes a
atacar ou a defender-se com vigor’ (MORAIS, 1994: 457-458).
No
dia seguinte, o título explosivo: “A queda de Vargas, uma reportagem fotográfica
de Jean Manzon”. A essa altura, a revista é lida por milhares de leitores.
Milhares de leitores que vêm na publicação reportagens não apenas do domínio
do excepcional, mas que procura registrar – no momento mesmo do acontecimento
– instantes fundamentais para a construção de uma determinada história da
nação. A revista constrói-se como testemunha de uma época, reproduzindo, com
o apoio sempre da fotografia, momentos que são apresentados como unívocos.
Constrói-se dessa forma como produtores de uma história futura. E seus
dirigentes e jornalistas sabem desse papel.
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Marialva Barbosa
fez pós-doutorado
em Comunicação pelo CNRS/LAIOS, Paris, 1999 e é Doutora em História
Social pela Universidade Federal Fluminense (1995). Professora Titular de
Jornalismo da Universidade Federal Fluminense. Professora e atual
coordenadora do Mestrado de
Comunicação, Imagem e Informação da Universidade Federal Fluminense.
Membro do Comitê Acadêmico da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação.